Entrevista a Mário Augusto

Mario Augusto

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O senhor do cinema fala sobre a sua carreira ligada à sétima arte.

Mário Augusto, o homem do cinema da RTP, faz trinta anos de carreira. Rui Pedro Tendinha, companheiro de aventuras cinéfilas e camarada de longa data, propôs-lhe uma conversa de amigos com o cinema como pano de fundo.

Estás a celebrar os teus 30 anos de televisão. Quer queiras quer não, és um dos rostos que se mantêm há mais tempo e com regularidade no pequeno ecrã. Sentes que passou depressa?
Bem, quando olho para trás, espanta-me a medida de tempo. Passou a correr, mas sempre com muito entusiasmo, muita curiosidade e acima de tudo sem premeditação ou planos a longo prazo. É talvez por isso que ainda me mantenho muito ativo e sempre com ideias e coisas novas para fazer… Mas são 30 anos. Vejo neles uma certa inocência entusiasmada que levava a não desistir, mas acima de tudo uma evolução tecnológica incrível.

Há algum saudosismo nessa reflexão?
Saudosismo só se for da idade passada, mas só sou o que sou hoje por ter tido as experiências que tive no tempo certo… fui, por isso, um sortudo. Fui fundador de um canal de televisão, a SIC, fui fundador de uma rádio, a Rádio Nova, trabalhei em grandes jornais e revistas, fiz tudo no tempo certo. Costumo dizer que a vida faz de nós o que quer e eu sempre a respeitei com boa disposição, deixando que ela me leve por aí como quem deixa desenrolar o tapete do caminho que vai fazendo, sem desconfiança nem medo de arriscar.

O teu sorriso não muda e mantém uma certa inocência…
Tem que ver com uma fórmula que me foi passada pelo saudoso Henrique Mendes, que foi desde sempre uma referência da comunicação em televisão para mim, quando nos cruzávamos nos corredores da SIC. Dizia-me ele para não me levar muito a sério, mas fazer as coisas a sério. O meu sorriso… não sei… talvez tenha que ver com o facto de ter feito sempre tudo muito naturalmente, sem nada premeditado. Toma um exemplo: a primeira vez que fui chamado para entrevistar alguém de Hollywood [Timothy Dalton, na altura a promover 007- Risco Imediato], em 1987, pensei que nunca mais iria ser chamado para outra.

Mas foste.
Sim, e, de repente, tu e eu somos os portugueses que mais estrelas de cinema entrevistámos e que o fazemos há mais tempo. Mas, ainda falando da minha maneira de ser, nunca tive complexos de assumir erros ou gafes. E o que tu e eu já nos divertimos com isso! Não falo inglês de Cambridge e nem quero. Não estou lá para fazer um exame oral de inglês! Parto para essas entrevistas, os chamados junkets, com paixão e humor. E às vezes levamos com cada encomenda! Mas, bom, se em dez encomendas, lá pelo meio, nos aparecer a Meryl Streep ou o George Clooney já compensa!

Já apanhei o Anthony Hopkins muito maldisposto…
Também já me aconteceu. Não me recordo qual era o filme, mas ele tinha uma personagem muito complexa e eu perguntei-lhe como se tinha preparado para o papel. Arrasou logo a conversa, dizendo que não tinha tido trabalho e que se limitou a ler o argumento. Nada que se compare ao canastrão e antipático Steven Seagal.

Por que não ficaste em Los Angeles a fazer este trabalho.
Para já, não é fácil lá ficar e, depois, tinha uma família! Gosto de estar em Portugal e valorizo muito esta minha posição.

És do Norte, mas nunca te vi a teres orgulho em ser nortenho.
Assumo isso, estou a marimbar-me para essas questões de norte e sul. Aliás, muitas vezes, lá no Norte, acusam-me de ser mouro [risos]. O país é tão pequeno e nós que já viajámos muito percebemos isso melhor do que ninguém. Lembras-te quando entrevistámos o elenco de O Rochedo, em Alcatraz, São Francisco?

Sim, ficámos na fila do jantar atrás do Sean Connery. Lembro-me também de ficarmos trancados nas selas da prisão.
Isso foi fantástico. E eu lembro-me de estarmos sentados na última fila do cinema que construíram no pátio da prisão e apanharmos à nossa frente o Nicolas Cage a repetir as suas falas no filme. Lembro-me bem de o ver no barco que nos transportou a Alcatraz muito apaixonado e aos beijos à Patricia Arquette. Nesse barco eu e tu até
metemos conversa com o George Lucas!

Acima de tudo, vês-te como um contador de histórias?
Gosto de contar histórias, seja para rádio, seja para televisão ou para imprensa. Tenho de ser grato ao meio que me permite contar as histórias! É por isso que tento ser sempre genuíno. E foi o cinema que me ensinou tudo o que sei. Uma reportagem não é mais do que uma história bem contada com princípio, meio e fim.

Cheira-me que estás a preparar um novo projeto, quem sabe fora dos conteúdos cinematográficos.
Talvez, por que não? Gosto de conversar com pessoas. Aceito todos os anos o desafio de fazer o programa da Volta a Portugal por isso mesmo. A RTP deve ter esse lado de serviço público, de aproximar as pessoas, mostrar o país positivo e alegre, genuíno, que não tem de ser as chamadas de valor acrescentado ou a música pimba. Gosto de ir à procura de histórias e de gente interessante. Olha, adoraria (e já o tenho dito em conversas com colegas) fazer um programa semanal de boas notícias, que mostrasse o país no seu melhor, levar convidados improváveis, gente menos conhecida mas que é positiva e tem muito a ensinar, reportagens que nos dessem um input positivo, boas histórias… talvez fosse o que mais me entusiasmaria agora, além do cinema, que faço sempre com paixão.

Muitos, quando te viram naqueles diretos do Verão Total e na Volta a Portugal, ficaram um bocado espantados… De repente, o Mário Augusto do cinema ali ao lado dos ranchos folclóricos, no Portugal profundo.
Repara que não perdi a minha respeitabilidade com isso. Se fores genuíno e tratares bem as pessoas não tens de estar a fazer um papel nem de dançar o vira, como alguns fazem.

Mas já levaste com os beijinhos das velhinhas…
Então, faz parte, divirto-me! Por isso, farei de novo este ano a Volta a Portugal! É uma coisa curtida, já há três anos que faço e agora até fui eu que pedi para fazer.

Mas sais da tua zona de conforto.
Sim, mas a televisão hoje tem de viver do contacto e das emoções – é a única maneira de criar uma aproximação com o espetador. A Volta a Portugal é muito mais do que ciclismo, é um espelho do país. Conheço pessoas incríveis que dariam filmes também incríveis.

Estás com o Janela Indiscreta, um programa de cinema que é também um dos formatos mais longos da televisão portuguesa.
No próximo ano, completa 15 anos ininterruptamente no ar todas as semanas do ano. Os dois programas juntos – mudou o título com a minha passagem para a RTP – já completaram mais de 700 emissões. Espero poder continuar a fazer porque me dá muito prazer conversar sobre cinema.

Tens sempre uma sintonia maior com o cinema americano, não é?
Um bom filme é sempre, e acima de tudo, uma boa história. Na verdade, acho que o cinema pipoca, de grande público, está como a televisão… muito repetitivo, muito igual. Há uma grande falta de ideias e boas histórias. O cinema atual é, na maioria das estreias, muito efeitos especiais, ação, pouca palavra e uns baldes de pipocas. Isso vai passar, como já aconteceu noutras alturas da história do cinema. Mas a passagem será seguramente para um outro patamar que sinceramente ainda não entendi qual será. Na verdade, é curioso que, de uma forma geral, se escreve melhor para séries de TV do que para cinema. Os caminhos dos dois meios estão cada vez a aproximar-se mais.

Uma coisa que as pessoas nos perguntam muito, depois de nos verem com estrelas de Hollywood, é sobre as festas e todo o glamour. Desconhecem que quase não somos convidados para as festas e que estamos ali a trabalhar em condições muitas vezes desconfortáveis.
Claro! Quando comecei, há 28 anos, as pessoas pensavam que ia à casa dos atores, que ficava ali na sala de espera em grandes convívios. Chegámos a fazer algumas destas entrevistas no estrangeiro juntos e sabes que era tudo um pouco mais informal. Mas, de há uns 15 anos para cá, tudo ficou muito formatado para televisão.

Cada vez temos menos tempo.
E isso obriga-nos a ser menos jornalistas e mais entertainers, para tirar dali algum sumo. De vez em quando, até temos de assinar aquelas declarações para garantir que não fazemos perguntas de caráter pessoal, sobretudo quando [as estrelas] estão em processo de divórcio.

Algumas vedetas já começam a conhecer a cara dos entrevistadores. Lembro-me de estarmos numa praia da Grécia a entrevistar o elenco de Mamma Mia! e de perceber que a Meryl Streep estava a reconhecer-te.
Pois é! É um orgulho sentires que alguns já te dizem: «É você de novo!»

Reconhecem-te pelo cabelo branco.
Pois, dizem: «És o tipo de cabelo branco!» A mim dá-me gozo quando isso acontece com uma Meryl Streep ou um George Clooney… Por muito que, da parte deles, haja um lado de encenação, acabam por ser excelentes entrevistados porque já se estão a borrifar. São tão bons que já dizem o que lhes apetece. Tu também já falaste com a Meryl, parece que estamos a falar com uma vizinha do nosso prédio. Conversa sobre a vida, os filhos, cria proximidade, coisa que não acontece com muitos dos mais novinhos.

A mim tem-me acontecido alguns atores começarem a falar de futebol por ser português, em que a referência antes era o Figo e, agora, é o Cristiano Ronaldo.
Eu tenho um problema, picam-me com futebol e eu não percebo nada! O Clive Owen e uma série de atores ingleses são malucos por futebol.

Por outro lado, há atores que não se adequam a este formato das entrevistas televisivas de cinco minutos, como o Clint Eastwood.
Sim! Por acaso, tive a oportunidade de conhecer o Clint Eastwood no restaurante dos estúdios da Warner graças a uma amiga portuguesa comum. Foi curioso ele contar-me que tinha visitado Portugal numa das vezes que estava a filmar no Sul de Espanha há muitas décadas.

Sinto que um dos grandes problemas em Portugal é que há uma nova geração que não sabe olhar para o cinema, que o encara apenas como uma forma de lazer e de comer pipocas e refrigerantes, não concordas?
Esse é um dos problemas mundiais. O blockbuster é precisamente um filme de não palavra, apenas de efeitos e de muita confusão. De alguma forma, ando cansado de promover o filme da treta. No fundo, sou um divulgador entusiasmado de cinema, nunca me assumi como crítico. Por isso, não tenho o direito de vetar esse tipo de filmes, quanto mais não seja porque há público para eles. Já me ouviste dizer que não gosto de filmes de terror e que não tenho paciência para filmes de super-heróis. Aquilo de que cada vez mais me apercebo é que as pessoas não têm cultura cinematogáfica. Agora, no verão, no espaço de cinema que tenho na Informação, além de falar das estreias, vou propor sempre um filme essencial, os grandes clássicos que são obrigatórios.

E tu és realmente um «clássico». Até tens uma sala de cinema na tua casa.
Sim, não sou dos que vejo cinema no telemóvel e até na televisão tenho alguma dificuldade. Gosto do cinema em grande e, por isso, tenho uma tela e cadeiras de um velho cinema do Porto. É a sério e lá em casa fazemos verdadeiras sessões de cinema com grandes clássicos da minha filmoteca que tem 2800 filmes.

Sentes que a tua comunicação de cinema chega a todos?
Não, aliás já cheguei a ser criticado por colegas nossos mais elitistas, dizendo que era muito mainstream. De vez em quando, levo umas «porradonas» mesmo à séria! Mas não me preocupo, sou como sou! Não posso estar a enganar-me. Devo dizer que me especializei um bocadinho em cinema americano, para o qual tenho maior apetência. Como não frequento festivais internacionais, como tu, acabo por não ter grande ligação ao cinema que vem por exemplo da Formosa ou da Tailândia. E tenho pena… Estreou-se recentemente o Cemitério do Esplendor, daquele tailandês, e aquilo faz-me um bocado de confusão.

 


Veja a continuação desta entrevista: «Mário Augusto: o cinema ensinou-me tudo»


 

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