Valter Hugo Mãe

A mudança de regras


Rubrica "Cidadania Impura", de Valter Hugo Mãe.

As relações que estabelecemos raramente são rigorosamente equilibradas. Tendemos a ocupar papéis que suprimem carências na outra pessoa, ou que correspondem a alguma carência nossa que se vê assim menorizada. Com isto, as relações justificam-se sempre por uma necessidade de companhia e pelo proveito que delas tiramos, normalmente, um proveito que se traduz em auto-estima, bem-estar, uma qualquer realização que nos leva à validação e à persistência. Curiosamente, no atrapalho que são os nossos sentimentos, muitas vezes nos vemos em longos compromissos que têm tanto de gloriosa construção quanto acumulam instantes de incómodo e mesmo abuso. Vamo-nos habituando a ceder e deixar que, por alguma fraqueza ou confrangimento, alguém nos agrida constantemente, até que se convença que agredir-nos é um direito seu ou algo de que gostamos, não nos damos conta, não nos suscita qualquer leitura.

Eu não penso que sejam exactamente inultrapassáveis os espíritos impositivos e mais narcisos, penso que é fundamental que saibamos entender que existem e levantar defesas para que suas naturezas manipuladoras não nos afectem e sigam controlando nossas vidas. Com o tempo, é fácil entender como qualquer cedência ou serviço que prestemos jamais será suficiente para que exista um verdadeiro respeito. A pessoa narcisa vai escalar suas exigências e vai demandar mais, atribuindo-nos sempre a culpa e, nas raras vezes em que não se conseguir atrever a fazê-lo, atribuindo a culpa a qualquer outra pessoa. Mas alguém assim não terá nunca a coragem de se diagnosticar, de se entregar como enfim agressora.

É imperioso que, por mais amor que esteja envolvido, por maior que tenha sido a esperança e o investimento, mudemos as regras. As amizades não são amizades se nos desvalorizam permanentemente, e não são amizades se nos celebram com um inferno e um resmungo constantes, com a incapacidade de nos trazer um resto de alegria que vemos existir para os outros.

Tenho entendido que a vida opera em ciclos de profunda renovação. As pessoas da nossa vida são cada vez mais figuras com quem simpatizamos mas que toleramos em doses homeopáticas. São boas para instantes precisos, e por vezes ambientes muito definidos, mas não devem ser desafiadas para mais do que isso. Como se fossem ferramentas de uma utilidade específica que não devem ser manuseadas de outro modo. Julgo que reside nisto o grande segredo para as harmonias sociais. Deixar que cada um fique no lugar para o qual faz sentido.

Ultimamente, tenho mudado as regras do meu relacionamento com alguns amigos e a perplexidade não está em reconhecer o quanto abusavam de minha graça. Está em ter demorado tantos anos a tomar uma atitude. Sou um tipo paciente, no que aos afectos diz respeito, e é fácil que ceda ou que seja mais generoso do que o comum. Mas quase me diverte agora reparar como passar a exigir maior respeito traz a imediata fuga de quem se habituou a fazer o baile nas minhas costas.

(O autor escreve de acordo com a anterior ortografia)