OPINIÃO

Sem medo do medo

Para traçar uma linha no chão, o medo tem de ser real. Não pode ser apenas um receio, apenas uma impressão vaporosa e sem contornos. Tem de nos pôr em causa, tem de ser vida/morte, tem de ser sempre uma luta pela salvação do mundo, como nos filmes de super-heróis.

O medo é a fronteira que precisamos de ultrapassar para que, realmente, exista deslocação. Se não existe qualquer espécie de medo, não saímos do lugar. Às vezes, quando estamos num comboio parado, os outros comboios a avançarem à nossa volta, a seguirem por linhas paralelas, dão-nos a sensação de movimento. No mundo, não faltam as ilusões de ótica, podemos fazer uma vida inteira a acreditar em ilusões de ótica, a tomá-las por referência. Na dúvida, quando não conseguimos avaliar a relevância de uma possibilidade, é o medo que esclarece.

Para traçar uma linha no chão, o medo tem de ser real. Não pode ser apenas um receio, apenas uma impressão vaporosa e sem contornos. Tem de nos pôr em causa, tem de ser vida/morte, tem de ser sempre uma luta pela salvação do mundo, como nos filmes de super-heróis. Se o medo for uma faca, está bem afiada.

Por isso, nunca estamos completamente preparados para avançar na sua direção, para enfrentá-lo, nunca sabemos ao certo se conseguiremos sobreviver-lhe. O medo que ultrapassámos no passado perdeu toda a sua validade. Para ser verdadeiro, o medo é sempre novo, é moldado pelos caprichos intrincados da nossa humanidade.

Porque somos humanos, somos fortes e frágeis ao mesmo tempo. A nossa força e a nossa fragilidade são interdependentes, uma existe por causa da outra. São como dois impulsos contrários que se equilibram, que criam a tensão necessária para amparar todo o edifício. As pessoas dão muitos nomes ao genial engenheiro civil que foi capaz de calcular precisão tão milimétrica.

Dessa forma, o medo é individual, feito à exata medida. Ou seja, o medo é uma casa, um espaço íntimo, onde apenas podemos estar sozinhos, como o quarto da adolescência. Então, seria mais certo dizer «esse medo» ou «cada medo» porque «o medo», único e absoluto, é uma cidade, um país, um continente, uma civilização.

Por todos estes motivos, a sua existência é necessária, como o ar, a água, todos os elementos. Devemos falar com ele e, por muito que nos custe olhá-lo diretamente, devemos agradecer-lhe. Sem medo não se faz nada.