OPINIÃO

Cancro: descobertas nanopartículas que condicionam a evolução dos tumores

Chamam-se exómeros, são três mil vezes mais finos do que um fio de cabelo e estão envolvidos na evolução dos tumores. Esta importante descoberta também tem dedo português.

Texto Sara Dias Oliveira | Fotografia Shutterstock

Acabam de ser detetados numa investigação científica. Pela primeira vez, uma equipa internacional de cientistas identificou nanopartículas que influenciam a evolução dos tumores. Chamam-se exómeros e nunca ninguém tinha ouvido falar deles.

Tão pequenos e com uma importância tão grande na progressão tumoral. O grupo de cientistas inclui investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto, que trabalharam em colaboração com o grupo do investigador David Lyden, do Weill Cornell Medicine, de Nova Iorque. O trabalho é publicado esta semana na revista Nature Cell Biology.

Os exómeros são três mil vezes mais finos do que um fio de cabelo.

Segundo Celso Reis, investigador principal do trabalho realizado em Portugal, «os investigadores conseguiram separar em pormenor vários subtipos destas vesículas e, nessa separação, identificaram um novo grupo de vesículas a que chamamos, exómeros e que têm aproximadamente 35 nanómetros.»

A ciência já sabe que as células de cancro comunicam à distância com outras células e que essa comunicação inclui o envio de proteínas e de vesículas, como por exemplo os exossomas. Aplicando às células cancerígenas uma técnica de fracionamento que nunca tinha sido aplicada neste contexto, chega-se agora a uma outra descoberta importante.

Os exómeros são ainda menores do que os exossomas e o seu conteúdo é significativamente diferente das outras vesículas, não só nas proteínas, mas também nos glicanos, que são hidratos de carbono complexos que existem nas células e que estão muito alterados nas células tumorais.

A descoberta abre portas a novas estratégias para melhorar o diagnóstico e, quem sabe, avaliar o seu potencial no tratamento.

Com recurso a linhas celulares de diversos tipos de cancro e também modelos animais, os investigadores descobriram também que estes exómeros têm uma distribuição pelos órgãos do animal diferente das outras vesículas. O que segundo Celso Reis, sugere «uma função diferente no processo de progressão tumoral.»

«Percebemos também que as proteínas que estão particularmente enriquecidas nos exómeros são proteínas que sabemos serem importantes na biologia tumoral, ou seja, contribuem para a evolução do tumor», acrescenta o investigador, num comunicado do i3S.

A investigação internacional não para por aqui. Pretende-se agora definir especificamente as diferentes funções biológicas das partículas no microambiente tumoral e na progressão da doença.