OPINIÃO

O homem que organiza concertos improvisados com vista sobre o Porto

Na casa onde viveu o arquiteto Marques da Silva, autor de edifícios emblemáticos do Porto (deste também), há concertos com vários instrumentos e músicos do mundo. Os solilóquios são espetáculos a solo, intimistas, para cinquenta pessoas. Luís Baptista, professor de ioga, programa estes momentos irrepetíveis numa sala com flores no teto e varanda para os Clérigos.

Texto Sara Dias Oliveira | Fotografias Pedro Granadeiro, Rui Oliveira e Artur Machado/Global Imagens

É domingo à noite, o tempo arrefeceu, a sala do terceiro andar esquerdo do número 100 da Rua das Carmelitas, no coração da baixa do Porto, com generosa vista sobre a cidade, está pronta para mais um solilóquio. Da varanda, veem-se os jardins da Cordoaria, a Torre dos Clérigos, o Jardim das Oliveiras, a Igreja do Carmo, o Mosteiro da Serra do Pilar, a reitoria da Universidade do Porto. A rua não dorme e a vista é um belo postal do Porto nesta casa onde viveu o arquiteto portuense Marques da Silva, autor da Estação de São Bento, do Teatro Nacional de São João, da Casa e Jardins de Serralves, do Palácio do Conde de Vizela, do Liceu Alexandre Herculano, entre outras obras.

As pequenas cadeiras de escola estão à frente, mais atrás cadeiras de design nórdico, no teto alguns vasos de flores virados ao contrário como se fossem candeeiros. O efeito de auditório, na sala que durante o dia é palco de aulas de ioga e de workshops de escrita, música e dança, está criado. «A sala transforma-se, um concerto a solo exige esta proximidade, e as pessoas vêm abertas a algo novo, diferente. Podem sentir a criação da arte no momento, há aqui algo que é possível acompanhar em direto», conta Luís Baptista.

O professor de ioga, licenciado em Filosofia depois de ter desistido de Engenharia Civil, gestor de Airbnb, de 35 anos, é o mentor e programador dos solilóquios, um ciclo de concertos improvisados com músicos do mundo e instrumentos como o acordeão, contrabaixo, tuba, trompete, violoncelo, kora, baixo elétrico, entre outros. «Há sempre duas figuras: o músico e o instrumento. Uma condição essencial é ver-se a técnica do instrumento. São músicos reconhecidos como os melhores do mundo», diz Luís.

«A atmosfera que se consegue criar é sempre diferente, com esta vista imensa que cria uma relação com a cidade e uma plateia que está sempre a corresponder ao que o músico propõe», diz Flora di Martino, espetadora assídua.

O concerto de domingo vai começar. Na sala, cerca de quarenta pessoas estão sentadas com visibilidade total para o que vai acontecer. O músico japonês Kazuhisa Uchihashi senta-se junto à varanda e agarra-se à sua guitarra e depois ao daxofone, um instrumento experimental composto por uma espécie de línguas de madeira que se vão encaixando num bloco e que é tocado com uma lâmina de madeira e um arco – instrumento inventado no século passado pelo alemão Hans Reichel, que morreu há seis anos. E Uchihashi, que vive entre o Japão e a Alemanha, é considerado um dos mais importantes intérpretes do daxofone.

O concerto é um improviso do início ao fim, começa com a guitarra e passa para o daxofone, que produz sons que fazem lembrar animais, monstros, melodias de mundos de encantar e, por vezes, até diálogos entre seres que nunca existiram. A plateia aplaude cada música, Uchihashi não é músico de muitas palavras, agradece, volta para um encore. E, no final, depois do concerto, partilha que é mesmo disto que gosta. «Nenhum concerto é igual ao outro, gosto de improvisar e de ter um público diferente.» No Porto, sentiu-se em casa.

Flora di Martino, arquiteta francesa a viver em Portugal há quatro anos, aproxima-se das peças de madeira do daxofone. Quer vê-las bem de perto. «Muito interessante, não conhecia, o próprio objeto é muito curioso.»

Flora não faltou a um solilóquio, confia totalmente nas escolhas de Luís. «A atmosfera que consegue criar é sempre muito diferente, com esta vista imensa que cria uma relação com a cidade, com este fundo, e uma plateia que está sempre a corresponder ao que o músico está a propor.» «É uma coisa mais completa, mais sentida», acrescenta.

«É um ciclo de concertos muito original, é uma ideia brilhante que permite aos artistas outros tipos de expressão. Há sempre diferenças entre vê-los em grupo ou sozinhos com os seus instrumentos», diz Jorge Liz.

No dia anterior, sábado, na mesma sala, o músico Dawda Jobarteh, da Gâmbia, que agora vive em Copenhaga, que tocou com o músico de jazz Yusef Lateef, trouxe a sua kora, colar ao pescoço, túnica vermelha, chapéu, calças pretas. Sentou-se e durante quase uma hora tocou esse instrumento tradicional da África Ocidental, uma espécie de harpa-alaúde, com 21 fios de pesca.

Dawda, que pertence à família de maior tradição da kora e que se tornou um dos grandes virtuosos do instrumento, toca com mais um fio e ri-se quando revela esse pormenor sem explicação adicional. «Sinto-me como se estivesse a tocar numa sala com a família e os amigos. Se quiserem, podem dançar», diz a meio do concerto. Da kora saem melodias tranquilas e Dawda toca com as duas mãos e canta canções da sua terra natal como se lhe saíssem das entranhas. Aplausos, encore, conversas de final de concerto. O músico recebe abraços, elogios, sempre de sorriso aberto.

Jorge Liz é melómano e espetador assíduo dos solilóquios. Está atento na plateia, de vez em quando o pé tenta acompanhar o ritmo. Gosta de jazz e fascina-o a oportunidade de ver músicos a solo, fora das bandas que integram. É outra coisa. «É um ciclo de concertos muito original, é uma ideia brilhante que permite aos artistas outros tipos de expressão. Há sempre diferenças entre vê-los em grupo ou sozinhos com os seus instrumentos», comenta.

Os bilhetes rondam os 15 euros, a lotação da sala é limitada, não mais de cinquenta pessoas. Desde o início, que a bilheteira reverte 100% para os músicos e, quando o dinheiro não chega, Luís suporta o cachet através dos restantes trabalhos que tem.

Os solilóquios surgem quase por acaso. No início não havia nenhuma perspetiva ligada à música pensada para a sala de ioga alugada desde 2000. Mas em novembro do ano passado, Luís Baptista sentiu saudades de ir a um concerto. Nessa noite, pensou no que gostaria de ver e Peter Evans, trompetista norte-americano, dos mais reconhecidos da atualidade, foi a sua escolha. «Era o concerto que gostaria de ver e a solo para que ele pudesse expor todo o seu arsenal porque tem uma técnica absolutamente avassaladora», recorda.

Pouco depois, estava a enviar um e-mail ao músico com um convite para tocar na sua sala de ioga, acompanhado da história e fotografias do emblemático edifício de Marques da Silva. A resposta chegou em menos de dez minutos. Um sim e março como data. «Foi um impulso, uma coisa pouco refletida.» E deste impulso de uma noite de novembro surgiram os solilóquios. «O cachet era fora da realidade do que acontecia aqui, mas tinha tanta vontade de o ter cá.»

A 8 de março, Peter Evans estava na sala de Luís. A 19 de abril, Mark Dresser, contrabaixista norte-americano, que integrou o quarteto de Anthony Braxton e foi nomeado para um Grammy em 2003, fazia o seu primeiro solo em Portugal nos solilóquios.

«Os concertos têm sido muito especiais, está a valer a pena, o gozo é partilhar algo especial.» Luís não fala em números de cachet e grava todos os concertos com a ideia de lançar um álbum para a posteridade.

Na programação, que arrancou em fevereiro, com o saxofonista portuense João Guimarães, já passaram nomes importantes do jazz e improvisação como o norte-americano Rob Mazurek com trompete piccolo, piano e eletrónica; da música do mundo como o multi-instrumentista guineense Mû Mbana; do rock como o guitarrista norte-americano Gary Lucas, que colaborou com Nick Cave, Loud Reed, John Cale, Iggy Pop; e ainda Allan Mednard, baterista norte-americano, que fez o primeiro solo da sua carreira nos solilóquios.

Os bilhetes rondam os 15 euros, a lotação da sala é limitada, não mais de cinquenta pessoas. Desde o início, que a bilheteira reverte 100% para os músicos e, quando o dinheiro não chega, Luís suporta o cachet através dos restantes trabalhos que tem, ioga e Airbnb – e um dos espaços que aluga é no mesmo prédio, no mesmo andar, um T1 que serve de hotel para os músicos.

Luís vai continuar, a programação para 2018 já está a ser preparada, e a 27 de janeiro o multi-instrumentista alemão Stephan Micus, um ícone da música do mundo, está nos solilóquios – e a 16 de fevereiro o contrabaixista britânico Barry Guy e no dia seguinte o guitarrista norte-americano Joe Morris, melhor guitarrista do ano em 1998 e em 2002 pela New York Jazz Awards.

«Os concertos têm sido muito especiais, está a valer a pena, o gozo é partilhar algo especial.» Luís não fala em números de cachet e grava todos os concertos com a ideia de lançar um álbum para a posteridade. E no passado de Luís, num amor que não passa, está a sua costela de músico. Tocou saxofone, trompete, contrabaixo e piano na Escola de Jazz do Porto. «Toco vários instrumentos, mas nenhum bem. Eu, na verdade, era o elemento mais dissonante do grupo.»

PRÓXIMOS CONCERTOS

  • 27 DE JANEIRO, 21h30
    Stephan Micus,multi-instrumentista;
    25 euros (esgotado)
  • 16 DE FEVEREIRO, 21H30
    Barry Guy, contrabaixo; 15 euros
  • 17 DE FEVEREIRO, 21H30
    Joe Morris, guitarra; 15 euros

Quatro Estações
no número 100 das Carmelitas

O edifício das Quatro Estações, onde agora se realizam solilóquios musicais, é uma das obras emblemáticas do arquiteto Marques da Silva, que nasceu e morreu no Porto, estudou em Paris e conquistou vários prémios.

Na fachada está a explicação do batismo: quatro figuras esculpidas representam a primavera, o verão, o outono e o inverno. Construído em 1905, o prédio respeita o granito das construções vizinhas, mas rompe com um desenho urbano convencional do Porto, tal como a livraria Lello, ali ao lado.

O arquiteto estreita a porta de entrada para as escadas e dá mais espaço às montras comerciais. A sua vontade de provocar o contraste não passa despercebida a uma nova expressão arquitetónica da cidade do Porto.

 

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