OPINIÃO

Sexo: esqueça as rotinas

Há segredos para conseguir manter a qualidade do sexo numa relação longa?
Sexo: deixar as rotinas de lado
Sexo: deixar as rotinas de lado

O stress e a rotina podem ser uma dor de cabeça para os casais. Como tirar a vida sexual da crise perante tantas exigências? Como fazer as pazes com o nosso corpo? E como alcançar a perfeita ligação entre erotismo, sexo e amor? Em O Melhor Sexo do Mundo, Cristina Mira Santos explica tudo o que precisamos de fazer. Palavra de coacher sexual.

No início da relação perdemo-nos com gosto na geografia do outro. O sexo, os beijos, os amassos nos locais mais improváveis. Acreditamos que seremos sempre audaciosos, porque o amor tudo pode e tudo dá. Mas depois… depois vem a rotina. E o cansaço. E a falta de descanso a limitar os movimentos e a vontade.

A boa notícia é que existe solução para uma vida sexual em crise, garante Cristina Mira Santos. Reaprender a sintonizar-se e a querer entregar-se ao parceiro conduz diretamente ao melhor sexo do mundo, garante a coacher sexual. Sim, ele existe, não é mito urbano. E nem precisa de saber fazer ginástica acrobática para lá chegar.

«A energia sexual implica o contacto direto corpo a corpo, intensidade e sofreguidão para resultados imediatos, por isso costuma ser eficaz», escreve a especialista no livro O Melhor Sexo do Mundo. «Mas sabemos que a energia erótica, sozinha ou em parceria com a sexual, é capaz de elevar o êxtase a um nível superior.»

«Ainda há quem pense que a masturbação faz mal à saúde ou só se masturba quem não tem parceiro. E eu pergunto o que pode haver de errado com uma prática tão benéfica para o autoconhecimento? Porquê reduzir o sexo a uma penetração desinteressada, em que muitas vezes apenas o homem sente prazer?»

Cristina reconhece estarmos a ganhar a noção de que a sexualidade é, cada vez mais, uma prioridade da nossa existência.

«Exercitá-la é trabalhar a autoestima, o amor-próprio, a segurança em nós. Permite-nos resgatar o nosso poder pessoal, bem mais importante do que ter um orgasmo.»

E é justamente esta noção de empoderamento pessoal que a inspira. «Poder no sentido de voltarmos a tomar as rédeas da nossa vida, não de dominar o outro», traduz. Não que o papel de submissão não seja poderoso em termos eróticos, mas é preciso que a mulher o escolha em consciência, sem se entregar na cama por obrigação. Também os homens vivem subjugados por um peso social castrador, que lhes exige total disponibilidade: afinal, que tipo de macho admite não ter vontade?

«A ideia de poder tem sido muito maltratada e, no fundo, parte tudo da nossa falta de apreço pelo corpo: não somos capazes de honrar o que desconhecemos. Estando em desarmonia connosco, todas as razões são boas para se pôr a sexualidade em segundo plano. E a verdade é que sabemos muito pouco acerca de sensações e do que nos satisfaz», lamenta a coacher, há cinco anos a debater-se com as dúvidas dos portugueses. Ensinam-nos desde pequenos que é feio explorarmos a nossa própria anatomia – pior do que isso, só mesmo explorar os orifícios dos outros. Mas o sexo só ganha qualidade se todos os sentidos forem despertados. «O nosso inconsciente coletivo está ainda muito marcado pela vergonha, como se fazer amor fosse sujo. Um momento tão puro e tão digno, tão poderoso que pode gerar vida, tem de ser feito com respeito.»

E respeito, aqui, não significa que tenha de ser com o parceiro da vida toda, ressalva desde logo, para que não haja desculpas. Não está escrito em lado nenhum que o sexo tem de ser a dois. «Pode fazê-lo sozinho, num relacionamento pontual, com mais de duas pessoas. Pode simplesmente ativar a energia erótica trocando olhares com um estranho no metro.» Às vezes, diz, um bom abraço antes do ato já traz aquilo de que vamos à procura no envolvimento sexual. «Se tomarmos o amor como a parte emocional da relação, o sexo como a parte física e o erotismo como a parte espiritual, na cama é tudo uma questão de decidirmos o que faz sentido para nós na ocasião e entregarmo-nos.» E aí vale tudo menos ir lá parar contrariado. Ou adormecer de tédio.

«Fazer amor é como ir ao restaurante e ter de escolher entre uma série de opções da ementa amorosa.»

Há a fast-food, com menos erotismo e intimidade, e mais energia sexual (a tal rapidinha); refeições demoradas, a requerer mais tempo para o erotismo e menos para o sexo (apesar de ele acabar por acontecer – e intenso – depois de tantos preliminares); menu de degustação para o casal que busca um momento de profundo envolvimento físico e emocional, alinhando amor, sexo e erotismo. «Esse seria o sexo gourmet, em perfeita consciência, que muita gente não alcança por estar tão preocupada em lá chegar que se esquece de se abandonar ao outro.» E é esse o melhor sexo do mundo? «Sem dúvida, embora todas as modalidades sejam boas, dependendo do que apetece. O objetivo é ter refeições plenas, mas ficaríamos saturados se comêssemos sempre o prato gourmet

Querer tocar o parceiro, cheirá-lo, prová-lo, sentir as asperezas da pele, são qualidades que se vão perdendo se não nos acautelarmos. A espontaneidade funciona bem em relações recentes e nos filmes, depois há que treiná-la para não morrer. «Já perdi a conta aos maridos que me enviam as esposas por quererem que sejam sex bombs, mas isto não funciona assim. Às vezes, quando me procuram, as relações estão tão deterioradas que pouco ou nada há a fazer. Além de que muitas os deixam mal recuperam o seu poder pessoal, cansadas de tanta insatisfação.» Cristina ouve as dificuldades dos casais, procura chegar às causas partindo dos sintomas, ensina-os a avaliar a relação. Se vale a pena investir (nem sempre acontece), trabalha com eles a reconexão íntima com o corpo, a expansão do potencial erótico e a importância dos rituais que os conduzam a um envolvimento mais profundo.

«O ritual serve para gerar bem-estar. Não deve ser um frete no qual se deposita a sobrevivência da relação», avisa a coacher. Também não exige retiros na montanha ou cerimoniais complicados: apenas guardar algum tempo na agenda para largar os filhos, os afazeres, e expressar o amor que os une. «Não há ali nada que não saibamos todos, é uma questão de se olhar as coisas de outra perspetiva. Podemos variar nos locais, nos alimentos, nas posições, nas brincadeiras, em quem prepara. Ser-se criativo na sexualidade é garantia de sucesso.» Se já experimentaram todas as fantasias e carícias atrevidas, inventem novas. Criem um encontro diferente a cada mês, elevem-se nele. Contem os minutos até ao próximo. Se se sentirem a oscilar à beira de um abismo, deixem-se ir. «O melhor sexo do mundo é aquele que nós próprios fazemos. Só temos de redescobrir essa capacidade.»


CRISTINA MIRA SANTOS
É psicóloga social, formada pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada de Lisboa (ISPA), com uma pós-graduação em sexologia clínica pela Sociedade Portuguesa de Sexologia. Formada em sexualidade sagrada com Amala Shakti Devi, mentora de um projeto em Marvão para o resgate da arte de amar. Atualmente trabalha em sexologia clínica, aplicando o método da psicoterapia da consciência que desenvolveu a partir de ensinamentos ancestrais, adaptados a protocolos terapêuticos comprovados. Desenvolve workshops e formações na área da sexualidade. Tem 44 anos e duas filhas (de 11 e 13) com quem fala abertamente sobre o tema.

Ana Pago
Ilustração Alberto Ruggieri/Getty Images