OPINIÃO

Alexitimia: como vive quem não consegue reconhecer ou expressar emoções?

Sentimentos e emoções são palavras muito usadas no dia-a-dia, mas e se não pudéssemos exprimi-los, apesar de os sentirmos? E se essa incapacidade fosse permanente? E se por causa dela também nunca pudéssemos interpretar corretamente os sentimentos e emoções dos outros? Tânia Godinho, psicóloga do ITAD – Instituto de Apoio e Desenvolvimento, diz-lhe tudo o que precisa de saber sobre a alexitimia.

Entrevista de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

O que é a alexitimia?
É um construto com três componentes principais: extrema dificuldade em usar linguagem correta para nomear, expressar, descrever sentimentos e diferenciá-los de sensações corporais; uma imaginação muitíssimo pobre; e um funcionamento cognitivo baseado no concreto, no funcional, no utilitário. No fundo, designa a falta de palavras para descrever as emoções (do grego a – falta, lexis – palavra, thymus – emoção ou ânimo). Em 1967, o termo foi utilizado pela primeira vez pelos psiquiatras Peter Sifneos e John Nemiah, depois de notarem que doentes psicossomáticos que observavam tinham uma tremenda dificuldade em falar dos seus próprios sentimentos.

Contudo, não se trata de um transtorno mental…
A alexitimia não é, de facto, uma doença que se possa diagnosticar, embora se associe a problemas médicos e/ou psiquiátricos desde depressão, perturbação de stress pós-traumático, desordens alimentares ou problemas psicossomáticos (doenças autoimunes, cardiovasculares e outras).

Pode antes ser considerada um traço de personalidade?
Pode ser caracterizada como uma disfunção afetivo-cognitiva, por norma danosa tanto na vida relacional como no bem-estar físico do indivíduo [veja mais particularidades da alexitimia na nossa fotogaleria].

Ao contrário da psicopatia e da esquizoidia, a alexitimia não é uma perturbação de personalidade e tem características diferentes.

Em que é que a alexitimia se distingue de perturbações como a personalidade psicopática ou esquizoide?
Ao contrário da psicopatia e da esquizoidia, a alexitimia não é uma perturbação de personalidade e tem características diferentes. A psicanalista Joyce McDougall apelidou os alexitímicos de «normopatas» porque vivem numa normalidade falsa, desumanizada, sem contacto com a realidade psíquica, mas num conformismo extremo. Já a psicopatia, enquanto perturbação de personalidade e de forma muito genérica, é pautada pela ausência de empatia e remorso, comportamentos antissociais e baixo controlo de impulsos. A esquizoidia destaca-se pela falta de vontade em (man)ter relacionamentos interpessoais, o que leva ao isolamento e a uma expressão emocional diminuta.

Pessoas alexitímicas vivem numa permanente ausência de capacidade de expressão emocional.

E em que é que se distingue daqueles momentos – por que todos passamos de vez em quando – de ausência de palavras para as emoções?
O que diferencia esses momentos é justamente a parte do «de vez em quando»: são a exceção, não a regra. Em situações de maior sobrecarga emocional, qualquer pessoa pode sentir dificuldade em expressar-se, isso é perfeitamente normal. Porém, mesmo nessa situação, consegue identificar o que sente. Pessoas alexitímicas vivem numa permanente ausência de capacidade de expressão emocional.

Mas isso quer dizer que todos nascemos com alguma dessa dificuldade em exprimir o que sentimos, de alguma forma?
Todas as pessoas nascem com potencial para se desenvolverem emocionalmente, depois o ambiente em que se é acolhido determina como, e quanto, esse potencial pode ampliar-se. Um ambiente seguro, caloroso, que responda às necessidades, aberto às emoções, favorece muito um crescimento emocional saudável, em que os sentimentos não são negados ou evitados e sim consciencializados, assumidos, vivenciados. Isto significa que as dificuldades na expressão emocional são mais facilmente adquiridas do que inatas.

As pessoas afetadas podem ser as que, por circunstâncias diversas, não fizeram uma adequada aprendizagem emocional.

De um modo geral, quem são as pessoas mais afetadas? Existe um perfil característico ou trata-se de uma condição transversal?
As pessoas afetadas podem ser aquelas que, por circunstâncias diversas, não puderam fazer uma adequada aprendizagem emocional, logo é uma situação transversal. Não está necessariamente relacionada com fatores sociais ou culturais.

Na prática, quais são as maiores dificuldades por que passa uma pessoa com alexitimia?
Vivemos numa sociedade em que a comunicação é fulcral, portanto a comunicação das emoções e sentimentos – seja por palavras, gestos ou símbolos – garante o início, a continuidade e o fim de todo o tipo de relacionamentos. Acontece que a pessoa alexitímica, na sua incapacidade de reconhecer os seus estados afetivos, torna-se igualmente incapaz de comunicar emocionalmente. Não consegue pedir ou dar conforto, por exemplo. Nada de pedir ou dar ajuda.

Só por aí, a relação entre um alexitímico e um não-alexitímico pode tornar-se uma fonte séria de conflitos interpessoais…
Sem dúvida. Com a agravante de estes conflitos fazerem com que a pessoa alexitímica se isole e afaste mais dos outros, o que contribui para uma redução ainda maior do contacto com a sua parte emocional. Em muitos casos, isto poderá significar o aparecimento de doenças psicossomáticas, porque se os conflitos não são geridos pela psique serão descarregados nos sistemas corporais ou psiquiátricos.

Não se conhecem exatamente as causas desta condição, pelo que várias hipóteses têm sido sugeridas e estudadas.

Quais são as causas que conduzem a esta condição? É genética? Algo que se define posteriormente, decorrente de vínculos e ambiente?
Não se conhecem exatamente as causas desta condição, pelo que várias hipóteses têm sido sugeridas e estudadas. Equacionaram-se causas neurológicas, psicológicas, socioculturais ou mesmo traumas. Numa abordagem mais integrativa, a alexitimia poderá ser o resultado de uma interação complexa entre fatores biológicos e ambientais. Isto porque, quando uma criança nasce, traz com ela estruturas cerebrais por desenvolver. A partir do momento em que é entregue a um cuidador, por norma a mãe, as estruturas neuronais relacionadas com o desenvolvimento emocional vão-se começar a desenvolver através da relação estabelecida com a progenitora.

Daí ser tão relevante ela estar em sintonia com as necessidades do bebé…
Precisamente. Nesta abordagem, a expressão consciente do que se sente é uma aprendizagem social, bastante importante nos relacionamentos. Se o ambiente for o adequado durante toda a infância e adolescência, a criança ganha consciência das suas emoções e sentimentos. No entanto, se o ambiente não for o adequado, a criança não só não aprende a reconhecer as suas emoções como as evita. Mais: há um conjunto de estruturas mentais que não se desenvolvem da melhor forma, resultando num défice emocional que pode conduzir à alexitimia.

A família é sempre preponderante, seja em que situação for.

Qual é o papel da família em todo este processo de formação da alexitimia e do auxílio prestado?
A família é sempre preponderante, seja em que situação for, contudo é na infância que ela assume maior importância por ser nessa altura que se definem e consolidam laços afetivos, determinantes para o bom desenvolvimento de qualquer criança. Mediante um processo de vinculação segura, a mãe sintoniza-se com o filho, com as suas emoções e necessidades.

Ao mesmo tempo que contribui para o seu desenvolvimento emocional…
Está a prevenir futuras situações de alexitimia, sim. Se estivermos a falar de adultos, a família de um alexitímico pode precisar de perceber o que se passa exatamente com o seu familiar, de modo a fornecer suporte, compreensão e evitar conflitos interpessoais. Isso é algo que não o ajuda em nada a expressar-se.

Com psicoterapia, a alexitimia pode melhorar bastante, já que um terapeuta vai ajudar no desenvolvimento emocional.

E qual é ao certo a melhor forma de enfrentar esta condição? Tem cura?
Com psicoterapia é uma situação que poderá melhorar bastante, uma vez que um terapeuta vai ajudar o alexitímico no seu desenvolvimento emocional. Claro que pessoas com esta característica, na grande maioria das vezes, chegarão a uma consulta por outros motivos – inclusive por consequências da própria alexitimia, embora não tenham consciência disso. Com a continuação e aprofundamento do processo terapêutico, a parte emocional vai sendo despertada, trabalhada. E então os resultados, que se traduzem em melhorias na vida da pessoa, começam a surgir.

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