O coro de Viseu que só aceita bons alunos

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Para entrar no coro Mozart não basta ter boa voz. É preciso ter boas notas também.

A partir de Viseu, longe dos grandes centros urbanos de Lisboa e Porto, um grupo de setenta vozes juvenis tem impressionado no país e no estrangeiro. Nos últimos onze anos, o Coro Mozart fez mais de seiscentas atuações, entre programas de televisão, palcos pequenos e outros importantes. Aqui, sob a batuta do maestro Dionísio Vila Maior, ter boa voz é tão importante como ter boas notas.

Pedro ficou sem chão quando o maestro Dionísio Vila Maior lhe disse o que os seus ouvidos, na altura com 11 anos, não queriam escutar: «Disse-me que eu era desafinado, que o meu tom não era o mais correto e que dificilmente conseguiria entrar para o Coro Mozart».

Quatro anos depois de muitas lágrimas, audições, treino e pedidos a Nossa Senhora de Fátima, Pedro Gonçalves conseguiu finalmente entrar no coro. Hoje tem 17 anos e lembra-se bem do que foram esses tempos. Tudo começou em dezembro de 2009, quando assistiu a um concerto do coro na Aula Magna do Instituto Politécnico de Viseu. Ficou sem palavras. Sentado numa das cadeiras azuis da sala, olhava fascinado para os setenta coralistas, de calças de ganga, T-shirt ou sweat vermelha (já foi azul) e ténis brancos. Cantavam músicas de nomes tão conhecidos como Roger Waters, Freddie Mercury, Aretha Franklin, Paulo Gonzo, Jorge Palma ou Rui Veloso. Todo o repertório, num total de noventa canções de vários estilos, é interpretado com quatro ou mais vozes, incluindo um tema a cappella, a nove vozes. A orquestração é previamente gravada. E Pedro, filho de um engenheiro que o habituou, desde pequeno, a ouvir Queen, ficou fascinado. «Eu ouvia as músicas e ficava com pele de galinha.» Mas havia algo mais a chamá-lo para o coro. «Sentia que existia uma grande união entre eles.»

Quando foi pela primeira vez exibir a voz ao maestro levou também a irmã, de 6 anos. Pedro saiu envergonhado. «A Joana entrou, eu não.» E não foi caso único. Dionísio Vilar Maior, o exigente maestro e diretor artístico, autor dos arranjos musicais, garante que é sempre «objetivo e rigoroso». O próprio filho, pelas mesmas razões, também teve de aguardar um par de anos até se juntar à irmã que já cantava no Mozart. «Outro compositor famoso, Beethoven, dizia que um génio tem um por cento de genialidade e noventa e nove por cento de transpiração. Não basta ser bom, tem de se trabalhar e refletir muito. É esta filosofia que tento transmitir ao grupo.»

E foi isso que disse ao Pedro. Para não desistir. Teria de trabalhar e voltar no ano seguinte. Regressou dois anos depois. Falhou. Insistiu novamente. Começou a tocar notas no piano, a imitá-las e a treinar as músicas do coro. Numa digressão a Andorra, em que ele e os pais tiveram de acompanhar a irmã, o coro integrou-o. «Passei a andar com eles no autocarro, dormia com eles. Só não podia subir ao palco.» Quando regressou a Viseu pediu mais uma oportunidade. «O maestro disse-me que sim, mas para treinar mais um mês.» No dia em que foi prestar provas, o grupo apareceu em peso a dar-lhe apoio. No final, Dionísio disse-lhe: «Se te quiseres mudar para o Benfica também podes mudar-te para o coro.» Pedro alinhou na brincadeira. «Não me faça uma coisa dessas, gosto muito do Sporting.» A seguir, todos o abraçaram. Finalmente era um Mozart.

Dionísio Vila Maior, 50 anos, professor universitário de Interartes e Literatura Portuguesa e com formação musical, faz questão de ter «um coro de excelência». É uma palavra que repete aos coralistas, todos com ligações à música, mas de diferentes realidades económicas e provenientes de vários pontos do distrito de Viseu. «Este não é um coro elitista.» Mas a todos exige um nível vocal elevado, espírito de equipa, amor à camisola e que sejam bons alunos na escola. Ou que passem a ser. É critério obrigatório.

A média de notas do grupo é de 18,5 valores. «Um bom aluno é um bom coralista. Porque trabalha, tem disciplina, dedicação e brio», diz o maestro. E porque se o rendimento escolar for bom, os pais não retiram os filhos do coro para irem às explicações em dia de ensaios.

É o que acontece aos sábados de manhã, na antiga escola primária de Travassós de Baixo, Viseu, de arquitetura típica do Estado Novo e recuperada e cedida pela Câmara Municipal. Numa das salas de chão de madeira, onde ainda resta um quadro de ardósia, treinam-se as coreografias. Noutra foi colocado um anfiteatro, que serve de palco durante o ensaio das músicas. E também é aqui que o grupo se senta a ouvir as lições do maestro. Nos intervalos, Vila Maior costuma estar atento à música que os jovens ouvem nos telemóveis e algumas passam a fazer parte do repertório. «Em casa ouço muita música, faço muita pesquisa.»

Constança Maurício, de voz aguda, faz um solo em inglês. O seu sonho é ser cantora. O gosto pela música herdou-o da avó, que também canta no coro, mas da Igreja de Várzea de Calde. «O maestro disse-me que tinha uma grande voz», diz a garota de 9 anos, a mais nova do grupo, que aprendeu a tocar violino no Conservatório de Azeredo Perdigão, em Viseu, e viola na escola.

O ensino da música hoje é bem diferente do que se fazia no tempo de José Carmo. «Na escola só se aprendia flauta e flauta», lamenta o diretor cultural e cofundador do coro Mozart. Tem 48 anos, estudou piano no Conservatório de Música de Viseu, frequentou a Escola de Jazz do Porto e, na mesma área, fez várias formações em Los Angeles, EUA. Recusou-se a aprender flauta na escola. «Ainda hoje não sei.» Mas isso não o impediu de abrir, em 1998, a Escola de Música Mozart, em Viseu (já teve delegações em Aguiar da Beira, São Pedro do Sul e Castro Daire), de onde sai a maior parte dos elementos que integram o coro.

A história do Coro Mozart cruza-se com a destes dois homens. No verão de 2004, Dionísio Vila Maior andava à procura de um banco de piano para comprar, o que o levou a casa de José Carmo – que tinha um para vender. Os dois homens não se conheciam, mas a conversa fluiu e o segundo disse ao primeiro que gostava de ter um coro. «Os olhos do Dionísio ficaram logo a brilhar», recorda Carmo, que já tinha um estúdio de produção.

Depois das audições com uma centena de candidatos, escolheram 25 vozes. O coro Mozart nasceu a 27 de janeiro de 2005, o dia em que se celebravam os 249 anos do nascimento do padroeiro. De então para cá, passaram pelo coro mais de 250 elementos. Subiram ao palco da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, cantaram no Casino da Figueira da Foz, atuaram em igrejas em Paris, impressionaram em Salamanca e Valladolid, passaram por festivais e encontros, colóquios e congressos. Ao todo, foram cerca de seiscentas atuações – o mesmo número de obras que o compositor austríaco compôs. Se tivessem aceitado todos os convites (incluindo 17 para o estrangeiro, só no ano passado), teriam dado 1500 concertos, garante o maestro.

Houve um, em particular, que lhes custou muito recusar. O compositor norte-americano Karl Jenkins, que os encontrou no YouTube, queria que o coro interpretasse as suas obras no Carnegie Hall, em Nova Iorque. Mas os custos eram altíssimos. «Tínhamos de suportar o custo das viagens dos 70 jovens e de mais dez adultos da direção», diz o maestro. «Precisávamos de cerca de 120 mil euros.» Ainda pediram ajuda a várias instituições, mas ninguém se chegou à frente. «É por isso que procuramos um mecenas que veja a qualidade e o valor deste grupo. Contamos com o apoio financeiro da Câmara Municipal de Viseu, mas não é suficiente para as despesas de um grupo que segue à risca a filosofia: “Um por todos e todos por um.” Ou vão todos ou não vai ninguém. Temos recusado convites para ir à televisão por não haver lugar para tantos. Poderíamos ser mais conhecidos, mas para ganhar a visibilidade com meia dúzia teria perdido o afeto de 50.»

«O maestro olha para nós como filhos», diz Carolina Ferreira. Há sete anos que está no coro. Tem os cabelos castanhos e compridos, como as outras raparigas, que estão em maioria, entre os 17 rapazes. A jovem de Tondela é a mais velha do grupo. Com 22 anos terminou o curso de Enfermagem e é vice-presidente do Mozart. Integrar, orientar e dar o exemplo aos mais novos são funções que desempenha.

«Ficamos atentos aos problemas de todos. Os pais procuram-nos para ajudar os filhos, por questões escolares ou até familiares. O coro é uma segunda família, um porto de abrigo.»

Pedro Almeida, de 21 anos, também é vice-presidente e tem no coro a família de sangue. Os pais, Paulo e Linda Almeida, fazem parte da direção, e o irmão, João, de 18 anos, também é corista. Já sabia tocar violino e foi um dos primeiros elementos a entrar no coro em 2005. Está no quarto ano do curso de Medicina, na Universidade de Coimbra, a oitenta quilómetros de Viseu. «Mas em 11 anos só faltei a cinco concertos porque estava fora», diz orgulhoso o futuro médico, que sabe que em breve terá de deixar de ser coralista. Ficou frustrado por não ir a Nova Iorque, mas pelo menos ainda pode integrar o coro e cantar New York, New York, de Frank Sinatra. Foi o tema que abriu, no mês passado, o Viseu Cantat, o primeiro encontro de coros da cidade, que decorreu na escadaria da Igreja da Misericórdia, virada para o Adro da Sé, repleta de gente.

Pedro Gonçalves, que tanto andou para entrar no Coro Mozart, diz sentir agora a música de outra forma por lhe ter dado uma lição de vida. «Por muito que o céu esteja escuro, temos sempre de acreditar que vai haver um dia de sol.»

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MÚSICA, MAESTRO
Dionísio Vila Maior nasceu há 50 anos em Lourenço Marques, Moçambique, e é o mais velho de quatro irmãos. Aos 3 anos já tocava piano. Em Portugal terminou os estudos musicais no Conservatório Dr. Azeredo Perdigão, em Viseu, e no Conservatório de Música do Porto. Entre 1992 e 2009 dirigiu diversos coros. É autor de mais de 150 obras musicais de harmonização vocal e orquestração. Doutorado em Literatura Portuguesa, é professor de Interartes e de Literatura Portuguesa na Universidade Aberta e investigador na Sorbonne, em Paris. É também investigador convidado em diversas instituições académicas nacionais e estrangeiras. Estudioso de Fernando Pessoa, Dionísio Vila Maior tem múltiplos trabalhos publicados e conferências proferidas sobre o escritor português. Vive em Viseu há 16 anos, é casado e tem dois filhos.

LES MISERÁBLES, O MAIS RECENTE DESAFIO
O espetáculo que atravessou gerações, baseado na obra literária de Victor Hugo, é a mais recente produção do Coro Mozart. Dionísio Vila Maior fez a adaptação e a coreografia, com base em várias interpretações que correm pelo mundo e em vários grupos teatrais. A versão do Coro Mozart, com uma duração de 35 minutos, estreou no Teatro Viriato e fechou o encontro de coros Viseu Cantat, no passado dia 15 de junho, no adro da Sé Catedral da cidade. A produção também já está disponível num dos dez DVD do coro.

 

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