OPINIÃO

Pulmões: neste caso, o tamanho importa

José Alves, presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão, garante que é importante sabermos o tamanho dos nossos pulmões. Não fumar, prevenir doenças respiratórias e fazer diagnósticos precoces são atitudes que fazem bem ao órgão que «comanda» a respiração.

José Alves, presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão, presidente do Observatório Nacional de Doenças Respiratórias, e pneumologista, explica que os pulmões são a janela e a chaminé do nosso organismo, e lamenta que os fumadores continuem surdos aos alertas e os jovens achem que viverão para sempre.

«Sabe o Tamanho dos Seus Pulmões?» é uma iniciativa que está a decorrer em 138 farmácias de norte a sul do país com espirometrias gratuitas. A iniciativa pretende detetar precocemente uma doença que, neste momento, afeta 800 mil portugueses.

O que é importante sabermos sobre os nossos pulmões?
Se são normais e adequados às nossas necessidades. Os pulmões têm uma capacidade de funcionar muito superior ao que é necessário no dia-a-dia, chama-se a isso reserva funcional. Quando perdemos essa reserva, começamos a apresentar queixas. É, portanto, necessário conhecer o tamanho dos nossos pulmões, determinante na capacidade funcional pulmonar.

Pulmões maiores são mais saudáveis?
Sim, pulmões maiores são mais eficientes. Os pulmões são a janela e a chaminé do nosso organismo: a janela porque permitem a entrada de ar e oxigénio para todas as células; a chaminé porque permitem a saída do CO2 produzido nas combustões internas, ocorridas em cada uma das células do nosso organismo. Quanto maiores, maior é a capacidade de trocas gasosas. Adicionalmente, saber o seu tamanho permite antever possíveis problemas de saúde e conhecer as suas fragilidades.

E como é que ficamos a saber o tamanho dos nossos pulmões?
Por isto, lançámos a campanha de sensibilização «Sabe o Tamanho dos Seus Pulmões?» em parceria com as Farmácias Holon. Esta campanha decorre em 138 farmácias de norte a sul do país, onde estamos a realizar espirometrias gratuitas à população. A iniciativa tem como objetivo a deteção precoce de uma doença que afeta 800 mil portugueses. As farmácias Holon e a Fundação Portuguesa do Pulmão defendem a prevenção de uma doença que se anuncia como a terceira causa de morte em 2020 – a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica.

Os fumadores são surdos a toda a informação sobre doenças ligadas ao tabaco. Os jovens têm a ideia que são imortais.

Há falhas na forma de comunicar a importância de uma boa saúde respiratória?
Não. Penso que poderá haver falhas na receção da informação e idiossincrasias comportamentais. Os fumadores são surdos a toda a informação sobre doenças ligadas ao tabaco. Os jovens têm a ideia que são imortais. A população teme as doenças provocadas pelas vacinas, enquanto vacinam sem qualquer questão filhos e netos.

O que se pode fazer quanto a isso?
A obrigação dos profissionais de saúde e das instituições ligadas à saúde é ultrapassar estes problemas e temo-lo feito de todas as formas possíveis. Mas é sempre possível melhorar, é sempre possível inovar. Ainda que inovar seja fazer, só, o que deve ser feito. No caso das doenças respiratórias, tudo se resume a três palavras: evicção do tabaco; diagnóstico precoce do cancro e da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica; prevenção, com a vacina da gripe e da pneumonia.

Temos os melhores médicos, antibióticos tão bons como os melhores e um ótimo Serviço Nacional de Saúde. Não há nenhuma razão para alarme.

As mortes por doenças respiratórias aumentaram. O que pode ser feito para prevenir estes valores preocupantes?
Os números relativos podem dar-nos informações enganosas. A diferente certificação, o envelhecimento da população e o melhor registo são muito provavelmente as causas subjacentes a esses números. Entretanto, a Fundação Portuguesa do Pulmão (FPP) sabe que o Ministério da Saúde está a estudar todas as pneumonias da última década e muito em breve teremos novidades esclarecedoras. A FPP não está preocupada com a situação. Temos os melhores médicos, antibióticos tão bons como os melhores e um ótimo Serviço Nacional de Saúde. Não há nenhuma razão para alarme.

O pulmão é um órgão negligenciado pelos cuidados básicos de saúde?
Não. Há um plano nacional de doenças respiratórias que se ocupa da patologia pulmonar, quer na sua vertente diagnóstica, quer na sua vertente terapêutica. As mais diversas patologias estão em constante observação direta e são alvo de planos de diagnóstico precoce. Podemos melhorar, sempre, na referenciação, na equidade, na assertividade das ações, mas o trabalho realizado é bom e as pessoas e instituições envolvidas querem melhorar.

A vacinação deve ser tendencialmente gratuita, para a gripe e para a pneumonia. A disponibilidade de bons cuidados respiratórios deve ser igual nos grandes centros e nas regiões com menores acessibilidades.

O que deve ser feito para que os pulmões sejam tratados como deve ser?
A qualidade do ar é fundamental, quer do ar dentro das nossas casas, quer do exterior. As autoridades não podem nunca negligenciar este aspeto. A vacinação deve ser tendencialmente gratuita, para a gripe e para a pneumonia. A disponibilidade de bons cuidados respiratórios deve ser igual nos grandes centros e nas regiões com menores acessibilidades. Os rastreios devem cobrir a maioria das pessoas pertencentes aos grupos de risco. Finalmente, deve ser melhorada a lei do tabaco, obrigando ao seu cumprimento e aumentando significativamente o preço dos cigarros. Em França, custam o dobro, na Irlanda o triplo…

Quais os cuidados a ter, no dia-a-dia, com os pulmões?
Evitar as agressões de fumos e poeiras. Os nossos pulmões têm um sistema de limpeza que expele a maioria das poeiras inaladas com o ar, porém há algumas que ficam para sempre e podem provocar doenças graves mais tarde. Depende do tamanho e da natureza. A sílica e o amianto são as mais conhecidas, mas existem outras. Evitar as poeiras de uma maneira geral é o melhor. E não fumar. Fumar está ligado às principais causas de morte e de patologia respiratória. Aumenta o risco de cancro do pulmão, de DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica) e de pneumonia. Relativamente ao fumo passivo, na Europa apenas dois países nórdicos têm melhor taxa que Portugal. Cada um, e em cada momento, deve zelar pelos seus interesses, fazendo valer o seu direito ao ar limpo. Ao fazê-lo pode e deve sensibilizar os fumadores para a sua saúde e para a saúde de todos!