OPINIÃO

Afinal, a avó tinha razão ou não?

Na maior parte dos casos, e falando de questões de saúde, a resposta é... não!

A maioria dos conselhos das avós não passa no crivo da ciência. E, embora quase todas as recomendações sejam inofensivas, algumas podem não trazer grande bem-estar.

«Leva o casaco e o chapéus-de-chuva se não constipas-te»
Quem anda à chuva molha-se, quem se molha e apanha frio fica com gripes ou constipações. O frio, a chuva e as correntes de ar são, no entender das avós, os grandes vilões do inverno. Certo? Mais ou menos. Os verdadeiros culpados são os vírus (mais de 200), que estão mais ativos no inverno. Além disso, os aquecimentos secam a mucosa nasal, retirando-lhe as defesas naturais e estamos mais confinados a espaços interiores, pouco arejados e em contacto com outras pessoas. Aliás, uma das recomendações para evitar vírus é mesmo deixar entrar algum frio: abrir as janelas no inverno, permitindo que os espaços arejem, é uma das melhores formas de não deixar o interior transformar-se num viveiro de bicharada.

«Bebe um copo de leite morno antes de dormir»
Ponto para as avós. Se sofrer de insónias severas, o leite morno não vai operar nenhum milagre, mas que ajuda, isso sim. O leite é rico em triptofano, um aminoácido que funciona como «sedativo» natural e que induz o sono. Para quem não goste de leite simples, pode ser adicionada uma colher de mel que, além de adoçar, é um hidrato de carbono, pelo que facilita a absorção do aminoácido.

«Não leias com essa luz que dás cabo dos olhos»
A acreditar em vários estudos publicados, entre outros, no British Medical Journal, as lesões causadas por leitura com luz reduzida (desde que não seja exageradamente reduzida) são um mito. Não há nenhuma evidência de que ler ou ver televisão com pouca luz prejudique a visão. No entanto, não é menos verdade que o esforço que a leitura com pouca luminosidade implica pode causar dor de cabeça, olhos avermelhados e a sensação de visão enevoada, mas estes efeitos não persistem no tempo.

«Queimaste-te? Põe manteiga!» (ou pasta de dentes ou borras de café…)
Guarde a manteiga para o pão porque se há conselho de avó que não deve seguir é este. Em queimaduras pequenas e ligeiras – que não impliquem uma ida ao médico ou a aplicação de uma pomada específica – a única coisa que se deve pôr é água fria (não gelo!), para ajudar a interromper o processo e para sentir algum alívio da dor. Manteiga, clara de ovo, pasta de dentes, borras de café ou qualquer outro produto, comestível ou não, só vai prolongar a dor e aumentar o risco de infecção no local.

«Estás nervoso? Bebe um copo de água com açúcar»
Até pode acontecer que acalme, se acreditar que vai ajudar, mas isso não passa de efeito placebo. Não há nenhuma razão para a água com açúcar acalmar alguém, sobretudo porque o açúcar é uma fonte de energia, pouco compatível com o efeito sedativo. No entanto, a glicose presente no açúcar ajuda a produzir um neurotransmissor chamado serotonina que, por sua vez, causa uma sensação de prazer que pode ajudar algumas pessoas a sentirem-se melhor. Ainda assim, se está nervoso, faça uma respiração pausada e beba um chá de camomila… de preferência sem açúcar.

«Limpa bem esses ouvidos com uma cotonete»
É natural que nunca o tenha feito, mas vá buscar a embalagem de cotonetes que tem em casa e leia as instruções/advertências da embalagem. «Não introduzir no canal auditivo» – o próprio fabricante avisa-o sobre o que não deve fazer com cotonetes. Aliás, há um conselho em forma de piada usada por alguns otorrinolaringologistas muito elucidativo acerca da limpeza dos ouvidos: «Os ouvidos devem ser limpos com os cotovelos.» A introdução de objetos dentro do canal auditivo para remover a cera ou sujidade, vai empurrar a cera (cerúmen) para dentro e pode causar, entre outros problemas, um trauma no tímpano. Os ouvidos devem ser limpos, sim, mas apenas por fora, naquilo que consegue ver ao espelho, e com uma compressa ou com a própria toalha de banho.

«Não tomes banho depois da refeição»
Quem não foi obrigado em pequeno a esperar duas ou três longas horas depois do almoço para finalmente poder ir ao banho na praia por causa da indigestão? Mas aqui, os pais e as avós têm razão. Quer dizer, mais ou menos. Desde que se trate de água fria, apenas. Durante o processo digestivo o corpo canaliza mais sangue para onde ele é necessário: o tubo digestivo. E, tanto as temperaturas baixas da água do mar como o movimento muscular para nadar obrigam o sangue que devia estar no tubo digestivo a «desviar-se» dessa função para atender às necessidades musculares e de aquecimento do corpo. O que quer dizer que nadar em água gelada depois da refeição é desaconselhado. Pelo contrário, tomar um pacato duche de água morna ou quente não apresenta nenhum inconveniente.

Sofia Teixeira
Fotografia: Corbis