OPINIÃO

O campo

Perdoe-se-me o devaneio estival: esta crónica vai ser levada a passear no campo. Tive muita vontade de o fazer de outras vezes, mas a vida, a realidade, o quotidiano ou lá o que seja ainda não tinham deixado que fôssemos, eu e a crónica, atrás do rápido rasto de luz deixado pela cauda de uma […]

Perdoe-se-me o devaneio estival: esta crónica vai ser levada a passear no campo. Tive muita vontade de o fazer de outras vezes, mas a vida, a realidade, o quotidiano ou lá o que seja ainda não tinham deixado que fôssemos, eu e a crónica, atrás do rápido rasto de luz deixado pela cauda de uma raposa que nos saiu à estrada, se imobilizou por um brevíssimo instante diante dos faróis e depois desapareceu na escuridão do campo, perdendo-se e perdendo-nos no território de mistério e medo que são as montanhas depois que anoitece. Não se escuta quase nada, apenas o rumor de algum regato, o pio de uma ave noturna, o movimento furtivo de algum animal cuja simples presença assusta.

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Agora que é verão e ainda não se extinguiu a doce festa das noites mornas, a sinfonia áspera dos grilos e dos ralos compõe uma outra espécie de silêncio. Uma estrela cadente risca o céu e os faróis do carro revelam uma, duas, três lebres que saltitam pela estrada de terra batida antes de regressarem ao conforto do feno ressequido, às tocas escavadas na base milenar das oliveiras. O gado desperta logo que amanhece e esboça no ar puríssimo a nuvem de poeira bonita que assinala o movimento da manada, a sua transumância diária entre a escuridão da noite e a sombra dos chaparros – uma fila de trânsito sem eco nos flashes informativos das estações nacionais de rádio.

O milhafre voa em círculos à procura do que comer, um besouro colide e colide na parede branca de cal. Formigas grandes e ágeis afadigam-se numa missão insensata de tão humana que parece. Eu e a crónica observámos o afã e o stress delas e não percebemos o que as move, o que nos move durante o resto do ano. Corremos para quê? À tarde, o bando das andorinhas vem esvoaçar entre as oliveiras e os chaparros, trapalhão, livre e louco.

A noite cai outra vez. Estamos refastelados no campo e o ar enche-se de perfumes e de ruídos: feno, cães ladrando às lebres que abandonam as tocas, cigarras, grilos, um burro distante que zurra, os badalos do gado, a noite imensa. Eu e a crónica levantamos o nariz e vemos a enorme quantidade de céu que temos sobre a cabeça. Insensatos, desejamos que pudesse ser sempre assim: infinito.

(Fotografia de Manuel Jorge Marmelo)

[Publicada originalmente na edição de 4 de setembro de 2016]