Falar em público é uma arte que se aprende (e devia ser disciplina obrigatória para alguns)

Há quem nasça com o dom, há quem lhe tenha um medo de morte. A capacidade de falar em público, contar uma história, defender uma ideia, passar uma mensagem, influenciar e mobilizar audiências, é um desafio. Os entendidos dizem que somos o que comunicamos e que estas competências se treinam para a mensagem chegar com clareza ao destinatário. Políticos, empresários, professores, estudantes e engenheiros procuram melhorar a capacidade de falar em público – mas não são os únicos.

Texto Sílvia Júlio | Fotografias de Jorge Amaral, Maria João Gala e Orlando Almeida/Global Imagens

Já assistiu a uma conferência com um tema que prometia ser interessante e o orador não conseguiu cativar a audiência? Catarina Basílio tem 23 anos, é arqueóloga, com bolsa de investigação, e dá conferências nacionais e internacionais em congressos organizados por universidades e museus.

A Pré­‑História é o cerne da sua investigação, o período Calcolítico em que o homem começou a transformar o cobre. Para se «destacar entre os outros investigadores», investiu no treino de falar em público.

Usou o que aprendeu para defender a sua tese de mestrado e proferir comunicações cá e lá fora. «Tenho de falar muitas vezes em público, quer seja para apresentar dados quer seja para captar financiamento para projetos de investigação. Associada à nossa profissão de arqueólogos está a ideia de que não somos bons comunicadores. Para combater isso, complementei a minha formação.»

A postura correta ajuda a voz a sair mais fluida e natural. As técnicas ensinadas não são para mudar o discurso mas para melhorar – não se cria uma coisa artificial.

A investigadora não quer ver ninguém a bocejar durante as suas apresentações, marcando a diferença. Um dos problemas de Catarina que denunciavam insegurança era a dificuldade em manter os pés fixos ao chão, balançando de um lado para o outro.

«A postura correta ajuda a voz a sair mais fluida e natural. As técnicas ensinadas não são para mudar o discurso mas para melhorar – não se cria uma coisa artificial. Eu continuo a ser a mesma com novas ferramentas que me permitem melhorar a Catarina que já existia.»

Timidez, vai embora!

Vicente Barata já fez aos 32 anos dois níveis de um curso de falar em público para vencer sobretudo a timidez, que o impedia de chegar às pessoas numa simples conversa. Tendia a olhar e a falar para baixo. «Sempre fui muito tímido e apercebi­‑me de que as minhas abordagens eram um bocado despropositadas.»

Logo na primeira sessão foi embora mais cedo quando foi pedido aos formandos para exporem um tema à escolha. Achou que não seria capaz. «Faltou­‑me coragem para falar e estava muito nervoso.»

Reconsiderou e pensou que se fizesse «figura de palerma» não viria mal ao mundo. É motorista da família de um governante africano e tem ideias para empreender num futuro próximo: uma quinta pedagógica e um parque de autocaravanismo.

«Na maioria das vezes as pessoas não sabem o que estão a fazer com o corpo e a voz, porque estão focadas na palavra que vão dizer a seguir», diz David Mourão.

«Estas formações são importantes para ir bater às portas. Já falei com engenheiros do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, com a junta de freguesia e daqui a uns dias vou estar com um vereador de uma câmara municipal.»

David Mourão, CEO da Speak and Lead, empresa de formação e consultoria, especializada em public speaking, persuasão e influência, leciona a arte de bem comunicar, persuadir e influenciar, em parceria com universidades e associações de estudantes.

Recebeu até convites para dar formação a professores universitários com «alguns tiques», que podem ser corrigidos, embora seja «mais fácil» trabalhar com jovens que têm menos vícios na comunicação.

Também o medo de falar em público é comum a muita gente – contudo, é possível contornar os receios. «Não acabamos com o nervosismo, o que conseguimos é pôr as pessoas mais em condições de controlarem o corpo e a oralidade.

«Na maioria das vezes as pessoas não sabem o que estão a fazer com o corpo e a voz, porque estão focadas na palavra que vão dizer a seguir. Quando fazemos gravações de vídeos, dizem­‑nos que nunca se tinham apercebido disso.»

Também o medo de falar em público é comum a muita gente – contudo, é possível contornar os receios. «Não acabamos com o nervosismo, o que conseguimos é pôr as pessoas mais em condições de controlarem o corpo e a oralidade. Às vezes falam bem, o conteúdo é interessante, mas estão a passar nervosismo à audiência. Quando não estão confortáveis, a audiência também não vai estar confortável, o que cria barreiras à comunicação.»

Membros de juventudes partidárias também procuram estas ações de formação. David Mourão conta que lhe causa estranheza ouvir políticos na Assembleia da República que não sabem transmitir com eficácia uma mensagem. «Temos pessoas na Casa da Democracia que nos representam e não sabem falar em público, o que é uma montra da nossa sociedade com défice de comunicação.»

Mensagem assertiva

Numa sala de um hotel em Coimbra estão reunidos sobretudo autarcas. Objetivo: aprender a comunicar melhor, saber o protocolo autárquico e projetar uma imagem moderna das juntas de freguesia e câmaras municipais desde a receção à presidência.

Olga Vitorino, 37 anos, presidente da assembleia da União das Freguesias de Carragozela e Várzea de Meruge, concelho de Seia, é «nova nas funções» e diz que o que ali está a reter «são ferramentas para implementar neste novo mandato». Considera que a credibilidade naquilo que se diz e faz é crucial aos olhos dos fregueses. A expressão «mais séria, mas também assertiva, transmite a mensagem de mais confiança».

Sérgio Monteiro é secretário da Junta de Freguesia de Samuel, concelho de Soure. Tem 33 anos e faz parte da nova geração de autarcas que reconhecem a relevância da segurança na comunicação na altura em que se projeta a voz: «A confiança com que falamos pode condicionar a comunicação que estamos a fazer.»

Nuno Miguel Henriques afiança que contribuiu para a vitória de oito presidentes de câmara. «Ajudo a construir os alicerces para as pessoas trabalharem para o seu sucesso. Sou um treinador de emoções.»

Apesar de todos estarem mais despertos para estas situações, Sérgio Monteiro nota que «quem ocupa determinados cargos ainda não dá a importância necessária a estes assuntos». A sua intenção, garante, é empregar as técnicas de comunicação para um contacto mais próximo com os cidadãos.

Nuno Miguel Henriques, diretor da Embaixada do Conhecimento, ensina há duas décadas estas matérias. Assume­‑se como comunicólogo. Vários políticos – autarcas, deputados e antigos ministros – já o procuraram para melhorar a capacidade de comunicar. Afiança que contribuiu para a vitória de oito presidentes de câmara.

Cristiano Ronaldo é o melhor do mundo e continua a treinar para se superar ainda mais. É também assim que se trabalham as competências de comunicação.

«Ajudo a construir os alicerces para as pessoas trabalharem para o seu sucesso. Sou um treinador de emoções.» E faz a analogia com o desporto: «Podemos ter os melhores jogadores do mundo, mas se não tivermos um bom treinador não funciona.» Cita Thomas Edison para dizer que também na comunicação existem os tais «dez por cento de inspiração e noventa de transpiração».

Cristiano Ronaldo é o melhor do mundo e continua a treinar para se superar ainda mais. É também assim que se trabalham as competências de comunicação. Nos últimos tempos, Nuno Miguel Henriques tem acompanhado desportistas, empresários, médicos e estudantes. As novas gerações ligadas às ciências, engenharias e tecnologias estão a apostar em ser melhores comunicadoras.

Milhões na boa comunicação

Se muitos já têm um personal trainer para chegarem aos objetivos a que se propõem fisicamente, há cada vez mais quem tenha um treinador pessoal para exercitar competências comunicacionais adaptadas às necessidades e ambições de cada um, com soluções individualizadas.

Sara Batalha, CEO da MTW – Media Training World­wide Portugal, trabalha há 24 anos em comunicação e sublinha que tem havido uma procura crescente, na ordem dos sessenta por cento/ano, por estes serviços. «Estamos há dez anos em Portugal e, nos últimos três, [a procura] foi galopante. Houve uma consciencialização do setor empresarial no impacto da comunicação no negócio.

«Noventa por cento dos meus clientes são CEO, metade do PSI 20. Eles sabem que com uma apresentação podem ganhar um negócio de milhões», diz Sara Batalha.

Só agora é que o líder português sabe que a liderança comunicativa não é um should have – é um must have.» Este trabalho é já indispensável para muitos líderes de primeira linha: «Noventa por cento dos meus clientes são CEO, metade do PSI 20. Eles sabem que com uma apresentação podem ganhar um negócio de milhões.»

Para esta especialista, «um comunica­dor moderno deve estar focado no outro, deve estar preparado e deve trazer de si a sua naturalidade, seja ela qual for». Sara Batalha afirma que «o líder português quer ser influenciador».

Os clientes aprendem ferramentas para estarem mais naturais e confortáveis em situações de stress. As soft skills, frisa a CEO da MTW, ajudam a alavancar a economia nacional: «A forma como comunico o país e como me comunico enquanto profissional aumenta o meu valor de mercado.»

Patrícia Fernandes é diretora de marketing digital, inovação e comunicação do Montepio. Os exercícios de comunicação que tem feito «são valiosos» para veicular a mensagem pretendida. Sara Batalha dirigiu­‑se àquela instituição para preparar a responsável do Montepio para uma entrevista que ia conceder a um canal de televisão.

«Comunicar é essencial para sermos bem­‑sucedidos profissionalmente como líderes de equipas. E a comunicação treina­‑se com especialistas», diz Patrícia Fernandes.

Patrícia procurou este tipo de acompanhamento por estar convencida de que «comunicar é absolutamente essencial para sermos bem­‑sucedidos profissionalmente como líderes de equipas. E a comunicação treina­‑se com especialistas», afirma.

Segundo esta líder de 47 anos, habituada a trabalhar em multinacionais, tem de haver «humildade» para aceitar o que não se faz tão bem e permitir que outra pessoa avalie, assumindo­‑se vulnerabilidades. «É preciso ter consciência de onde estou e onde quero estar para fazer esse caminho.»

Patrícia Fernandes sempre teve facilidade de comunicação, o que não significa que comunique «muito bem». É a procura da excelência que lhe faz sentido no meio onde se move, porque fala para grandes audiências: «Tenho de ter a capacidade de dominar a técnica de comunicação – e isto trabalha­‑se, não há milagres.

Comunicar não é como andar de bicicleta – continua a ser necessário o treino», enfatiza. Faz questão de receber sempre o feedback do que diz e da forma como o faz para continuar a progredir. E gosta de partilhar o que sabe sobre comunicação às suas equipas: «Não gosto de ficar com o conhecimento só para mim.» Os líderes, que fazem jus à função, desenvolvem, com boa comunicação, quem trabalha com eles.

Pedro Afonso, CEO da Axians Portugal, durante a TEDx no Colégio Militar, com o tema «A escada da vida».

Como se prepara uma conferência

Pedro Afonso, CEO da Axians Portugal, numa TEDx sobre «A escada da vida», no Colégio Militar. Antes de proferir a conferência, foi acompanhado por uma equipa de profissionais. Tudo foi preparado ao pormenor para que causasse impacto na audiência. Os efeitos vi­suais e as palavras escolhidas cativaram o público. Apresentar uma comunicação «natural» é uma competência que se trabalha com afinco.

Mesmo quando já se tem boas capacidades de oratória, o ótimo atinge­‑se com treino. Captar a atenção da plateia é uma arte que se aprimora com profissionalismo. Da mesma forma que se estuda para aprofundar determinadas áreas do conhecimento, também é possível aprender a comunicar com eficácia.

O que dizem os especialistas

  • Marcar um X imaginário do local onde vai comunicar.
  • Evitar o famoso pêndulo (balançar).
  • Não iniciar a intervenção usando o famoso «eu».
  • Saborear a audiência, ao chegar ao palco, para demonstrar que está feliz por estar ali.
  • Preparar e visualizar com antecipação o que vai acontecer.
  • Pensar na última coisa que quer transmitir, para que a frase fique na memória do outro como chamada de atenção.
  • E as mãos? A dúvida clássica… Mãos na linha do umbigo, zona do controlo emocional, para garantir que se movem.

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