OPINIÃO

Canábis: história de uma indústria em crescimento nos EUA

Há filas à porta de dispensários para comprar marijuana em toda a Califórnia. O consumo recreativo da erva tornou-se legal a 1 de janeiro e vai transformar o Estado no maior mercado de canábis do mundo. A erva será legal num total de 8 Estados – Colorado, Califórnia, Alaska, Massachussets, Maine, Nevada, Oregon, Washington e ainda em Washington D.C.

Texto de Ana Rita Guerra, na Califórnia | Fotografia de Reuters, Getty Images e D.R.

O caminho é tortuoso e há 40 minutos que o telemóvel perdeu a rede. O carro avança lentamente em cima de um empedrado duvidoso e não há placas nem sinal de vida. Só árvores e silêncio numa manhã solarenga da Califórnia.

«Estamos no condado de Calaveras, em Mountain Ranch», diz Corey Kite, o dono e CEO da Bondad Farms, ajustando o boné e limpando as mãos na t-shirt desbotada. Atrás de si, em toda a sua glória vegetativa, erguem-se cerca de mil pés de canábis sativa, indica e híbridos das duas, em diferentes estágios de crescimento.

Corey Kite, o dono e CEO da Bondad Farms. Fotografia D.R.

A plantação de Corey Kite tem um pouco mais de dois mil metros quadrados e é um investimento milionário, com retornos ainda maiores. Corey hesita ao falar de números, porque a situação legal e económica desta indústria continua a ser volátil, mesmo na progressista Califórnia. Uma plantação desta dimensão, tendo em conta a apetência do mercado, deve rondar os dois milhões de dólares quando o produto final chegar aos dispensários. Os custos de produção são extremamente elevados.

Uma plantação de canábis como a de Corey Kite deve rondar os dois milhões de dólares quando o produto final chegar aos dispensários. Os custos de produção são muito elevados.

«Temos uma licença de canábis medicinal. Cultivamos e vendemos com o único propósito de utilização médica, e é por isso que optámos por agricultura biológica», explica. «É para termos produtos seguros para os nossos consumidores finais». O que isto significa, na prática, é que a plantação tem um jardineiro-chefe com extensa experiência em agricultura biológica e a filosofia de cultivo é alimentar o solo em vez das plantas, usando apenas nutrição natural e nenhum fertilizante sintético.

Jonny Saldaya, o jardineiro-chefe, põe-se de cócoras e aponta para o solo de onde se ergue uma das plantas, com vários metros de altura. «Um patógeno como míldio ou algo que pode fazer apodrecer as folhas não consegue espalhar-se porque há um ecossistema que o previne», declara, identificando os vários bichos que circulam na terra e são benéficos para este equilíbrio.

As plantas estão divididas por filas e há imensas variantes, que deixam no ar aquele cheiro adocicado e inconfundível da marijuana. O que está a acontecer no norte da Califórnia, onde abundam estas plantações, é uma autêntica revolução agrícola.

O conhecimento que durante tantos anos foi transmitido boca a boca pode agora ser ensinado às claras. A canábis medicinal é legal na Califórnia desde os anos noventa, mas isso não significa que a indústria tenha saído logo das sombras.

Um El Dorado em tons de verde

Tal começou a acontecer há poucos anos, principalmente depois de o Estado do Colorado ter sido o primeiro a legalizar o consumo recreativo de marijuana, em 2012. De lá para cá, foi uma avalanche: há 29 Estados com marijuana medicinal e nove (oito Estados mais Washington D.C.) aprovaram o consumo recreativo. A Califórnia foi um deles.

A lei, que entrou em vigor a 1 de janeiro, vai criar um novo El Dorado – desta vez em tons de verde. Há entre 10 e 15 mil plantações de canábis em todo o Estado, que é o terceiro maior em território depois do Alaska e Texas e o mais densamente povoado, 40 milhões de habitantes.

«A indústria legal da canábis na Califórnia vai crescer de 3,7 mil milhões de dólares [3,1 mil milhões de euros] em 2017 para quase 6,5 mil milhões de dólares [5,4 mil milhões de euros] em 2025, tornando-se no mais significativo e maior mercado nos Estados Unidos», diz John Kagia, vice-presidente executivo da empresa de analítica dedicada à canábis New Frontier Data. Não apenas dos EUA, mas do mundo.

No dia 2 de janeiro, o primeiro em que as lojas abriram após a festa de Ano Novo, milhares de californianos fizeram filas à porta de dispensários para comprarem marijuana.

Até aqui, era preciso ir a um Green Doctor e obter uma licença para comprar canábis, justificada por um problema de saúde – desde enxaquecas crónicas a dores nas costas, náuseas associadas a quimioterapia ou epilepsia. Agora, deixou de ser necessária a justificação médica.

No dia 2 de janeiro, o primeiro em que as lojas abriram após a festa de Ano Novo, milhares de californianos fizeram filas à porta de dispensários para comprarem marijuana. Aconteceu por todo o lado, de Oakland e San Jose a Los Angeles e San Diego.

A canábis tem potencial para ser um dos setores de mais rápido crescimento da economia norte-americana. Fotografia Reuters

Há regras de posse e consumo: cada pessoa, a partir dos 21 anos, pode andar com até 28 gramas de marijuana e ter até seis plantas em casa. Há também regulamentos sobre onde os dispensários podem ser instalados (por exemplo, nunca perto de escolas) e é proibido fumar em público.

Los Angeles, que passa a ser a cidade com o maior mercado legal de marijuana do país, já tem um congresso anual dedicado ao mercado da canábis. A última edição da CWCBE foi a maior de sempre, com 250 empresas expositoras e mais de quatro mil participantes. O mote do evento? Canábis significa negócio.

As pedras no caminho do negócio da canábis

John Kagia confirma que a canábis tem potencial para ser um dos setores de mais rápido crescimento da economia, galgando por cima da vontade da administração de Donald Trump – que anda pelos cantos a ver o que pode fazer para impedir este progresso.

É isso que põe a indústria numa situação bizarra. Mais de metade dos Estados legalizaram o cultivo e consumo da planta e a maioria dos americanos concorda com a sua utilização medicinal, mas a canábis continua a ser ilegal ao nível federal. «Isso cria barreiras significativas que impedem um crescimento acelerado da indústria. Significa que cada Estado organiza o seu próprio mercado e não se pode transportar produtos de Estado para Estado», diz John Kagia.

Há também a questão financeira: os grandes bancos não querem ter nada a ver com canábis enquanto o governo federal a considerar uma droga ilícita e exercer mecanismos repressivos sobre a movimentação de dinheiro proveniente da planta, obrigando as instituições a declará-lo ao abrigo das leis anti-lavagem de dinheiro. Muitas empresas escondem a sua proveniência e quando são descobertas veem as contas congeladas. Os desafios legais são tão imensos que apenas pequenas instituições bancárias, como uniões de crédito e bancos locais, estão dispostas a fazer negócio com as empresas de canábis.

O Departamento do Tesouro reconheceu que isto era a realidade e não queria crime organizado a fazer lavagem de dinheiro, por isso estabeleceu regras para os bancos lidarem com a indústria da canábis.

«É tão oneroso que os grandes bancos nacionais, como o Bank of America, Wells Fargo, Chase, não têm qualquer interesse. Teriam de mudar a sua estrutura toda de conformidade no país, apesar de só se aplicar a metade», explica Daniel Yi, um brasileiro que trabalha como relações públicas da empresa MedMen, especializada em gestão operacional de negócios de canábis. No entanto, garante que há soluções. «O Departamento do Tesouro reconheceu que isto era a realidade e não queria crime organizado a fazer lavagem de dinheiro, por isso estabeleceu regras para os bancos lidarem com a indústria da canábis». No país inteiro, há cerca de 300 instituições bancárias a servir o mercado multi-milionário da canábis.

O jardineiro-chefe John Saldaya, Corey Kite e o diretor de operações Eli Carillo. Fotografia D.R.

A incerteza legal é uma preocupação para Corey Kite. «Somos pioneiros, por isso lidamos com regulamentos que mudam constantemente», afirma. «Num dia temos uma série de regras e um mês depois já são outras». Por vezes, o empresário questiona a sua decisão de obter uma licença e sair das sombras. Fica nervoso com as afirmações do procurador-geral Jeff Sessions, que quer encontrar uma forma de parar a caminhada da marijuana rumo ao estatuto legal. «Só esta propriedade, que está apenas meio desenvolvida, tem um milhão de dólares investidos», revela.

Gastos com a propriedade, construção, licenças, impostos, salários, registos. No final do segundo ano, ainda está no vermelho. Uma mão cheia de trabalhadores sobe e desce de escadotes, enquanto Corey, o jardineiro-chefe John e o diretor de operações Eli Carillo falam dos ciclos de crescimento e de como escolhem as estirpes de canábis que depois plantam. Todos têm uma paixão incrível pelo que fazem. Todos acreditam que a força da planta será maior que a de qualquer divisão política.

Uma indústria em revolução

Jessica Hanson costuma chocar as pessoas quando diz que está no negócio da canábis, embora o estigma social esteja a desaparecer mais rapidamente do que Jeff Sessions consegue dizer cachimbo. «Vai haver uma mudança na perceção de quem é o empreendedor da canábis. Já não é o gajo com calças largas e rastas», diz.

Há tanta gente diferente nesta indústria que todos os estereótipos foram pelo cano. O empreendedor «pode ser uma mulher vestida profissionalmente. Pode ser um homem de fato. Ou o investidor de capital de risco». Hanson é diretora de desenvolvimento da SunStone Distribution, em San Diego, e entrou no mercado porque queria usar produtos com marijuana com os quais se sentia confortável. Dá para ver porquê: a apresentação dos produtos continua a ser orientada para homens jovens.

«Antes era o charro e o cachimbo, agora há emplastros, tinturas, e não é para ficar com a pedrada, é bem-estar, é estilo de vida», diz Daniel Yi, relações públicas da MedMen.

«Antes era o charro e o cachimbo, agora há emplastros, tinturas, e não é para ficar com a pedrada, é bem-estar, é estilo de vida», sublinha Daniel Yi. «Essa é a área que cresce mais rapidamente neste mercado. A planta em si está a crescer, mas a curva para comestíveis, vaporizadores, coisas que dão mais opções de consumo está a explodir», salienta. «É por isso que vemos tantas empresas a entrarem e a oferecerem formas mais eficientes de consumo.»

É este o modelo de negócio da Elixinol, uma marca que usa exclusivamente canabidiol (CBD) derivado de cânhamo. «Os últimos seis meses foram os de mais alto crescimento de sempre na empresa», revela Ruben Gonzalez, diretor de vendas para América do Sul e Europa. O CBD está presente tanto na marijuana como no cânhamo, ambos derivados de canábis sativa. A diferença é que o cânhamo contém apenas quantidades residuais de tetrahidrocanabinol (THC), a componente que dá a «pedrada», e por isso a sua venda é permitida nos 50 Estados.

«Comecei a usar CBD em mim, na minha família, e depois nos meus pacientes», diz o médico Philipe Blair. «Vi transformações incríveis nas vidas das pessoas e hoje recomendo canabidiol para todo o tipo de problemas»

O corpo humano tem recetores de CBD (o sistema endocanabinóide) e é por isso que os médicos que investigam os seus efeitos dizem que a canábis tem a capacidade de induzir a homeostase, ou estado de saúde ideal.

«Comecei a usar CBD em mim, na minha família, e depois nos meus pacientes», conta o médico de família Philipe Blair. «Vi transformações incríveis nas vidas das pessoas e hoje recomendo canabidiol para todo o tipo de problemas». O médico garante que o CBD «pode ser usado para restaurar a saúde de uma pessoa».

Está tudo a começar

Os produtos comercialmente mais atrativos são essenciais para conquistar os consumidores que cresceram a ouvir histórias terríveis sobre marijuana. Há cerca de 300 publicações sobre canábis no mercado, muitas com edição em papel, que falam da planta de uma forma desassombrada, quase glamorosa.

É também por isso que se vê tantas mulheres a entrarem na indústria como empresárias. O desequilíbrio mantém-se – apenas 30% das posições de chefia são ocupadas por mulheres, segundo os últimos dados da Marijuana Business Daily, mas ainda assim é uma percentagem superior às das outras áreas, que costumam ficar abaixo dos 20% (em Silicon Valley, por exemplo, é de 11%, segundo a Fenwick & West LLP, e na lista S&P 100, de 16%).

«A indústria da canábis é nova, está a formar-se, por isso não há tantas barreiras institucionalizadas e sistemáticas», afirma Bear Michael, da Cannashare Consulting. Bear define-se como «ativista queer», cujo trabalho é chamar a atenção para a necessidade de incluir minorias neste mercado explosivo e impedir que seja dominado pelos suspeitos do costume – o homem branco de classe média que prevalece noutros meios. «Sem ter um histórico de décadas de exclusão das mulheres, é mais fácil de criar novas formas de existir.»

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