Margarida Rebelo Pinto

Antes e depois de Abril II


Rubrica "A vida como ela é", de Margarida Rebelo Pinto.

As democracias são como os casamentos: podem correr melhor ou pior, mas quase nunca estão isentas de omissões, de segredos e de falhas, como é apenas natural a qualquer instituição. O erro de perceção primordial passa por acreditarmos que vai sempre correr tudo bem. Não vai. Um casamento é construído todos os dias, e quem desiste de trabalhar nele, traindo ou ignorando a outra parte, está a dar passos para o seu enfraquecimento e, não raro, para a sua destruição. Não é uma questão moral, é uma questão de bom senso. Alain Botton, um dos filósofos da moda, apaixonado por relações amorosas e conjugais, sugere que devemos tratar o nosso marido ou mulher com a mesma paciência e sentido de proteção incondicionais que votamos aos nossos filhos. Segundo ele, não se trata de infantilizar o outro, mas antes de lhe proporcionar algum espaço de manobra para aprender a ser um bom parceiro, tal como as crianças aprendem as regras básicas para serem bons adultos. O problema é que os adultos são como as crianças, só vão até onde os deixamos ir.

No tempo da ditadura em Portugal, na qual o regime protegia o patriarcado, eram vetados às mulheres direitos fundamentais que as enfraqueciam de forma individual e coletiva. Esses mesmos direitos, conquistados depois da Revolução de Abril de 74, permitiam ao sexo feminino ganhar força, voz e espaço para reagir a um conjunto de comportamentos machistas. Nos dias de hoje, não seria possível escrever a letra do fado “Não venhas tarde”, na qual um homem canta abertamente, “tu sabes bem / que eu vou pra outra mulher / que ela me quer também / e eu só faço o que ela quer”. Ou em canções como “Com açúcar, com afeto”, de Chico Buarque, que narra os dissabores de uma mulher conformada com os defeitos de caráter do seu amado, oscilando entre copos a mais e mulheres acidentais. Chico Buarque soube, como poucos, pôr-se no lugar emocional das mulheres e retratar com enorme sensibilidade e incrível profundidade como as mulheres sentem as dores amorosas. Vale sempre a pena voltar a ouvir todas as suas músicas, das mais românticas às mais interventivas, para melhor entendimento da condição humana. Entre o amor, o desamor e a crítica social, põe o dedo em todas as feridas que o homem provoca aos outros e a si mesmo, mostrando que o talento também bebe da sinceridade do artista.

O problema de transgredir, seja num casamento um num regime democrático, prende-se com o precedente. Maridos infiéis que traem as mulheres habituam-se a fazê-lo, acabando por desvalorizar a culpa ou responsabilidade inerente, da mesma maneira que quem abusa dos seus poderes, em corromper ou se deixar corromper numa estrutura política, disfarça o delito com a prática repetida. Se, do outro lado, por desconhecimento ou apatia, não existe protesto nem combate perante tal comportamento, apenas uma escassa fatia de seres humanos tem a coragem de parar de forma voluntária e consciente. Gostaríamos de acreditar que a democracia é um valor adquirido e inalienável, mas convém nunca esquecer as palavras de Churchill, “a democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros”. Integridade é fazermos o que está certo sem ninguém estar a ver, mas, lá está, também não é para todos.