Música para os nossos ouvidos

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E para os estados de alma também.

A música pode ser «triste» ou «alegre». Pode deixar-nos desconfortáveis ou motivar-nos. E a canção certa pode ajudar a melhorar o humor, aumentar o rendimento desportivo e a acordar. Porquê? Está tudo escrito na pauta. E os compositores já sabem isso, quando criam a melodia.

Basta ligar o rádio, pôr um disco a tocar, selecionar um ficheiro MP3 ou um vídeo no YouTube para a música nos transportar para sítios distantes, para recordar a adolescência, uma pessoa em particular ou um momento especial. Mas há mais na música além das associações que lhe fazemos. As músicas fazem parte da nossa vida, mas também têm uma vida própria que nos influencia.

Bono Vox, vocalista dos U2, disse que a música pode mudar o mundo porque pode mudar as pessoas. E pode mesmo. Além de influenciar positivamente o sistema endocrinológico e imunitário – razão pela qual a musicoterapia tem cada vez mais expressão –, a música ativa os circuitos neurais, entre eles o sistema límbico, responsável pelo controlo das emoções. O neurologista Oliver Sacks, nome incontornável na investigação sobre os efeitos da música no cérebro, defendia mesmo a música enquanto forma direta de comunicação emocional e uma parte tão importante da vida humana como a linguagem e os gestos.

Assim, não é surpreendente que uma canção nos possa fazer sentir tristes e emocionados, melancólicos e perturbados, ou pelo contrário, animar o nosso estado de espírito, elevando o humor. Mas a forma como isso acontece não é aleatória e está já bastante estudada. São os principais elementos constituintes da música que moldam as nossas emoções e não há compositor que não tenha em mente o que quer fazer sentir quando se senta em frente a uma pauta em branco.

E são os principais elementos constituintes da música, a melodia (a sucessão de notas e silêncios), a harmonia (acordes maiores ou menores que definem a tonalidade) e o ritmo (o número de batidas por minuto – Bpm) os principais responsáveis por aquilo que a música nos faz sentir. A eles juntam outros elementos, como o timbre (o som dos instrumentos usados para a interpretar ou a voz de quem canta), a letra e a dinâmica da música. Exemplos práticos disto no cinema: a cena que puxa à lágrima no filme romântico é, por norma, acompanhada de música numa tonalidade menor; nos filmes de suspense, momentos antes de um desenlace na trama, é usado o crescendo; a ocasião de alegria explosiva na comédia romântica tem provavelmente um ritmo que se situa acima de 90 Bpm e tonalidade maior.

PUXAR A LAMECHICE
Someone like you, de Adele, puxa-lhe à lágrima? O culpado tem um nome, identificado pelo psicólogo John Sloboda num estudo publicado em 1991: chama-se appoggiatura melódica e é um recurso de composição usado para intensificar a sensação de tristeza. A appoggiatura é um ornamento que precede uma nota e que, defende o psicólogo Martin Guhn, coautor de um estudo sobre o tema, gera uma tensão em quem a ouve. Depois, quando ela termina e ficamos de novo apenas com a melodia, isso causa-nos uma sensação de bem-estar. A repetição desta estrutura ao longo de uma música pode puxar à pieguice e à lágrima. Ou seja, não são só as letras que nos fazem piegas.

E MÚSICA SEM TOM?
A cor harmónica, ou seja, os acordes maiores ou menores que definem a tonalidade, é a que associamos à alegria (quando a tonalidade maior) e à tristeza ou melancolia (quando a tonalidade é menor). E se ouvir a tonalidade? Surgida após 1908, em pleno movimento expressionista, a música atonal caracteriza-se pela total ausência de uma nota central e faz um uso livre das 12 notas da escala cromática, o que faz que não tenha uma tonalidade predominante, como estamos habituados. Mas será que isso faz dela neutra emocionalmente? Nem tanto. Por norma é classificada como soturna. Compositores a ouvir para quem quer experimentar a atonalidade: Arnold Schönberg, Alban Berg, Anton Webern e Krzysztof Penderecki.

MÚSICA PARA CORRER
Costas Karageorghis, investigador de psicologia do desporto da universidade britânica de Brunel, tem vindo a estudar este tema há vários anos. A música ideal para correr depende de muitas coisas. Mas sabe-se que a que genericamente melhor se adapta à corrida e a exercícios de cardiofitness se situa acima das 123 batidas por minuto.

Moves Like Jagger (Maroon 5 ft Christina Aguilera) – 128 Bpm
Beat It (Michael Jackson) – 139 Bpm
Dog Days Are Over (Florence and the Machine) – 150 Bpm
Don’t Stop Me Now (Queen) – 154 Bpm
Take On Me (A-ha) – 170 Bpm
Paper Planes (MIA) – 172 Bpm

MÚSICA PARA ACORDAR
David Greenberg, psicólogo da Universidade de Cambridge, fez um estudo em colaboração com a Spotify para garantir um acordar menos sofrido através da música. Letras otimistas, 100 a 130 batidas por minuto e dinâmicas musicais em crescendo parecem ser a receita para aumentar a motivação e melhorar o humor pela manhã.

– St. Lucia – Elevate
– Macklemore & Ryan Lewis – Downtown
– Bill Withers – Lovely Day
– Avicii – Wake Me Up
– Pentatonix – Can’t Sleep Love
– Arcade Fire – Wake Up
– Hailee Steinfeld – Love Myself
– Sam Smith – Money On My Mind
– Esperanza Spalding – I Can’t Help It
– Katrina & The Waves – Walking on Sunshine