OPINIÃO

Uma das últimas entrevistas a Berry Brazelton, o homem que revolucionou a pediatria

Declarado uma lenda viva da cultura americana pela biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, autor de «O Grande Livro da Criança», Berry Brazelton foi o médico que mais revolucionou a pediatria na era moderna – um herói para bebés, crianças e famílias. Morreu ontem, aos 99 anos. Para trás ficou esta entrevista intemporal que deu à Notícias Magazine em dezembro de 2005.

Entrevista de Isabel Stilwell | Fotografias de Reinaldo Rodrigues

[Entrevista publicada na Notícias Magazine de 4 de dezembro de 2005]

Por nunca se ter conformado ao politicamente correto é que o mais famoso pediatra do mundo ocidental, Berry Brazelton, foi capaz de reformular a pediatria, chamando a atenção para as competências das crianças e para as potencialidades dos pais, deixando de lado uma «medicina» que se concentrava apenas nas patologias.

Quinze anos depois de o ter entrevistado pela primeira vez, volto a encontrá-lo. Agora com 87 anos, os mesmos olhos azuis e gargalhada rápida, Brazelton prova que está de bem com a vida e apetece dizer que melhorou com o tempo. Basta vê-lo com o João, de um ano e meio, para ter a certeza de que talvez por ter passado tantos anos entre crianças se sente eternamente uma delas.

De visita a Portugal para lançar Compreender as Relações entre Irmãos, escrito em parceria com o pedopsiquiatra Joshua Sparrow, falou com a NM. No que acabou por ser uma conversa a três.

Com o pequeno João ao colo, a mensagem que Brazelton deixa aos pais é que deixem os seus filhos fazer pela vida. Aprender sozinho é o momento mais excitante da vida de qualquer pessoa, diz.

Quinze anos depois, o que é que mudou no mundo das crianças?
Berry Brazelton (B.B.): É um mundo completamente diferente de qualquer um que pudéssemos ter imaginado ou concebido há 15 anos. Confronta os jovens pais com novos desafios, para os quais nem sempre estão preparados. Com a agravante de que, sem experiência própria, não têm também, muitas vezes, ninguém a quem recorrer. É um tempo mais complicado para se ser mãe e pai.

«Aprender sozinho, sem a ajuda dos pais, é a experiência mais excitante e fantástica do mundo.»

Grande parte dos pais de hoje foram filhos únicos, ou quanto muito tiveram um ou dois irmãos. Provavelmente também nunca viram um recém-nascido de perto, quanto mais tomarem conta dele…
B.B.: É isso mesmo. Quando percorremos os EUA em trabalho, os pais contam-nos como se sentem sozinhos, e como em momentos mais stressantes do desenvolvimento do seu filho essa solidão lhes faz tanto mal. Conhece o meu conceito de touchpoints?

Conheço, mas quer explicá-lo de viva voz?
B.B.: Há momentos na vida de uma criança (e na dos adultos também, mas essa é outra conversa) em que se dão «saltos de desenvolvimento». Etapas que obrigam a criança a uma prévia «desorganização» interior, a um armazenar de energia, para depois terem a capacidade necessária para arriscar o salto e para conseguirem uma nova reorganização. Estes momentos colocam uma pressão extra nos pais e, se não tiverem quem os apoie nesses momentos, podem ser experiências dolorosas e assustadoras. Mas se, pelo contrário, forem acompanhadas e entendidas, podem ser maravilhosas oportunidades de crescimento, tanto para os pais como para os filhos. Foi por isso que lhes chamámos touchpoints, porque se soubermos colocar o «dedo no ponto certo» podemos interagir com o sistema, com ganhos imensos para a família. Quando digo nós, incluo também os técnicos, porque é importante que quem acompanha os pais, nomeadamente o pediatra, conheça estes momentos e saiba prepará-los em conjunto com a família.

E quantos desses momentos-chave é que existem nos primeiros anos da criança?
B.B.: Identificámos treze touchpoints nos primeiros anos de vida, que foram aqueles que estudámos mais intensamente. São momentos ligados a tempos de aprendizagem, como por exemplo os touchpoints do aprender a dormir, da alimentação, etc. Um dos mais importantes é logo após o nascimento, em que a vinculação dos pais com o bebé é fundamental (e vice-versa). É um momento em que o recém-nascido tem de se adaptar, mas os pais também, deixando para trás a imagem do bebé idealizado para a substituir por aquele bebé concreto, que pertence àquele sexo e não ao outro, tem aquele peso, aquele tamanho… e aquele temperamento específico.

«Quero ajudar os pais a perceber os filhos e a si mesmos. Só assim serão melhores pais.»

Criou o Brazelton Touchpoints Center em Boston. Como funciona?
B.B.: O centro pretende formar técnicos neste modelo para que possam, por sua vez, ajudar os pais. Os «alunos» são médicos, enfermeiros, técnicos de saúde, etc. Eu e o Josh trabalhamos neste projeto, e viajamos muito por causa dele, para tentarmos que cada vez mais esses tempos de stress sejam tempos felizes, sobretudo nas famílias mais desfavorecidas e com menos apoios. Se conseguirmos levar este projeto para a frente [iniciado em 1996], talvez sejamos capazes de tornar o ser pais numa coisa mais divertida e de maior sucesso. Ajudar os pais a inundar os seus filhos de uma sensação de importância e de autoestima sempre que eles conseguem superar mais um obstáculo e dar mais um passo em frente.

Mas nos meios mais desfavorecidos as famílias ainda são maiores… E de certa maneira perderam menos contacto com as crianças, com a infância, do que nas classes sociais mais altas, não é?
B.B.: Sim, sim. Josh, queres falar da nossa experiência em Upper Harlem [um bairro desfavorecido de Nova Iorque] depois do 11 de setembro?

Joshua Sparrow (J.S.): O mundo mudou muito em 15 anos, mas nos EUA mudou muito, sobretudo depois do nine eleven. Após o ataque às duas torres, falámos sobre o que tinha acontecido com famílias economicamente favorecidas, e o que aqueles pais sentiam como mais complicado de suportar era a sensação de que afinal não tinham controlo sobre o mundo e que, mesmo com todos os recursos que possuíam, não conseguiam proteger os seus filhos da forma como até aí imaginavam ser possível proteger.

E em Harlem?
J.S.: Quando fizemos as mesmas perguntas em Harlem, olharam para nós espantados e disseram-nos que nada disso era novidade, que «connosco sempre foi assim, nunca nos passou pela cabeça que devíamos ou podíamos proteger os nossos filhos de tudo. Sempre pensámos que o mundo era um mundo perigoso». Explicaram-nos que sentiam que a sua obrigação como pais não era dar-lhes um mundo perfeito, que isso não estava ao seu alcance, mas prepará-los para lidar com a adversidade, de forma a que pudessem sobreviver da melhor maneira que fossem capazes. Foi isto que nos disseram em Harlem.

«Proteger os filhos é uma tendência natural. É muito difícil controlar esse impulso.»

Parece-me do mais elementar bom senso, mas hoje tendemos a superproteger os nossos filhos, mesmo que racionalmente sejamos capazes de entender que não é a melhor maneira… porque há sempre um 11 de setembro pela frente.
B.B.: Proteger os nossos filhos é uma tendência natural e, quando temos possibilidade de o fazer, é muito difícil controlar esse impulso. Mas se os pais perceberem que quando o fazem estão a «roubar» o filho da emoção indescritível que é aprender sozinho, da sensação de felicidade que invade uma criança que chega finalmente ao brinquedo do outro lado do tapete e diz para si mesmo «Consegui! Consegui!», então interferiam menos. Deixavam-no enfrentar as frustrações e os obstáculos, porque só assim o prémio do sucesso será inteiramente seu. E esse prémio vai recompensá-lo de tudo e ensinar-lhe que vale a pena esforçar-se porque o resultado é fantástico. Se os pais forem a correr buscar o brinquedo para lho entregar, nada disto acontece. A sério, quando uma pessoa aprende qualquer coisa sozinha é tãoooo excitante.

No início do vosso livro há logo uma advertência num tom formal que garante que o livro «não deve ser utilizado como alternativa aos cuidados médicos». Era mesmo preciso avisar?
J.S.: Sabe porque é isso? Porque há demasiados advogados nos EUA ansiosos por ganharem dinheiro com litígios que criam e inventam para esse efeito. A nossa sociedade [norte-americana] foi transformada pela sobrepopulação de advogados, e muitas das nossas profissões foram redefinidas em função do risco de sermos processados. Porque há mais gente disposta a explorar os acidentes da vida do que as coisas boas, as oportunidades.

Continuamos na tentativa de ter um mundo à prova de tudo…
J.S.: Sou completamente a favor de que se procure tornar o mundo mais seguro, sobretudo prevenindo acidentes perfeitamente evitáveis, como são os rodoviários. Ainda bem que há obrigação de usar cinto de segurança, cadeirinha protetora, etc., mas é preciso mantermos a lucidez de perceber que só numa visão distorcida da realidade conseguiremos proteger toda a gente, ao mesmo tempo e contra tudo. Aceitar os riscos como parte da vida é muito mais saudável… e sobretudo não incriminar toda a gente e mais alguma por cada coisa que acontece!

«As famílias são hoje mais frágeis. Os casamentos duram menos.»

O que decididamente mudou nestes 15 anos foi a taxa de natalidade. Portugal (e a Europa) tem menos crianças do que tinha então. Quais sentem ser as verdadeiras razões para termos menos filhos?
J.S.: Há casais que acreditam que o planeta já está superpovoado, e que não é justo exigir mais dos recursos do planeta e, por razões altruístas, optam por não ter filhos ou só ter um. Para além disso, na classe média e média-alta é agora frequente tanto a mãe como o pai trabalhem fora, terem uma carreira e adiarem a maternidade – ora, começando tarde, não vão ter mais de um ou dois filhos. E, tão importante como as causas anteriores, há ainda a impossibilidade financeira de sustentar mais filhos, sobretudo nas sociedades em que poucos ou nenhuns apoios são dados aos pais.

B.B.: Acho que as famílias também são hoje mais frágeis, os casamentos duram menos. Nos EUA, neste momento, 15 por cento das crianças vivem numa família monoparental. Ora, a consciência dessa fragilidade leva a que as pessoas prefiram ter menos filhos, porque depois é tudo menos complicado.

DEMASIADA COMPETIÇÃO EM CASA

No vosso último livro, sobre os irmãos, dizem muitas vezes que pomos os nossos filhos a competir demasiado uns com os outros, e que nos esquecemos do bem comum em detrimento do bem individual. É isso?
J.S.: A cultura americana mainstream tende a reforçar o indivíduo, e as necessidades de cada um, em detrimento dos interesses do grupo, mas não me atrevia na dizer que é assim em Portugal. Aliás, acho que não deve ser.

Não importamos só fast-food
B.B.: Eu acho que é mais do que natural que os pais espicacem a individualidade de cada um dos seus filhos e os ponham a concorrer entre si, para que possam dar o melhor…

«Os pais de hoje estão ávidos de compreender o que se passa para desempenharem melhor os seus papéis.»

J.S.: Não é natural, Berry, é cultural. Quando falo de competição com as comunidades índias que ainda subsistem nos EUA, eles dizem-me: «Por isso é que vocês são tão pouco civilizados!» Estamos tão habituados ao conceito, que o achamos universal. Julgo que corremos o risco de colocar tanto ênfase na criança como indivíduo que nos esquecemos de lhe ensinar o seu lugar na comunidade, o que ela pode fazer pelos outros, criando laços mais fortes, alianças que resistem ao tempo. Nomeadamente com os seus irmãos. Hoje, a maioria das mães sente-se culpada por ter um segundo filho, porque se pergunta se terá lugar para ele no seu coração, e como é que eles se relacionarão um com o outro.

B.B.: Todas as mães inconscientemente acham «não tenho instinto maternal, amor para todos os meus filhos, e se calhar o meu filho percebe e por isso é que está a fazer estas birras todas». Não é verdade, claro, mas é o que sentem, e o que sentirão quando esperam o segundo, o terceiro ou o décimo. Por isso, nos meus livros, procuro ajudar os pais a entenderem os filhos, mas também a perceberem o que vai na sua própria cabeça, a entenderem-se a si mesmos.

E a culpa é do Dr. Brazelton e do seu mentor, o Dr. Spock. Foram eles que nos mandaram olhar para os bebés, para as crianças, como indivíduos únicos, com uma personalidade própria, que nos moldavam tanto como nós os moldávamos a eles…
B.B.: Se calhar… se calhar criámos uma geração de pais diferentes, quem sabe? Mas o que sabemos é que estes pais querem ser pais com emoção, mas que também estão ávidos de compreender o que se passa a nível intelectual neste processo de ser pai e mãe, para poderem desempenhar melhor esses papéis. E se não estivermos à altura das suas expetativas, perdemos público. [gargalhadas]

Mas isso é uma coisa boa!
B.B.: Boa ou má, já não nos livramos dela… [ri]

J.S.: É preciso cuidado, porque se criou uma verdadeira indústria de «resposta às ansiedades dos pais», e que para ter procura tem de fomentar essa insegurança das famílias, levá-las a crer que precisam mesmo dos especialistas para educar os seus filhos.

«Você só tem de escutar o seu filho, a si próprio, e aprender a linguagem dele.»

É difícil sentirmo-nos seguros quando tudo muda todos os dias, há sempre uma informação nova, uma atualização, alguém que vem dizer que não é nada assim… Mas isto em todas as áreas da vida. Questionar tudo passa a ser uma obrigação, inclusivamente o nosso papel de pais, não é?
J.S.: É verdade, mas insisto que há uma indústria em torno da família que preferia que os especialistas dissessem aos pais: «Você não sabe ser bom pai, isso não é instintivo, tem de se aprender, e nós estamos dispostos a ensinar-lhe como se faz!» Ora, pela nossa parte, a mensagem que queremos transmitir é a oposta. Dizemos: «Você só tem de escutar o seu filho, a si próprio, e aprender a linguagem dele. E quando estiver inseguro recorra à sua experiência, aos valores da sua família, às suas tradições, e não às ideias que aparecem neste ou naquele anúncio, neste ou naquele discurso.

Com a consciência plena de que não podemos acertar sempre…
B.B.: Digo sempre que se aprende muito mais com os nossos erros do que com qualquer outra coisa.

J.S.: E as crianças são espantosamente generosas para connosco e perdoam com uma facilidade surpreendente. E, OK, é poderoso pedir desculpa a uma criança – é um exemplo fantástico, que lhe permitirá moldar-se em si, e isso é bom.

OS FANTASMAS DO QUARTO DE BRINQUEDOS

Citam muitas vezes a psicóloga Selma Fraiberg, que inventou o termo nursery ghosts, os fantasmas do quarto de brinquedos. E a verdade é que tudo o que sabemos sobre ser pais aprendemo-lo com os nossos pais, e a partir da experiência do que foi sermos seus filhos, e nem sempre correu tudo bem. Como é que estes fantasmas influenciam a nossa maneira de lidar com uma criança, nomeadamente quando ela é nossa?
B.B.: Os fantasmas estão sempre lá! Uma das coisas que espero que os nossos livros façam é deixar isso bem claro. Queremos que quando um dia a mãe perde a cabeça com o filho porque ele a fez perder o controlo com uma palavra ou um gesto, depois de acalmar pense «porque é que reagi assim?», «de onde é que esta ideia me aparece?». E seja capaz de olhar para dentro de si mesma e dizer: «Já me lembro, é da minha infância, era o que acontecia em minha casa.» A partir dessas tomadas de consciência tudo é fácil. Porque percebe, por exemplo, quenão é aquela criança que a irrita, mas a memória que ela provoca…

J.S.: É fácil perceber quando agimos por conta dos nossos fantasmas – nesses momentos sentimos um impulso fortíssimo para reagir assim, uma urgência que não entendemos, que parece mais poderosa do que nós!

B.B.: Estou aqui a rir, Josh, porque quando você começou a falar do mundo alterado pelos advogados… lembrei-me de que o seu pai é advogado. Achei fantástico [gargalhadas] porque percebi logo, e você continuava a falar e a falar dos advogados e do que eles tinham feito ao mundo…

J.S.: E a minha irmã também é advogada. E sei dizer «advogados» em português.

Achamos sempre que os nossos pais nos deviam ter dado mais atenção, mais mimo do que nos deram. Embora, depois de nós próprios sermos pais, entendermos, e por isso perdoarmos, muita coisa…
J.S.: Quantos irmãos tem?

Oito, sou a sétima.
J.S.: Então se calhar é porque a sua família era grande, porque não sei se é verdade que as crianças sentem que os pais lhes podiam ter dado mais.

B.B.: Claro que pensam.

«Aceitar as imperfeições dos pais, aceitar que com o bom vem o mau, é ser-se adulto.»

Venha em minha defesa, Dr. Brazelton, que eu não quero ter de ir dizer à minha mãe que ela contribuiu de mais para a sobrelotação do mundo…
J.S.: O que acontece é que quando as crianças pequenas idealizam os pais, acham que eles são todo-poderosos e todo-sabedores, mas depois crescem, e amadurecer significa reconhecer que não são nada daquilo, e essa consciência provoca uma certa tristeza, desilusão e até confusão, sentimentos típicos da adolescência. Mas em última análise aceitar as imperfeições dos pais, aceitar que com o bom vem o mau, é ser-se adulto. Podemos até ter pena que não tenham feito determinada coisa de outra maneira, mas isso não é o mesmo que achar que deviam ter feito mais.

B.B.: Sabem o que penso? O que penso é que é uma forma de projeção – estamos tristes é por ter de desistir da perfeição em nós mesmos. E então o que fazemos? Projetamos nas outras pessoas – se ao menos eles tivessem feito isto ou aquilo, eu teria sido melhor! E nessa medida sim, reconhecer que não somos perfeitos, desistir dessa utopia, é crescer.

E não pode ser porque o que para mim, como mãe, não passou de um episódio triste, mas sem grande significado, para a criança por qualquer razão assume uma importância enorme, por exemplo porque sentiu – imaginem – aquela bofetada como injusta?
[silêncio]

Sim, uma bofetada. Ela lembra-se e eu não.
B.B.: [agora a rir] Ai, ela vai lembrar-se, vai…

E eu posso esquecê-la…
B.B.: Não se preocupe que ela lembra-lhe!

Claro, e lá voltamos ao princípio, ela vai sempre achar que há erros que eu não devia ter cometido.
B.B.: Agora que fala em tudo isto, lembro-me: a minha mulher, que é muito serena e doce, um dia pegou numa das nossas filhas e colocou-a no caixote do lixo! Simbolicamente. E esta criança nunca, mas nunca mais o esqueceu, e de vez em quando lá atira com a história à cara da mãe.

Depois há a chantagem com a nossa culpabilidade… estes episódios revelam-se úteis para conseguir outras coisas.
B.B.: Diz bem, útil. Útil dessa maneira, mas de outra muito mais importante. Quando se olha para a psicodinâmica das relações percebe-se que é útil culpar os pais pelo que fizeram ou deixaram de fazer, porque só assim vamos imaginando um ideal, o ideal de pais que queremos ser. Que é sempre perfeito, até embater com a realidade.

«Ser pai é aprender com os erros.»

A certeza de que nunca vamos cometer os mesmos erros…
B.B.: Que cometemos sempre! Mas temos de aceitar que aprender a ser pai é isso mesmo, é aprender com os erros, como já disse. E isso leva-nos de novo aos touchpoints, porque são momentos em que todos desabamos, em que todos nos sentimos inseguros. No momento em que os nossos filhos regridem – voltam a acordar de noite, a fazer xixi na cama, etc. – sentimos que tudo o que conseguimos alcançar se perdeu. E não é assim. E é preciso que alguém nos diga isso.

Porque é que temos de regredir para avançar? Estamos programados para parar antes de saltar?
J.S.: Deve ser genético, de facto, porque acontece o mesmo com os chimpanzés, que também têm touchpoints.

B.B.: Quando andava a aprender o que era o desenvolvimento infantil, havia um psicólogo alemão que dizia que aprendíamos aos bocadinhos, e depois juntávamos as peças todas e isso constituía o conhecimento. Mas eu digo que primeiro pomos tudo junto, e depois paramos, damos um passo atrás para conseguir a distância suficiente para ver bem, partimos o conjunto aos bocadinhos e analisamos tudo em pormenor. Não é pôr tudo junto e andar para a frente. Somamos complexidade, riqueza e adrenalina a tudo.

Como no primeiro dia num emprego: mostram-nos tudo, mas saímos de lá convencidos de que nunca nos vamos lembrar do nome daquelas pessoas todas, nem dos cantos da casa.
B.B.: Viu como agiu aquele menino, o João, que nem parece ter só um ano e meio? Deu por ele numa sala estranha, com pessoas que não conhecia exceto a mãe, que estava ali para lhe dar segurança, e não se limitou a somar um mais um para dar dois. Olhou, avaliou, observou quem o rodeava, e depois tomou decisões, correr para aqui e não para ali, deixar-se abraçar ou fugir. Mexeu com todos nós, agitou-nos [ri] e teve um comportamento complexo. O que mais me maravilha nas crianças é o quanto são complexas e capazes.

Em parceria com o pedopsiquiatra Joshua Sparrow, Brazelton tranquiliza os pais dizendo-lhes que saberão sempre o que fazer, desde que oiçam os filhos e se oiçam a si mesmos.

O PAI DE CAIM E ABEL ESTAVA LÁ!

Neste vosso último livro dizem que os irmãos lutam entre eles sobretudo para atrair a atenção dos pais e conseguir que eles tomem o partido de um ou de outro. E dizem que só há risco de se magoarem se os pais estiverem por perto, porque aí acham sempre que vão ser impedidos de o fazer por eles. Caim mata Abel por lá estarem os pais?
B.B.: Pode ter a certeza de que o pai estava ali mesmo, a ver a cena toda. Não há história de os irmãos se magoarem fisicamente a sério a não ser por acidente.

E a odiarem-se, por vezes mesmo em adultos?
B.B.: Claro que há [ri]. Eu odiei o meu até aos cinquenta anos dele.

J.S.: E depois ele morreu…

B.B.: É verdade, e depois ele morreu.

J.S.: Aliás, a mãe deles morreu primeiro e depois eles passaram a dar-se melhor. Mas ele infelizmente morreu cedo.

B.B.: Não tivemos tempo para voltar a ser amigos outra vez.

O Dr. Brazelton era o mais velho, e li que se sentia injustiçado pela sua mãe e
fugia para casa da sua avó, onde se sentia o favorito… Tendemos a culpar os mais velhos por todas as discussões e conflitos?
B.B.: Só lhe posso dizer que é sempre o mais novo que provoca, e digo isto
fundamentado no facto de… eu ter sido o mais velho. Por isso nunca culpem o mais velho!

J.S.: Aliás, dá sempre mau resultado quando os pais se tentam armar em juízes. A única forma de resolver duradouramente estes problemas é devolver-lhes a procura da solução do problema. Dizer-lhes «não sei, nem quero saber, resolvam entre vocês».

B.B.: É duro para os pais ver os filhos pegados. Por isso prometemos uma
recompensa e dizemos que se eles deixarem os filhos resolver entre eles os seus problemas, os irmãos vão criar uma relação mais estreita entre si e no futuro vão preocupar-se mais um com o outro. E por acaso, como prémio-surpresa, é mesmo assim.

O FILHO FAVORITO

Podemos amar todos os nossos filhos da mesma maneira, mas ter um «favorito», nem que seja só numa fase, para numa outra o favorito ser outro…
B.B.: É mesmo inevitável!

Não pode ser uma injustiça para os outros. Os pais sentem-se culpados por isto?
B.B.: Não tenho dúvida de que os pais podem viver toda a vida angustiados com esse facto, mas a verdade é que isso não muda nada. O importante é procurar maneiras de os levarem a aproximar-se de cada um dos filhos, criando um espaço só deles, um encontro a dois por semana, em que é mais fácil conhecerem-se mutuamente. A criança pode não se sentir totalmente compensada, mas os pais vão sentir que estão a fazer alguma coisa para resolver o problema, e isso já os deixa mais serenos, o que por si só é meio
caminho andado.

J.S.: O importante é perceber que a questão não é de amor, mas de sentimentos diferentes. E que ao longo da vida esses sentimentos vão mudando. E se é verdade que em certas fases os pais podem sentir-se menos próximos de um dos filhos, é exactamente esse o momento de fazer um esforço especial para criar momentos especiais com essa criança. Numa base regular. Não acho que seja para a tentar compensar do que sente que não sente por ela, mas para tentar conhecê-la melhor. E acho que isso pode
funcionar muito bem, porque muitas vezes é mesmo um caso de necessidade de se conhecerem melhor e de criarem afinidades próprias.

BILHETES DE IDENTIDADE

T. Berry Brazelton é pediatra há já 45 anos e autor de 35 livros. O Grande Livro da Criança, dedicado ao desenvolvimento emocional e do comportamento durante os primeiros anos, tornou-se o livro de cabeceira dos pais das últimas gerações. Professor de Pediatria na Harvard Medical School, foi também fundador da Unidade de Desenvolvimento Infantil do Hospital de Boston. Criador do «método Brazelton», tem ajudado a formar médicos e técnicos em Portugal.

Joshua Sparrow é professor assistente de psiquiatria na Harvard Medical School e técnico do Departamento de Psiquiatria Infantil do Hospital de Boston. Trabalha há vários anos com Brazelton, sendo diretor das Iniciativas
Especiais do Brazelton Touchpoint Center. E escreveu em coautoria com Brazelton seis livros.