OPINIÃO

Atchim! A culpa é do cão?

A convivência entre pessoas com alergia e amigos de quatro patas é possível.

Quem diz cão, diz gato, ou qualquer outro animal com pelo… A convivência entre pessoas com alergia e amigos de quatro patas pode ser difícil, mas raramente é impossível. Com os cuidados certos, a maioria pode tê-los.

Os portugueses têm mais animais de estimação do que filhos, aliás, os valores já andaram mais longe de haver tantos animais de estimação como portugueses: de acordo com o estudo GfKTrack.2Pets, da consultora GfK, em 2015 existiam seis milhões e meio de animais de estimação em Portugal. Em mais de metade dos lares portugueses há um ou mais animais de estimação – um valor bastante acima da média europeia – com os cães e gatos a encabeçar as preferências das famílias. De todas as casas com animais de estimação, 38 por cento têm um cão e 20 por cento um gato. Por outro lado, no que respeita a alergias, Portugal apresenta valores em linha com a média europeia, estimando-se que as doença alérgicas afetem cerca de um terço da população. Posto isto, importa perceber se animais com pelo e doenças alérgicas são mundos incompatíveis ou conciliáveis.

Em primeiro lugar, é preciso perceber que a alergia é um «saco» dentro do qual cabe muita coisa. Em termos genéricos, é toda e qualquer reação de hipersensibilidade que ocorre quando a pessoa contacta com substâncias do meio ambiente que normalmente não provocam sintomas ou doenças.

Asma, rinite, olhos vermelhos, eczema na pele, «farfalheira» e tosse são alguns dos sintomas manifestados pelos alérgicos e que muitas vezes coincidem: 80 por cento dos asmáticos têm rinite e 40 por cento dos doentes com rinite têm asma. Os dados indicam ainda que cerca de 30 por cento dos portugueses têm queixas de rinite, 18 têm concomitantemente queixas de conjuntivite e cerca de 10 por cento têm asma, além de que nas crianças a prevalência de asma é mais elevada, rondando os 39 por cento.

Pólenes, ácaros, pelos de animais e alguns alimentos são os grandes causadores de alergia. Mas o facto de espirrar ou manifestar outros destes sintomas perto de um animal, não quer dizer que seja alérgico ao pelo. Apesar de haver alergia ao pelo e saliva dos animais (por causa das proteínas que contêm), os grandes vilões da alergia costumam ser os ácaros e o problema dos animais está sobretudo na quantidade de ácaros que acumulam. Ainda assim, dados da Asthma and Allergies Foundation of América revelam que a alergia a animais de estimação também não é rara, sobretudo entre pessoas com outras alergias. Nos Estados Unidos, três em cada dez pessoas com alergias fazem reação alérgica a cães e gatos, além de que as alergias a gatos são bastante mais comuns.

Há vários exames (feitos através da pele ou do sangue) que o imunoalergologista pode fazer para tentar determinar de forma mais exata quais são os alergéneos a que se é sensível, por isso, se ainda não está a ser acompanhado por um especialista em imunoalergologia, esse é o primeiro passo a dar.

COMO EVITAR SINTOMAS DE ALERGIAS A ANIMAIS?
Quer o problema sejam proteínas dos próprios animais – que se encontram no seu pelo e saliva – quer seja uma alergia a ácaros – que também se acumulam no pelo – há medidas que podem tornar possível a convivência entre a maioria dos alérgicos e os bichos com pelo. Alguma distância e cuidados de higiene redobrados são a solução.

* Isolar o mais possível o animal das zonas comuns da casa. Se tiver um espaço exterior, mantenha-o aí a maior parte do tempo. Caso não tenha, tente limitar a presença do animal a uma o deixar circular livremente. Aqui, muita atenção à raça e tamanho do animal, para não confinar a uma divisão pequena um bicho que precisa de espaço e muito exercício.

* A higiene da casa é fundamental. O espaço onde o animal está mais tempo, deve ser aspirado todos os dias e não deve ter elementos decorativos que favoreçam o acumular de pelos como carpetes e cortinados compridos.

* Se possível, tenha um aspirador com filtro HEPA – High Efficiency Particulate Arrestance – que retêm as partículas mais finas, sendo mais eficaz do que os aspiradores clássicos.

* Dê banho ao animal pelo menos uma vez por semana para diminuir a quantidade de pelos e de pele que larga no ambiente.

* Tenha uma cama para o cão ou gato e habitue-o a dormir nela, de forma a concentrar ali a maioria dos pelos e células mortas. Lave a cama do animal também uma vez por semana, de preferência no mesmo dia em que lhe dá banho.

* Lave sempre as mãos depois de mexer no animal e tente não se encostar muito a ele para evitar pelos na roupa.

* Há alguns suplementos vitamínicos que podem ajudar o animal a ter pelo mais saudável e evitar que caia tanto. Aconselhe-se com o veterinário.

* Fale com o seu imunoalergologista, que pode dar outros conselhos que reduzam os sintomas – ou, se nada resultar e for de todo impossível a convivência, aconselhá-lo a deixar de ter animal de estimação.

UMA QUESTÃO DE RAÇA?
Deve ser desfeito o mito de que há raças de animais «hipoalergénicas». Há tradicionalmente algumas raças de animais que, seja pelo porte, seja pelo tipo de pelo, são apontadas como menos alérgicas. O The American Kennel Club, por exemplo, indica que raças como o cão-de-água português, o poodle e o schnauzer, entre outros, como animais que suscitam menos alergias. Uma das razões apontadas para este menor potencial alérgico é o facto de não terem subpelo, a camada de pelo que não está à vista, mas existe por baixo do pelo visível. No entanto, um estudo recente publicado no Journal of Allergy and Clinical Immunology defende que o termo «hipoalergénico» aplicado a raças de animais não tem evidências demonstradas e que as raças apontadas como hipoalergénicas são tão alergénicas como as outras.

Sofia Teixeira
Fotografia: Corbis