Yusra Mardini: nadadora salvadora

Yusra Mardini é nadadora

Uma guerra civil, a inclemência do Mar Egeu, dois Jogos Olímpicos, encontros com o Papa, embaixadora das Nações Unidas, a voz de 80 milhões de refugiados. Em 23 anos, cabe uma existência que chegou a estar condenada e uma vida que já dava um livro. E deu.

Ela ainda se fez de forte, mas uma guerra civil, as ruínas, os destroços humanos, as bombas e um sofrimento inimaginável levaram, finalmente, a melhor. Quatro anos depois de a Síria ter começado um processo de autodestruição, num palco bélico, era preciso virar-lhe as costas e com isso deixar para trás a infância e o início da adolescência, os pais, a família, os amigos, a casa. A vontade de lutar por um futuro mais promissor já era maior do que o medo de morrer e Yusra Mardini agarrou-se a essa esperança com tudo o que tinha.

Um ano depois dessa decisão, em 2016, estava no Rio de Janeiro, a competir nos Jogos Olímpicos, como a cara e a voz de milhões de refugiados. Nessa altura, contudo, já não era apenas a nadadora que sonhou ser praticante desde que nasceu, mas uma heroína, a quem dezenas de pessoas deviam a vida que estava destinada a perder-se no Mar Egeu, depois de o barco que as devia levar da Turquia à ilha de Lesbos ceder a tanto desespero. Mas se Yusra suportou a fome, a sede e o desnorte, também não seria um motor a fazer-lhe a desfeita. Nem a escuridão. Nem o oceano injustamente pouco amigável. Nem o medo. Ao som de rezas e de choros compulsivos, e durante mais de três horas, foram ela, a irmã e mais duas pessoas que empurraram a embarcação até à margem mais próxima. Também a hipotermia e o cansaço foram vencidos.

O rastro de Mardini passou ainda pela Macedónia, pela Sérvia, pela Hungria e pela Áustria, até que se fixou em Berlim. Aos 17 anos, respirava outra vez. Já não era uma menina, mas uma mulher exemplar, inspiradora e merecedora de todas as distinções, de todos os louvores e de todo o reconhecimento. As Nações Unidas fizeram dela Embaixadora da Boa Vontade para os Refugiados, o Papa fez questão de agendar um encontro para a ouvir, Barack Obama não foi parco em palavras. “Não podíamos estar mais orgulhosos de ti pela coragem, resiliência e pelo grande exemplo que és”, disse o ex-presidente dos Estados Unidos, numa espécie de eco global. Logo em 2016, a revista “People” distinguiu-a como uma das “25 mulheres que estão a mudar o Mundo”.

E é a isso que ela se tem dedicado desde então. Não que a natação esteja remetida a um segundo plano, a diferença é que agora é o pretexto para algo maior do que participar em grandes competições e ganhar medalhas. Yusra continua a nadar para salvar vidas – felizmente, sem ter de dar luta ao Mar Egeu -, para ser um exemplo e uma luz para demasiadas pessoas. “Estou muito orgulhosa por representar 80 milhões de refugiados em todo o Mundo, sabendo que lhes envio uma mensagem de esperança a fazer o que amo, e também por mostrar que os refugiados não desistem facilmente e continuarão a perseguir os seus sonhos mesmo depois de passarem por momentos muito duros”, escreveu no Instagram.

Tal como no Rio de Janeiro, também em Tóquio foi ela a carregar a bandeira da seleção olímpica de refugiados na cerimónia de abertura dos Jogos. Só podia ser, não é? A história de Yusra já é um livro (“Mariposa”) e brevemente também será um filme. Porque há vidas que merecem ser contadas, festejadas e lembradas para sempre.

Yusra Mardini
Cargo:
nadadora
Nascimento: 05/03/1998 (23 anos)
Nacionalidade: Síria