Será que estamos a humanizar em demasia os companheiros de quatro patas?

Até que ponto os adereços, roupas e tratamentos estéticos alteram a natureza dos animais de companhia? Estaremos a humanizar em demasia os amigos de quatro patas?

Texto de Cláudia Pinto

Mais de metade dos lares em Portugal tem, pelo menos, um animal de estimação. É o que conclui o estudo “Track.2Pets”, da consultora Gfk, que adianta que Portugal é um país “pet friendly” em comparação com outros países. A empresa revela ainda que “o tratamento dispensado aos animais de estimação nunca foi tão humanizado como nos dias de hoje. As pessoas atribuem-lhes cada vez mais sentimentos e características dos seres humanos e, muitas vezes, são tratados como filhos”.

Dentro desta tendência atual, os acessórios, as roupas e certos tratamentos fazem parte das escolhas de alguns donos de animais de estimação. E ainda que certos acessórios constituam, de facto, uma necessidade, outros respondem somente a modas e a gostos dos tutores.

Beatriz Sinogas é médica veterinária e diretora clínica da Clínica Veterinária das Avencas e diz-nos que “existem situações em que os acessórios e utensílios são necessários, podendo parecer algo a nível estético, mas são mais do que isso, e protegem o animal, por exemplo, na recuperação pós-cirúrgica”. Visivelmente agradada pelo facto de os piercings e o corte de orelhas e cauda serem atualmente proibidos por lei em Portugal, considera que algumas tendências tiveram mais impacto noutros países do que no nosso.

No que respeita aos gatos, a médica veterinária destaca a tosquia higiénica, essencial para não desenvolverem dermatites, recomendada sobretudo a felinos que urinam constantemente ou têm muitas diarreias. O problema começa quando os donos pretendem uma tosquia total para evitar que os pelos do gato fiquem espalhados pela casa. “Nesse caso, sou completamente contra e já recusei esse serviço na minha clínica. Não consideramos viável o animal sofrer uma anestesia por sedação sem razão médica.”

Beatriz Sinogas refere ainda uma outra moda que não teve sucesso em Portugal: “Existem unhas de gel de várias cores que são utilizadas para evitar que os gatos arranhem os sofás ou as pernas dos donos (muitas delas são de fácil acesso, encontram-se à venda online, o mesmo acontecendo com outros adereços). A cola que se utiliza para a aplicação destas unhas provoca dermatites graves”, alerta. A médica veterinária chegou a receber casos de gatos mais velhos cujos donos lhes retiraram as unhas na totalidade por serem muito agressivos. “Isto é atualmente proibido por lei, a menos que exista alguma justificação clínica”, explica.

O treinador de cães e presidente da Associação Portuguesa de Cães de Assistência, Rui Elvas, não encontra qualquer justificação para pintar as unhas ou o pelo dos animais. “Não vejo qualquer utilidade. Há também quem recorra a serviços de estética em exagero, pessoas que dão banhos aos cães quase todas as semanas, que os vestem com roupas que respondem muito mais a modas do que ao conforto. Um animal pode estar ambientado a uma casa e ao seio familiar, mas deve manter a sua identidade”, afirma.

Pintar o pelo dos animais pode ser prejudicial, sobretudo quando se recorre a tintas que incluem chumbo. “Os cães intoxicam-se com muita facilidade com esta substância. A tinta vai sendo absorvida através da pele, é metabolizada pelo fígado, originando problemas hepáticos a longo prazo. Há tintas compradas sem qualquer critério que não foram idealizadas para os animais e que são altamente prejudiciais”, explica Beatriz Sinogas.

Refletir antes de utilizar
Além das tendências, mais ou menos passageiras, há quem também compre vestuário para os seus animais de estimação com a preocupação de os proteger do frio e da chuva. “Não vale a pena comprar gabardinas para evitar que se molhem porque os cães têm uma camada lipídica na pele que os protege do excesso de água”, prossegue Sinogas. “Como os donos não têm esta perceção, gostam de comprar capas porque acham que estão a proteger o animal da chuva, e eu não me oponho. No entanto, há que ter em consideração se com algumas roupas os animais se coçam frequentemente e se formam borbulhas, pois podem estar a criar dermatites por contacto.”

Quando, na consulta, surgem donos cujos animais de companhia têm algum acessório ou roupa que Beatriz Sinogas desaconselha, a médica alerta para tal, explicando os motivos. “Pessoalmente, não gosto dos laços, muito utilizados nos Yorkshire, nem dos guizos, mais comuns em gatos, ainda que não sejam totalmente prejudiciais, salvo raras exceções. Já recebi em consulta um cão com uma queimadura de terceiro grau na cabeça porque, perante a sua insistência em tirar o lacinho, os donos colaram-no com cola quente. Isto é totalmente desnecessário. Por pura estupidez, o cão teve de ser totalmente tosquiado e fazer uma cicatrização. Sempre que um animal fica incomodado com roupa ou acessórios, consegue retirá-los ou destruí-los com as patas”, conta. Quanto aos guizos, costuma sugerir aos donos para colocarem um no próprio pulso durante 24 horas. Se não gostarem da experiência, poderão concluir que, provavelmente, os gatos também se sentirão incomodados. Logo, são objetos a evitar.

Rui Elvas considera importante o enquadramento dos animais na vida diária dos donos, mas apenas quando tal se reflete em melhores cuidados. “Gosto de ver um cão companheiro do seu dono e que gosta de correr com ele. Quando se obriga o animal a ir para outros patamares, como por exemplo participar em provas caninas sem qualquer segurança, só para alimentar o ego dos donos, acho que se cai no exagero. Prefiro ver um cão a desenvolver uma função nobre, seja um cão de terapia ou um cão de assistência, que ajuda pessoas a ultrapassarem doenças, lesões ou outro tipo de perdas. Nesses casos é que ele se sente útil e feliz”, refere.

Recorrendo à velha máxima “os animais são o reflexo dos donos”, o treinador de cães é defensor do total respeito pela essência do animal. “Existem roupas com tecidos que irritam a pele e podem provocar problemas de saúde a médio/longo prazo. Sugiro que se procurem marcas que tenham sido devidamente estudadas para criar produtos em prol do bem-estar animal”, sublinha.

Nesta procura de humanização, o importante é ter bom senso e equilíbrio. Perceber o que os animais gostam e o que é incomodativo ou prejudicial. O ideal passa por informar-se sobre o que é que determinada raça precisa ou não, o que é recomendado ou desnecessário. “Sugiro tudo o que seja feito com peso e medida, desde que não prejudique a saúde física e psicológica do animal. Afinal, um cão tem de ladrar, não tem de falar”, conclui Beatriz Sinogas.

Ana Galvão
“Tratar de um cão ou de um gato implica respeitar a sua natureza”

Ana Galvão é sobejamente conhecida por se envolver em causas de defesa dos direitos dos animais. Tem duas cadelas, Flor e Uva, e dois gatos, Mirtilo e Heidi, em conjunto com o ex-companheiro, Nuno Markl, sendo que os animais se dividem entre as casas de ambos. A locutora da Rádio Renascença é totalmente contra a utilização de acessórios nos animais. “As nossas cadelas e os gatos só utilizam coleiras com o nome e um contacto telefónico, para o caso de se perderem ou fugirem, como já aconteceu”, explica.

“Os animais são animais, e não nos podemos esquecer disso, por muito que os amemos. Tratar de um cão ou de um gato implica respeitar a sua natureza, ou seja, não devemos obrigá-los a humanizações excessivas, acessórios ou cortes de cabelo completamente irrisórios. Pobres animais. No fundo, o que eles desejam, após um banho com óleos essenciais, é rebolar na rua, para recuperar o seu próprio cheiro a cão. Respeitemos isso. Os cães não são pessoas. Defendo o amor que se tem pelos animais, mas sempre dentro da sua condição”, remata.

Carlos Chainho
“Cada pessoa tem a sua maneira de cuidar de quem gosta”

O antigo futebolista Carlos Chainho sempre teve cães. O dálmata Spoty viveu 13 anos e acompanhou-o para os locais onde jogou durante a carreira, como a Grécia, o Chipre, a Madeira ou o Porto. Depois, a família adquiriu a Blanca, que morreu há dois meses. “Os animais sempre fizeram parte de nós. Os meus filhos Diego, de 16 anos, e Daniela, de 14, cresceram com eles”, diz. Há uns anos, Chainho ofereceu à esposa, Mónica, o gato Sushi, que é atualmente o único animal de estimação da família.

“A minha maior preocupação com os animais é dar-lhes carinho, prestar cuidados de saúde, levá-los a passear. Não me oponho à utilização de adereços, ainda que não os utilize, e tenho alguns amigos que são adeptos dos mesmos. Cada pessoa tem a sua maneira de cuidar de quem gosta”, defende. Só discorda da colocação de sapatos nos animais, como já viu. “O resto não me incomoda. Julgo que é uma forma de os donos demonstrarem amor pelos seus animais. Desde que os tratem bem, não vejo qualquer problema”, conclui.