Moniz Pereira, uma vida ao serviço do desporto

Moniz Pereira

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Mário Moniz Pereira, atleta, professor e treinador, morreu ontem, aos 95 anos, vítima de pneumonia. Recordamos a entrevista que deu à Notícias Magazine, em 2013.

Foi atleta de sete ofícios, treinador, escritor de canções para fado… Mas a sua maior paixão – desde os 7 anos – foi a que lhe deu a alcunha: Sr. Atletismo. Aos 91 anos, cinco filhos, onze netos e quatro bisnetos, garante que o atletismo português está a passar a pior fase de sempre. E fala da crise no seu Sporting.

Está a um mês de fazer 92 anos. Qual é a receita da longevidade?
Primeiro, estou muito satisfeito por ter nascido, segundo, gosto muito de viver. Todos os dias aprecio o que é bonito – a natureza, as senhoras. Vejo muito gente que não é assim, pessoas com os olhos cansados, olham mas já não veem. A educação física também deve ter ajudado.

E mais?
Há coisas que nunca fiz, não sei se tem alguma coisa que ver com a longevidade. Por exemplo, nunca bebi um copo de vinho. Branco ainda provei mas tinto, nunca, sou incapaz. Nunca deixei de comer sopa e bebo café com leite todos os dias.

Nunca fumou?
Fumava Tiparillo, uma espécie de boquilha e cigarro. Mas era só uma vez por dia, geralmente à noite, depois deixei. Talvez tenha sido quando tuberculizei.

Como reage às doenças?
Cumpro integralmente as ordens dos médicos. É num instante que fico bom. Em dez meses recuperei da tuberculose.

Teve medo de morrer?
Não. Reajo à doença como a qualquer outra adversidade: sou positivo, preocupo-me em arranjar forma de dar a volta por cima. A minha mulher, que tem 90 anos, é como eu.

É família com muita longevidade. Aos 80 andava muito preocupado com a doença da mãe.
A família é muito grande e alguns têm tido uma vida longa. Infelizmente nem todos.

No dia a dia, em que mais sente a idade?
Nos nomes. Lembro-me de tudo menos dos nomes das pessoas, por vezes de pessoas da minha família. Nessas alturas tenho de perguntar à minha mulher.

O que é que a idade não modifica?
Muito pouca coisa. No meu caso talvez a teimosia, mas a idade vai modificando. Somos nós que temos de nos adaptar às diversas idades. Há uma grande diferença entre ter 30 ou 70 ou entre ter 60 e 90.

Soube lidar bem com a idade?
Penso que sim. Sou muito antigo mas não sou velho. Se fosse velho estava a fazer crochet e não me metia nestas coisas todas, não teimava como teimo.

Ainda sai muito de casa?
Agora, muito menos.

Ainda se levanta diariamente às sete da manhã?
Não, mas no campeonato de atletismo de pista coberta em Pombal – nunca falhei um – sou o primeiro a chegar. Começa logo no dia da partida para Pombal. Sou o primeiro a chegar ao Sporting. Dou o exemplo, mesmo agora.

Anda há quase setenta anos a marcar o atletismo português. O que tenciona fazer nos próximos setenta?
Farei o que me deixarem fazer. Porque há pessoas que não deixam. Bem diz a minha mulher que o meu maior defeito é a teimosia. Consegui, sempre fui conseguindo. E até consegui coisas que muita gente considerava impossíveis.

O que quer fazer que não o deixem?
Há que tratar do atletismo. Nesta fase da minha vida já não posso fazer o que fazia. Com 91 anos não devo levantar-me às sete da manha para ir para Monsanto com os atletas, ao frio e à chuva, senão morro. Ora isso não me convém. Não posso, portanto, ser o treinador que já fui, mas ainda posso fazer muito pelo atletismo e neste momento ando muito preocupado com o estado da modalidade. Além disso, e apesar de não saber escrever uma nota, também sou músico e continuo a fazer músicas. Todos os dias espero que amigos meus que cantam fado venham cá a casa escolher músicas para gravar. No final da entrevista, toco a última que fiz.

Já vamos à música. Preocupado com o atletismo porquê?
O atletismo português está a atravessar a pior fase de sempre. Está mal como nunca esteve. Este ano vai ser um horror, não há nada – não há dinheiro, não há pista coberta, não há contactos internacionais -, e sem contacto internacional isto é impossível. Estou preocupadíssimo. O atletismo português nunca esteve tão mal e temos atletas juniores de categoria que se começassem a treinar já para os Jogos Olímpicos podiam fazer figura daqui a quatro anos.

Há muitos atletas juniores de qualidade?
Vários atletas de valor. Tanto rapazes como raparigas que deviam estar já a treinar diariamente.

Falando de raparigas, lamenta nunca ter treinado uma grande atleta?
O atletismo é uma modalidade complexa. O lançamento de peso, por exemplo, não tem nada que ver com os 100 metros. Nem os 100 metros com os 110 barreiras. São vários desportos. Não tinha possibilidade de treinar atletas de disciplinas que não domino.

Faltou-lhe uma fundista…
Sim, nunca calhou. Mas o importante é que Portugal teve Rosa Mota, uma atleta com a categoria de Carlos Lopes. Estão ao mesmo nível.

Carreira de treinador: em que momento tinha a certeza de que estava a treinar alguém que iria atingir um nível mundial?
O conhecimento da modalidade é fundamental. Nunca fui um atleta de carreira internacional, mas pratiquei muitas modalidades. E isso ajudou-me sempre a reconhecer o talento. Quando um atleta tem talento e vontade de trabalhar é meio caminho andado.

O que distingue um grande atleta?
O gosto pelo que faz e o prazer com que o faz. Não vale a pena apostar em quem não gosta de atletismo, em quem falta aos treinos, em quem não quer saber daquilo para nada. Sempre lhes disse: «Não precisam de gostar tanto como eu, mas para treinar comigo tenho de acreditar que gostam muito de atletismo, têm de querer fazer o que eu digo e não o que vocês acham, de acreditar que eu é que sei.»

Uma regra para o sucesso do treino.
Começa no cumprimento dos horários. E no exemplo do treinador. E eu dou sempre o exemplo.

O que faz um grande treinador?
Dar o exemplo. Eu ia para a chuva, para o meio do campo. Sempre me irritou ver alguns treinadores de futebol – estrangeiros, muito bons, para os portugueses o que é estrangeiro é sempre muito bom – exigir o que não faziam. Não vou dizer nomes, mas vi fazer isso no Sporting: marcavam o treino para as 9h00 e apareciam às 09h10. Proibiam o vinho e eles já com as bochechas vermelhas, mandam deitar às 11 da noite e eles iam para a paródia.

É lendária entre os atletas a sua assiduidade aos treinos. Nunca faltou a um treino?
Só faltei uma vez a um treino porque uma senhora atirou o meu carro de pernas para o ar.

Quando estavam em estágio, como era a relação treinador-atletas?
Sempre ao lado deles. Quando me propunham ir para hotéis de cinco estrelas eu dizia sempre: «E os meus atletas.» Ai não?, então eu vou com eles para o centro de estágio. E as regras eram para cumprir. Se o treino era às nove, cinco minutos antes já eu estava na pista. E a quem chegava às 09h03 e dizia bom-dia eu respondia: «Boa-tarde.» Três minutos chegam para dar uma volta à pista. E fazia treinos bidiários. Em dias de prova, treinava de manhã , fizesse chuva ou sol. Eu nunca ficava na bancada. Estava no meio do campo à chuva. «Lá está o gajo.» diziam eles.

Era de trazer os atletas cá para casa?
Não.

Nem os problemas?
Nunca.

Lembra-se da primeira vez que viu o Carlos Lopes correr?
Muito bem. Ele ficou em terceiro Foi no campeonato português de juniores de crosse. Ele ficou em terceiro e eu achei logo que ele tinha grandes possibilidades, que corria bem, com grande facilidade. No final, não fui falar com o vencedor. Fui falar com ele.

Em que ano?
Não me fale em anos.

Começou a treinar em 1945 a pensar num dia em que um atleta seu conquistasse uma medalha olímpica. Trinta e nove anos depois conseguiu.
É verdade, fui um dos impossíveis que atingi. O Lopes foi um atleta fabuloso, mas só conseguiu ser o melhor atleta português de todos os tempos porque fez tudo quanto eu quis. Portou-se otimamente. Se me saia um malandrão, eu não conseguia fazer nada dele.

Considera o Lopes o maior de todos os tempos mas, no entanto, disse de Fernando Mamede: «É a máquina humana mais perfeita que conheci.»
Não vamos falar do Mamede. O Fernando Mamede foi um atleta de grande categoria, mas são duas pessoas completamente diferentes.

Mas lembra-se de ter dito isso?
Disse-o porque o Fernando Mamede conseguiu ser o melhor do mundo nos 10 000 metros e recordista de Portugal de 4×400 metros. Era uma máquina de velocidade e resistência. Era uma máquina excecional e raríssima. Mas uma coisa é a parte física, outra é a parte mental.

O Carlos Lopes é o seu maior sucesso. O Mamede é o seu fracasso?
O Mamede só foi um fracasso para quem não percebe nada de atletismo e não gosta dele. O Fernando Mamede também fez o que ninguém fez. Ser tão bom nos 10 000 metros como na estafeta é um feito único. Não há mais nenhum. E não falo só de Portugal. Mas, depois, havia a parte psicológica.

Mas não é aí que entra o treinador? Aparentemente, nunca conseguiu contrariar a fragilidade psicológica de Fernando Mamede.
Era impossível. Veja-se os Jogos Olímpicos de 1984. Antes dos jogos passou dois anos a dar cabo dos adversários em diversos meetings. Chega aos jogos e falha Obriguei-o a participar, mas sabia o que ia acontecer. Só dizia que não era capaz de correr.

Foi o seu maior desalento?
Essa prova foi muito triste. No final, os jornalistas deram o Mamede por acabado. E eu disse-lhes: «Nem pensem nisso, daqui a 15 dias, no Meeting de Zurique, vai vencer.» E venceu os 5000 metros, a competir com os mesmos atletas dos jogos.

Com outra robustez emocional teria chegado onde?
Muito longe, porque tinha fisicamente o que os outros não tinham. Em contrapartida, faltava-lhe o que o Lopes tinha. O Lopes era o contrário. Quanto mais responsabilidade, melhor resposta. Nunca duvidou de que ganhava.

Mesmo a medalha de ouro olímpica, na maratona, em 1984?
Claro. Apesar de ele ter sido atropelado na véspera, fomos para lá a pensar na medalha. Apanhei um susto doido, mas vi que não era grave e pudemos continuar. Psicologicamente era muito forte e sabia muito bem o que queria, ao contrário do Mamede. Mas já chega de Lopes e Mamede.

Nélson Évora também já ganhou uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Mas não o incluiu nos melhores de sempre. Que pensa da nova geração?
São ótimos atletas, de categoria internacional, quer o Nélson quer a Naide [Gomes], que falharam estes Jogos porque estavam lesionados. E porque estavam lesionados? Porque o único país onde há provas de pista ao ar livre é Portugal. Nomeadamente em Lisboa. De resto, é sempre em pista coberta e nós não temos pista coberta. Resumindo, ninguém liga nenhuma ao atletismo.

Em que lugar coloca Fernanda Ribeiro?
Logo a seguir. Foi uma grande atleta. Agora, não foi tão boa quanto a Rosa Mota e o Carlos Lopes.

Mas os resultados foram muito semelhantes.
Muitas vezes foram iguais, mas não foi tanto como a Rosa ou o Lopes. No entanto, foi uma das grandes atletas portuguesas. E eu, recordo, dou-me bem com todos eles.

O que deitou a perder Vanessa Fernandes?
Quer mesmo a minha opinião? Não souberam poupá-la. A Vanessa fez demasiadas provas, ora o triatlo não é brincadeira nenhuma. Abusaram da pequena.

Nas mãos de que atleta mundial colocaria a defesa da sua honra?
No Lopes. Primeiro, porque o Lopes não falhava, segundo porque comigo primeiro estão os portugueses e só depois os outros. O problema é que não damos aos atletas portugueses o que os outros têm. Esperamos uma pista coberta há dez anos. O Nélson e a Naide lesionaram-se porque treinam ao frio. Fez-se uma pista coberta em Espinho e não há lá atletismo há mais de um ano. Política. Enquanto isto for assim é muito difícil, mas eu gosto das coisas difíceis. Não desisto.

Há ou houve em Portugal alguém a quem caiba melhor o nome de «senhor atletismo»?
Não sei. Agora sou muito bem aceite, mas também há pessoas que não me podem ver.

Porquê?
Já tenho perguntado, mas não me sabem explicar. Sei é que, quando acabei o curso de INEF e fui convidado para treinar o atletismo do Sporting, um jornal fez-me uma entrevista em que me perguntaram qual era o objetivo da minha vida. E quando eu disse que era ver um atleta meu ganhar uma medalha olímpica e ouvir o hino português num estádio olímpico logo me chamaram louco. «Este gajo é maluco, isso é impossível.» Também houve quem, anos mais tarde, me tivesse dito que eu tive foi a sorte de ter sido muito bem tratado no Sporting. Pois, esquecem-se sempre de dizer que a sorte dá muito trabalho. Basta ser uma palavra feminina para termos de ser nós a ir atrás dela.

Em que altura da vida percebeu que tinha gosto pelo desporto?
Desde sempre. Eu morava no primeiro andar do número 163 da Rua Gomes Freire. Tinha uma varanda grande, onde fazia salto em altura, salto à vara – a vara era um pau – isto com 7 ou 8 anos. Descendo da varanda chegava-se ao quintal, um quintal pequeno, mas eu pedi ao meu pai para tirar os canteiros e fazia os campeonatos no quintal. Ia para a varanda, descia pelo quintal, dava a volta à nespereira e voltava para o mesmo sítio. Eram trinta e tal metros. Com os meus irmãos e primos, simulava o salto em comprimento e inventei o duplo salto porque o tamanho do quintal não dava para o triplo. E ainda guardo os resultados desses campeonatos que tinham dois espetadores atentos: a minha mãe e o Mário Soares, que morava por cima de mim, no segundo andar. Era mais novo do que eu quatro anos e foi sempre espetador. Nunca quis participar.

A sua imagem de marca é de boné e de cronómetro ao pescoço.
Cronómetro sempre. Desde miúdo. Os outros levavam uma bola para a praia, eu levava um cronómetro. Mandava-os correr e eu sempre a cronometrar. Guardo, ainda hoje, os resultados de todas as provas em que entrei. Tempos, lugares, tudo. Dos campeonatos do quintal ao campeonato do mundo de veteranos, na Suécia.

E são centenas de provas. Li que participou nos campeonatos universitários nas modalidades de futebol, basquetebol, andebol, hóquei em patins, atletismo voleibol e natação. De que modalidade gostava mais?
Atletismo e voleibol. O vólei, hoje, é para gigantes. Eu tenho um metro e sessenta e oito mas chegava. O meu voleibol é mais bonito.

Gostaria de ter sido um grande atleta?
Nunca pensei nisso. Sou conhecido em toda a parte porque além de ter sido treinador de atletas que bateram recordes em todo o mundo fui professor do curso de treinadores em Espanha e em França. Além disso, não tinha físico para isso. É preciso físico e eu não tinha velocidade nem resistência suficientes. Tinha habilidade, cheguei a entrar no decatlo. Não fui o primeiro mas também não fui o último. Fazia as coisas de que gostava e o decatlo não é brincadeira. Nos 1500 metros fui a assobiar, que era para disfarçar.

Em 1945, terminou o curso do INEF e foi para o Sporting. Foi dos primeiros licenciados a treinarem…
Julgo até que não havia outro. Não quero dizer que fui o primeiro porque posso estar enganado, mas fui dos primeiros. Sou sócio do Sporting desde que nasci – fazia lá ginástica e voleibol. Quando acabei o curso convidaram-me para ser treinador do Sporting no atletismo.

É o sócio número dois.
Sim, e o meu irmão era o número quatro.

Quem era o treinador do futebol na altura, recorda-se?
De futebol não falo, bem basta o tempo que lhe é dedicado nos jornais e na televisão.

O melhor jogador de sempre do Sporting?
Se me perguntar pelos melhores atletas sei-os todos. Os melhores jogadores… o Sporting teve bons jogadores, mas quem teve mais destaque foram os atletas. Sim, o Sporting está muito mal no futebol, mas o Sporting não é só futebol. O Sporting está muito bem em todas as modalidades menos no futebol. E de futebol não falo.

Até porque neste momento não é fácil a um sportinguista falar do futebol, certo?
Já que faz essa provocação: neste momento o que está mal não é o Sporting mas o futebol do Sporting. São coisas distintas.

Mas sem equipa de futebol forte o Sporting tenderá a desaparecer. Ou não?
Claro que não. O Sporting não é um clube de futebol. É um clube que também tem futebol. As pessoas julgam que o futebol é que é importante quando o Sporting é conhecido em toda a parte do mundo devido aos atletas de atletismo. Os melhores atletas que treinei no Sporting bateram recordes do mundo, da Europa e de Portugal em diversos países. O Sporting conquistou 16 vezes a taça dos clubes campeões europeus de crosse, quatro delas em Portugal, quatro em Inglaterra, quatro em Espanha, quatro em Itália. O Carlos Lopes foi campeão de crosse em Nova Iorque, levou lá o nome do Sporting. Fui seis vezes à São Silvestre com os meus atletas e ganhámos as seis vezes. Portanto, foram os atletas do atletismo que espalharam o nome do clube por todo o mundo. Não foi o futebol. As pessoas, na sua loucura pelo futebol, não percebem isso. Mais, o atletismo é a única modalidade que tem medalhas de ouro olímpicas.

Jogos Olímpicos. Esteve em 12, de 1948 (Londres) a 2000 (Austrália). Tem um enorme armário em que cada gaveta corresponde a uma dessas viagens. Quer começar por onde?
Pela Londres do pós-guerra. Recordo-me de que choveu torrencialmente nesses jogos mas fiquei bem instalado. Iam buscar-nos de autocarro para treinar. Foram uns jogos muito importantes para mim. Vi as provas todas. Foram selecionados quatro atletas do salto em comprimento e do triplo salto – eu treinava três deles – e escrevi à federação dizendo que me propunha ir aos Jogos sem receber dinheiro só para assistir e tratar dos treinos dos quatro atletas. E eles aceitaram.

A primeira medalha portuguesa do atletismo foi conquistada nos Jogos de Montreal, Canadá, em 1976. Como foi a preparação desses jogos?
Em 1975, pela primeira vez, o Estado português pediu-me para fazer um plano de preparação olímpica. Tive a sorte de encontrar quem acreditasse em mim. Foi-me proporcionado tudo o que pedi. Muitos contestaram, a começar pelos jornalistas, sobretudo os que não percebiam de mais nada a não ser de futebol. Um deles chegou a titular o seguinte: «Moniz Pereira está no Algarve com os seus atletas a gastar o dinheiro do povo.»

Como lhe respondeu?
Telefonei-lhe e pedi-lhe que me explicasse o que entendia por povo. Sim, porque o Carlos Lopes tem o exame de instrução primária e era empregado numas bombas de gasolina e o Fernando Mamede também tem o exame de instrução primária e trabalhava no jornal do Sporting a ajudar, ou seja, não estávamos a falar do conde de Beja ou do duque de Viseu. Ele lá respondeu que não tinha dito aquilo. Pois não, «escreveu-o, o que é muito pior». E foi assim que isto começou. Com alguma oposição.

Carlos Lopes traz do Canadá a medalha de prata dos 10 000 metros.
As coisas correram muito bem e os resultados excederam a expectativa. As minhas, até. Nunca pensei que pudessem ser tão bons. Finalmente, tínhamos uma medalha olímpica para o atletismo português e nenhum atleta foi eliminado à primeira, não fizeram má figura. Fiquei muito contente quando no aeroporto o secretário de Estado do Desporto anunciou que eu ia ser homenageado pelo governo. Lembrei-me logo de quem me tinha acusado de andar a gastar o dinheiro do povo. Procurei-o, mas soube que tinha morrido. Foi castigo, pensei. E pronto, esta história está contada.

Nos Jogos Olímpicos, qual é a prova por que mais espera?
Gosto de todas.

Prefere a velocidade ou a resistência?
Não tenho preferência. Gosto do calendário todo. Até de lançamentos.

Se os jogos de Los Angeles foram os mais gratificantes, que edição o desiludiu?
Os Jogos do México foram aldrabados. Provas de atletismo a 2000 metros de altitude só para saltadores e velocidade. A altitude é péssima para os corredores de 5000 e de 10 000 metros. E a prova é que essas provas foram ganhas por atletas que nasceram e viveram lá e que ninguém conhecia.

E Munique?
Foi uma desgraça. Isso foi uma guerra e eu de guerras não sei nada. Estava no hotel, no décimo e tal andar, e vi chegar uma camioneta com alguns desses assassinos. Morreram, aquelas coisas de política de que não percebo nada. Durante dois dias pararam os Jogos e eu fiquei até ao fim. Foi muito mau, muito mau. Mas não sei falar sobre isso. Sei que assisti à chegada de alguns bandidos.

Viveu os tempos Segunda Guerra Mundial, a ditadura de Salazar, o 25 de Abril, a adesão portuguesa à União Europeia, a mudança de moeda, a atual crise. Que momento destaca?
De política não percebo nada. Sou ao contrário de Mário Soares: ele não sabe nada de desporto e eu não sei nada de política. Mas somos amigos. O momento mais doloroso destes 90 anos foram as mortes de pessoas da minha família.

Para 2013, quantos desejos?
Que a minha vida continue como até agora, sem problemas, que o atletismo que neste momento vive o pior momento de sempre – nunca foi tão maltratado – melhore. E que o tempo seja a nosso favor e a paz vingue.

Como conciliava as viagens e as ausências com a família?
Cheguei à conclusão de que faltei muitas vezes a problemas de família por estar nos Jogos ou nos campeonatos. Devia ter estado presente e não estive. E, portanto, para compensar resolvi fazer os congressos da família Moniz Pereira. Fizeram-se já dez congressos. Reunião familiar num hotel, sexta, sábado e domingo, com campeonatos de ténis de mesa, de natação, campeonatos de cartas, enfim, alguns tocam piano, outros cantam. Agora é mais difícil porque a família está cada vez maior e há pessoas que não têm dinheiro para isso.

Casou com uma colega de curso.
Entrámos no INEF no mesmo dia e por lá andámos quatro anos (somos o terceiro curso). Temos cinco filhos, quatro raparigas e um rapaz, onze netos e quatro bisnetos. O meu filho jogou râguebi no CDUL, fez atletismo, todas as minhas filhas fizeram ginástica no Sporting e a minha mulher jogou voleibol no Sporting. E tenho também uma filha licenciada em Educação Física.

Casou em que ano?
Em 1946. Estamos casados há 56.

Quando a conheceu, o que mais gostou dela?
Gostei de tudo. Estivemos quatro anos juntos no INEF, a participar em eventos em conjunto. As festas do fim do ano, os campeonatos universitários. No INEF reunia em minha casa as pessoas que gostavam de música e ensaiava as músicas do Liceu Camões. E quando havia festa do INEF ia para o palco reger com uma batuta.

E casou com uma sportinguista?
Também. E filhos e netos do Sporting.

Saudades da Lisboa desses tempos?
Algumas. Gostei muito de estar no Liceu Camões. Desse tempo tenho saudades, fazíamos hóquei em patins, já fazíamos coisas. O Palácio Foz foi a primeira sede do Sporting. Ainda joguei ténis de mesa no Palácio Foz no Campeonato de Lisboa em segundas categorias e ganhámos. O meu pai era o representante de uma marca de carros e ia com ele experimentá-los no Campo Pequeno.

E o que mudou no Sporting que lhe deixa saudades? O que sentiu quando soube que o novo Estádio do Sportng não ia ter uma pista?
Isso é de loucos. Nos éramos campeões da Europa de atletismo e depois fazem um estádio sem pista para o atletismo. Foi uma coisa que me tramou.

Mas tendo o Estádio Nacional perto de Lisboa…
Fui diretor do Estádio Nacional. Naquela zona vivi trinta anos. Quatro anos como aluno, 27 como professor do INEF e cinco como diretor do Estádio Nacional. Aquilo é a minha casa. Mas o Sporting precisava de uma pista.

Vamos ao fado. Dos que fez, qual é o que a sua mulher prefere?
Não tem preferência. As músicas são como os nossos filhos.

Ela é a musa inspiradora?
Claro que é. Ou foi. Agora já tenho novidades acerca dessa senhora. Sei tudo.

Nunca o acompanhou aos Jogos?
Nunca, por causa dos filhos.

Sendo ela licenciada na mesma área, trocavam opiniões sobre o treino?
A minha mulher é especialista na parte pedagógica e de recuperação e deu formação em educação física teórica a professores do ensino primário. Não é especialista em treino.

Toca piano diariamente?
Sempre.

Quanto se senta ao piano, qual é a primeira música que toca?
Toco piano todos os dias. A musica é como o desporto, é preciso gostar-se muito. No Liceu Camões cheguei a ter 19 a canto coral. Fazia a primeira, a segunda e a terceira voz (já a Matemática era capaz de ter 9). Nunca soube escrever música, mas tenho muito bom ouvido. Quem me escrevia as músicas era o Jorge Machado. Enquanto eu tocava ele ia escrevendo. Depois, encantado, ia à Sociedade Portuguesa de Autores registar. E foi assim que as coisas começaram, em 1960. Sem saber nada de música, tenho mais de cem músicas registadas na SPA, algumas cantadas por grandes fadistas, como a Lucília do Carmo, para mim a maior fadista de todos os tempos.

Maior do que Amália?
Não faço comparações.

Quanto tempo leva a compor um fado?
Depende. Muito pouco tempo, por vezes.

Tem mau feitio?
A minha mulher diz que quando não me fazem as vontades, tenho. Mas não sou de me queixar. Engulo.

Foi um pai severo, com muitas regras, como para com os seus atletas?
Eduquei os filhos e os atletas da mesma maneira. E nunca tive muitas regras.

Ao longo dos 91 anos, qual foi o maior elogio que recebeu?
Sei que tenho sido muito bem tratado e que me elogiam às vezes de mais. Mas vou contar a história de um recorde que é meu: já era o treinador do Sporting de atletismo e do voleibol quando começou o campeonato nacional de voleibol e o Benfica veio pedir-me para aceitar ser o árbitro dos jogos do Benfica. Já viu? Hoje acabava tudo à pancada. Mas eu conhecia aquela gente toda, éramos amigos, depois dos jogos íamos jantar ao Café Império. Todos juntos e sem problema. Eu nunca fui anti-Benfica e senti-me elogiado por todos me acharem incapaz de uma aldrabice. Hoje isto não é desporto.

Um dos seus fados mais conhecidos é Valeu a Pena, letra e música suas. «Valeu a pena /ter vivido o que vivi /valeu a pena /ter sofrido o que sofri /valeu a pena /ter amado/ quem amei / ter beijado quem beijei.» Valeu a pena?
Acabo como comecei: gosto muito de ter nascido. E daqui a uns dias, nos meus 92 vou jantar a uma casa de fados com a família. Uma das minhas netas canta muito bem e depois eu também canto. E o Carlos do Carmo, que é meu amigo e sempre meu convidado, também vai cantar e eu também canto. O que é preciso é cantar e celebrar.
[Entrevista publicada originalmente na edição de 20 de janeiro de 2013]

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