OPINIÃO

Arte urbana: os muros da liberdade

As paredes começaram a falar em abril de 1974. E nunca mais se calaram.

Abril de 1974 converteu as ruas em espaços de expressão ideológica. Queixas sociais? Crítica política? Pegava-se em pincéis e ia-se para os muros falar de emprego, salários, educação, saúde. E não, as lamentações não eram, não são, pieguices. Eram abanões, então como agora. Cantos de luta pintados na pedra. Palavras de ordem ao tanto que podemos fazer. Se é preciso estimular o pensamento crítico, nada melhor do que uma parede. Entra pelos olhos dentro. Os artistas urbanos Miguel Januário (MaisMenos), Nuno Reis (Nomen) Miguel Caeiro (RAM), Lara Seixo Rodrigues e Frederico Draw falam dessa herança de abril.

Desde sempre que na casa de Miguel Januário, no Porto, se discute política e justiça social. Andava de skate com as ideias a mil, atento ao conformismo à sua volta, e fervia: tanta parede vazia e tanto por dizer, como era possível? «Comecei a fazer graffiti como forma de protesto, materializando o que pensava nas ruas, para o público. Mas não chegava. » Precisava de agitar, contrariar, transformar. Fazer como os revolucionários no pós-25 de Abril, que pintavam murais a reivindicar saúde, habitação, direitos dos trabalhadores, sacudindo a letargia do fascismo. Há muito tempo que Miguel se considera herdeiro dessa forma – e dessa liberdade – de expressão de Abril. Fará bom uso de ambas enquanto sentir que a revolução não foi totalmente conseguida.

 

Arte urbana
MaisMenos [Miguel Januário], fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens

«Acho que o país está de novo a viver, como em 1974, a necessidade de romper com o sistema para encontrar uma saída», explica o street artist de 34 anos, conhecido como MaisMenos desde que criou o projeto de intervenção homónimo em 2005, para mudar mentalidades. «Digo que a revolução não foi cumprida porque a democracia que veio a seguir é capitalista, baseada em sistemas que só os gestores dizem funcionar, e estamos cada vez mais individualistas, mais egoístas, sem qualquer sentido de comunidade nem espaço para sair fora da norma.» A prova disso é que os murais revolucionários foram apagados e essa memória tem vindo a ser destruída, por conter uma série de mensagens que não interessava lembrar. «Estamos a afastar-nos dos valores de Abril.»

MaisMenos vê esse incumprimento no desemprego, na injusta distribuição da riqueza, na forma como a publicidade se apropria do espaço público a troco de dinheiro. Pela parte que lhe toca, voltar aos murais é reclamar justamente esse espaço para educar a sociedade. Avisá-la de que está a ser traída e reprimida, fazê-la pensar. «Vêm os festejos da revolução, vamos lá participar e pôr uns cravos. Enquanto isso, grande parte do setor político desvirtua aquilo que realmente foi o 25 de Abril e vemos o Miguel Relvas a cantar a Grândola, Vila Morena, após tantos danos à democracia.» Mas estamos num momento de viragem histórica a nível europeu, acredita. «Isso também trará as suas consequências no que toca à intervenção de rua e a esta tentativa de falar com o público.»

 

Arte urbana
Nomen [Nuno Reis], fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens

Nomen, 42 anos e pioneiro do graffiti em Portugal, é outro que não receia ser chato e revolucionário quando se trata de pintar umas verdades. «Já fui aquela pedrinha no pé de muita gente, deve ser por ter nascido em 1974», ironiza. Ninguém o conhece como Nuno Reis no universo da arte urbana (provavelmente só a mãe lhe chama assim). Ignoram as potencialidades de uma lata de spray nas suas mãos, mas pasmam ao ver as figuras gigantes em lugares de grande tráfego citadino, icónicas e diretas. «Se uma só pessoa consegue ser tão impactante a denunciar a injustiça social, imagine-se a mudança que não poderíamos fazer juntos. Infelizmente, o público português hoje não é de arriscar muito. Era necessário outro espírito, em vez de empunhar cartazes de desagrado. Isso não serve para nada.»

Segundo Rui Bebiano, diretor do Centro 25 de Abril na Universidade de Coimbra, a arte urbana não existia em Portugal no período que antecedeu o 25 de Abril. «Umas quantas palavras de ordem contra o governo da época, rabiscadas à pressa, eram imediatamente apagadas pela polícia e os seus autores perseguidos», conta o historiador, familiarizado com esta tradição essencial à vida das próprias democracias. Por cá, ela surge com a revolução e o desejo de liberdade e de intervenção que a acompanhou. «Nessa altura irrompeu de modo expressivo, testemunhando escolhas, reivindicações e várias formas de intervenção. Uniaas a expressividade democrática que contiveram. E na sua origem esteve, sem dúvida, um profundo desejo de liberdade.»

Carlos Martins, 72 anos, sabe do que fala o especialista. Dedicou boa parte do seu tempo e energia a divulgar os princípios ideológicos que lhe moldaram a existência. Era pintor durante o dia, de profissão; nada mais lógico do que prolongar esse talento também à noite, tirando os originais da cabeça para a parede, para as pessoas verem que ainda havia quem dissesse as verdades. «Comecei em 1969 até agora, que estou reformado. Quando era preciso a gente carregava no botão, conversava e pumba. Era só
multiplicar do A3 para um muro de quatro ou cinco metros.»

Perdeu a conta aos murais que fez em Almada, a sua cidade, comunista como ele, mas também no Porto, Espinho, Aveiro, Ovar. «Cá, depois do 25 de Abril, não precisava de fugir à polícia, mas em Espinho ainda me arriscava em 1975.» Aí pintou o mural mais perigoso, dedicado à terra, ao desenvolvimento, ao socialismo. «Estavam constantemente a vandalizá-lo e nós a restaurá-lo. Chegámos a fazer coisas numa noite: mesmo torto, o importante era passar a mensagem.» A sua vida foi luta, pauladas de cassetete, nervos arruinados. No fim, porém, isso mantém-no vivo.

A ele e a Edmar Pires, 69 anos, outro camarada. «Pintei bastante sobre o poder local, reformas agrárias e o Lenine em muros velhos», recorda o desenhador, habituado a dar o traço que outros enchiam. Quase sempre em Paço de Arcos, por ser a sua zona, mas também em Lisboa. «Uma vez fomos para o Terreiro do Paço, pintar foices e martelos à frente da estátua, e de manhã nem queira saber o embate! Quem também tinha grandes muralistas era o PCTP/MRPP: António Alves, Seixas do Carmo, Rosário Félix.»

Nomen concorda que enquanto houver jogos de poder e gente descontente, haverá mensagens pintadas expressando esse descontentamento. «Não sou de esquerda, centro ou direita. Sou eu e gosto de saber que a minha arte serve uma causa nobre.» As Marionetas de Merkel, que pintou junto ao Amoreiras Shopping Center em 2012, lá continua dos tempos em que era considerado o Che Guevara dos murais, por apontar a mira a políticos, corruptos e maçons. Ao mural do Relvas, feito no mesmo sítio, pintaram-no de preto: aí sentiu a censura na pele. «Andei nisto de 2011 até 2014, achava que o país precisava de luzes», justifica. Hoje menos romântico, vai além do muralismo de intervenção social e é requisitado por autarquias, particulares e empresas pela qualidade do seu traço.

 

Arte urbana
Lara Seixo Rodrigues, fotografia de Fernando Fontes/Global Imagens

 

É um homem com fogo nas veias, o Nomen, confirma a arquiteta Lara Seixo Rodrigues, 36 anos. Ele e o Miguel Januário. «Muitos artistas urbanos colocam o seu estilo na rua, inspiram-se nela para criar, mas julgo que só o Nomen e o MaisMenos demonstram atualmente essa preocupação social e política própria dos murais do 25 de Abril.» De vez em quando há ações contestatárias, levadas a cabo por autores como a Tinta Crua, Dalaiama e outros com créditos firmados, mas mais pequenas e pontuais. «No meu caso, apaixonei-me pelo graffiti antes de ele chegar a Portugal, nos anos 1980, de revistas que lia e férias que fazia no estrangeiro. O meu irmão e eu acreditávamos que a nossa terra, a Covilhã, tinha um otencial enorme para se fazer coisas. Fomos à luta.»

Apresentaram uma candidatura à DGArtes, conseguiram financiamento e em 2011 fizeram a primeira edição do WOOL – Festival de Arte Urbana da Covilhã, onde Lara percebeu que podia ter aquilo de que mais gostava em arquitetura e perdia no atelier: promover transformações rapidamente. Não é muralista, na medida em que só pinta como assistente dos «verdadeiros» artistas, mas sabe ler cidades. Então desenha um projeto, chama os street artists que possam responder melhor e trabalha como curadora, produtora e no que mais for preciso para gerar diálogo. «É difícil obter autorizações, ainda há muito preconceito: as pessoas acham sempre que vamos sujar as paredes. Depois começamos e adoram, pedem mais. É quando percebes que está a resultar.»

Rui Bebiano não sabe se é justo chamar aos novos graffiters sucessores de Abril, já que vivem uma realidade diferente e perseguem objetivos também diferentes. Prefere vê-los como seus continuadores. «Eles prolongam a tradição de uma expressividade artística e de política informal que em Portugal foi tornada possível com a revolução», explica o historiador. «Acredito que os novos murais têm esse sentido libertário. Salvo aqueles que são concebidos de forma artificial ou por encomenda, são como um grito, um alerta.» E existirão sempre razões para gritar e alertar, diz. Sobretudo por uma esquerda mais liberta de preconceitos, reivindicativa e próxima de setores politizados com alguma autonomia. «Antes assim do que deixar essa área nas mãos do Estado e da sua propaganda, como acontece, por exemplo, na Coreia do Norte.»

 

Arte urbana
Frederico Draw, fotografia do arquivo pessoal do artista

 

Frederico Draw reconhece que a street art, hoje, está mais afastada dos tempos em que se pintava a revolução, tirando uns poucos que continuam a ter um trabalho estritamente de mensagem interventiva, social, política e cultural. «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Ou mudam-se as lutas, já que os mais novos estarão motivados a trabalhar e a lutar por outros problemas da sociedade atual», sublinha o artista. Aos 27 anos, mestre em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, começou a pintar na rua em 2001, bastante jovem. «Sempre gostei de desenhar em miúdo. A passagem para o graffiti deu-se naturalmente à medida que fui tomando conhecimento deste registo, na altura muito associado ao hip hop

Não imagina os desaires por que terão passado Carlos e Edmar, mas bastou-lhe ver um retrato de Salgueiro Maia em 1974, tirado pelo fotojornalista Alfredo Cunha – fardado, sereno, a olhar em frente –, para saber que o capitão de Abril daria um belo mural na Avenida de Berna, em Lisboa. O convite partiu da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa, a partir do ciclo de conferências A Revolução de Abril – Portugal 1974-1975. Frederico pintou-o em 2014, ao lado de uns punhos cerrados de Gonçalo Ribeiro (MAR), das espingardas de Diogo Machado (Add Fuel) e da visão simbólica de MaisMenos sobre o antes e o depois da revolução. «O que é que o mural tem? Acima de tudo, o facto de ser público. Está na rua diante do olhar de qualquer um, independentemente da sua crença ou estatuto social. É a arte de todos.»

 

Arte urbana
Miguel Caeiro [RAM], fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens

Também o graffiter Miguel Caeiro, RAM para quem lhe segue a obra, garante que as paredes falam e são o reflexo de um país. «As ruas são um prolongamento da publicidade da televisão e dos jornais, o público está habituado a ela. Quando aparece algo em grande escala, pintado à mão, dá-se o efeito mágico de percebermos que o ser humano consegue, de facto, comunicar, e nem sequer precisa de pagar para entrar, como nos museus e nas galerias.» Se está na rua é uma oferta, então as pessoas param, olham e sentem. «O graffiti é uma frente isolada em relação à arte mural: desafia esse espaço público contaminado, o espaço abandonado e toda uma máquina que vicia a vida urbana. A meu ver, política, religião e futebol são universos nos quais o graffiti não faz tanto sentido, e aí entra o muralismo.»

Em 39 anos de vida, RAM travou muitas lutas com o betão das cidades desde que começou a intervir clandestinamente em 1997. É rebelde, tem mão rápida para o spray e uma amplidão de espírito que só lhe pode vir dos ares de Sintra, onde nasceu. «Há 42 anos devia ser muito mais complicado em termos de repressão, por outro lado era novidade e as entidades não sabiam como resolver », aponta. Filho de pais que foram a geração após a revolução, profissionais extremosos a trabalhar para o Estado, dói-lhe ver que tinham tudo para gozar uma boa velhice e não podem, porque lhes cortaram a reforma. «Há muita pintura que é constantemente apagada. Nas ruas leio que existe uma democracia controlada e que esse controlo está fora do nosso controlo.» Ainda assim, não duvida: tudo isto só é possível porque existiu o 25 de Abril em Portugal.

Ana Pago
Fotografia de Orlando Almeida, Gerardo Santos e Fernando Fontes/Global Imagens, aquivo DN e arquivo pessoal dos artistas