OPINIÃO

A fofura e a sobrevivência da espécie: tudo ligado

A sociedade está cada vez mais apegada às coisas fofas, como um vício.
fofuras
fofuras

E se nem todos gostamos exatamente das mesmas, nem tentamos todos preencher um vazio emocional com elas, diz-nos a ciência que nos sentimos sempre mais felizes e atenciosos ao ver uma fofice. Homens incluídos.

Tantas vezes foi gozada pelas fofices que usa – ténis da Hello Kitty, caneta com pompom, mala de peluche –, que Rita Ferreira quase acreditou ser bizarra. «Confesso que antes me incomodavam as piadas, até porque não ando por aí armada em freak. E quem não gosta não olha, não é assim?», desfere a explicadora de 37 anos. É um facto: sempre adorou coisas fofas. No 5.º ano trocou todas as suas Barbies por um casaco com orelhas, pouco comum na altura. No 7.º ano, um anel de ouro pelas pantufas da vizinha, em forma de coelhos (a mãe zangou-se, mas não desfez a troca). Felizmente para Rita, a sociedade enfrenta hoje uma explosão de fofura que lhe facilita a vida: além de haver mais gente cutchi como ela, estão todos a perder a vergonha de mostrar que o são.

«As coisas fofas – kawaii em japonês – podem ou não preencher um vazio emocional, dependendo da intenção de quem as procura», adianta-se Inês Chiote, psicóloga clínica da Oficina de Psicologia. Por um lado, ao não exigirem tanto como as relações humanas, poderão colmatar alguma lacuna sentida face a si mesmo ou aos outros num mundo pouco empático como o atual: «Uma pesquisa alemã apurou que um terço da população do Japão, o maior exportador mundial de produtos kawaii, não gosta da sua aparência, o que sugere uma possível relação entre a procura desenfreada de fofuras e a falta de autoestima», diz. Por outro lado, o kawaii pode ser «simplesmente uma extensão da nossa forma afetuosa de estar na vida e nas relações interpessoais».

Qualquer que seja o caso, estudos provaram que os centros de prazer do cérebro se excitam diante de algo fofo: o disparo de dopamina é comparável ao de comer chocolate ou fazer sexo, aumentando o desejo de se procurar mais coisas fofas para sentir mais prazer, como um vício. Ter as indústrias de filmes, publicidade e brinquedos a capitalizar este potencial de venda também contribui para o fenómeno. «O que vemos hoje é uma massificação do que já tínhamos há uns anos, agora com maior variedade nas lojas físicas, possibilidade de comprar online a custo mais baixo e adultos a perder a vergonha de usar fofices», justifica Alexandra Rolo, especialista em estudos da cultura e cosplayer (encarna personagens anime em eventos como a Comic Con Portugal, a Iberanime ou o Cosplay World Masters). É oficial: estamos a apropriar-nos da cultura asiática. Nem só o que é americano influencia a juventude.

«A noção de fofo constitui o centro da cultura desenvolvida no Japão, na era do pós-guerra, e invadiu as sociedades ocidentais devido à globalização do consumismo», confirma Ana Cristina Martins, professora de psicologia social no ISPA – Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida. Para falar da perceção de fofura importa remontar aos anos 40 e ao trabalho do etólogo austríaco Konrad Lorenz, que introduziu a noção de baby schema: um conjunto de traços físicos infantis capazes de ativar nos outros a vontade de cuidar. «Estas características são cabeça e olhos grandes, face arredondada, testa alta e proeminente, bochechas rechonchudas, nariz e boca pequenos, corpo roliço, extremidades curtas e gordinhas», enumera, descrevendo justamente os bebés – o parâmetro universal da fofura.

Lorenz partilhava uma perspetiva evolucionista e considerava que o instinto para nutrir quem fosse fofo constituía uma adaptação para assegurar que os adultos cuidariam das suas crias, garantindo a sobrevivência da espécie. «A tendência comportamental humana para reagir de modo positivo ao baby schema existiu desde sempre, faltava ser identificada», sublinha a doutora em psicologia social. Hoje sabe-se que respondemos à fofura não só tratando-se de crianças, independentemente do parentesco, mas também de adultos, animais e objetos com ar adorável. «Deste modo não é difícil compreender as reações favoráveis aos cachorros e gatos bebés, nem a preferência por certas raças como o cocker spaniel», diz. O mesmo se passa com a Hello Kitty, os Minions ou os Pokémons. «São bonecos que possuem muitas das características do baby schema

Alexandra Rolo sente-se particularmente fascinada com as lolitas que nos chegaram do Japão – mulheres (e alguns homens) que se vestem a preceito com folhos, laços, culotes, saias de balão e até perucas para parecerem bonecas de porcelana. No seu caso, admite que ser fã incondicional de fofurinhas terá muito a ver com o facto de as meninas continuarem a ser educadas para se tornarem cuidadoras, com brinquedos, roupas e acessórios mais kawaii que os dos rapazes. «Quando crescemos, acabamos por comprar estes produtos a preços que, muitas vezes, fazem com que sejam pequenos luxos. Tudo porque nos levam de volta à infância, além de serem facilmente incorporados no dia-a-dia de qualquer pessoa que goste de coisas bonitas.»

E sim, é ponto assente: elas reagem mais facilmente às fofices do que os homens, garante a psicóloga Inês Chiote. «Dois estudos realizados por Gary Sherman na Universidade da Virgínia, EUA, relacionando a tendência para se preocupar com o bem-estar alheio e a resposta à fofura, demonstraram ser mais forte essa ligação nas mulheres, que revelam comportamentos físicos de cuidado diante de imagens fofas.» Outra pesquisa de Reiner Sprengelmeyer, da Universidade de Saint Andrews, Escócia, ressalva porém que até mesmo entre mulheres a sensibilidade varia consoante o estado hormonal, personalidade individual e diferenças culturais. Ainda assim, todos nos sentimos mais felizes e atenciosos ao ver algo fofo. Homens incluídos.

«Lá está, quando se trata de coisas que remetem para o nosso lado emocional, deixamo-nos ir. É muito fácil abrir o coração e os cordões à bolsa», explica a designer gráfica Joana Duarte, autora dos famosos dixubos – bonequinhos roliços que ilustra a pedido dos clientes, dotando-os dos pormenores dos retratados: mesmo cabelo, cor dos olhos, sapatos, estilo de roupa, verniz das unhas, o que for. «Os meus dixubos tiveram sempre muita adesão por parte do público feminino. A um nível inconsciente, acho que preenchem um lado nosso mais vazio, carente de ligação e empatia, que mexe com o instinto de proteção. Serem personalizados à imagem de alguém querido só aumenta o sentimento de carinho.»

Bastantes homens pedem-lhe para desenhar o casal, a filha, a namorada, os animais de estimação, mas raramente eles próprios. «Acham os bonecos uma mariquice, embora boas armas de conquista», ri-se a criativa. E isto porque, lá bem no fundo, também eles lhes reconhecem a força inerente às coisas fofas. Um poder tão evidente que investigadores da Universidade de Hiroshima, no Japão, concluíram que ver destas imagens melhora a performance em tarefas que exijam elevada concentração e minúcia, potenciando a interação social. Se um dia o seu chefe o apanhar de surpresa a ver vídeos de gatinhos no YouTube, afirme sem receio estar a aumentar a produtividade no trabalho. A ciência dá-lhe toda a razão.

Uma bolsa que vira coelho
E porque de fofuras está o Japão cheio, a última tendência a correr mundo só poderia ter vindo de lá: um saco de compras com focinho, cor de roedor e orelhas que, uma vez enlaçadas para fechar o conteúdo no interior, formam o que parece ser um coelho (existem quatro versões diferentes). A ideia baseia-se no tradicional furoshiki – uma técnica de embrulho de objetos com lenços de tecido, muito utilizada para embalar presentes – e foi lançada pela marca japonesa Felissimo (http://www.felissimo.co.jp/) a cerca de 23 euros cada uma. Para quê ter as conservas à solta na despensa quando pode acondicioná-las em bichinhos amorosos?

Ana Pago
Ilustração: Filipa Viana/Who