OPINIÃO

Mais viajantes e menos turistas (parte 1)

Venha quem vê o que vê e não aquilo que veio ver. Quem está disposto a perder‑se na paisagem e não a marcá‑la. Quem não quer levar nada para casa, a não ser uma memória. Boa.

Com exceção dos lugares mais perigosos, e mesmo esses… não há um sítio a salvo do turismo, numa linha de continuidade entre os descobrimentos portugueses – tornaram o mundo global – e a noção de low cost no transporte aéreo – que tornou o mundo barato.

Não pense Portugal que está sozinho perante os dilemas que o turismo coloca. Como evitar que o turismo destrua o autêntico? Como mudam as cidades com os turistas e o que podem trazer de bom? Como pode o turismo de massa não entrar em autofagia, destruindo o interesse? Como podem os direitos dos turistas equilibrar‑se com os locais?

Nos países mais pobres do mundo, também normalmente paraísos naturais, o turismo está entre ser bênção económica e mais um braço da exploração pelas elites – detentoras dos meios de produção turísticos – sobre a população normalmente pobre, e perdoem‑me o marxismo da linguagem. Que atire a primeira pedra quem nunca se hospedou num resort espetacular, mas fechado à população local. Quem nunca sentiu problemas de consciência, entre o amargo de perceber como são explorados os que nos servem sempre com um sorriso, e o pensamento de que, se não estivéssemos ali, não teriam emprego?

Nos países mais ricos, os que podem passar bem sem as receitas que o turismo traz à economia, começou a haver um sentimento antiturístico que vai em crescendo – veja‑se
o caso de Espanha, onde, em Barcelona, ou nas Baleares, já há movimentos que roçam o terrorismo e a xenofobia. Em Portugal, Lisboa e Porto, este é um tema recorrente.

Os movimentos antiturismo, como os que se baseiam nos princípios de exclusividade, esquecem a regra de ouro. Porque nenhum dos que manifestam o seu ódio ou, vá, simples desprezo pelos estrangeiros na sua cidade faz profissão de fé de nunca mais ser estrangeiro noutras paragens, nunca mais sair do lugar onde nasceu.

A verdade é que o mundo se divide entre os turistas – que, cândidos, não se importam de andar de meias e sandálias e parecer o que são, turistas, visitam cidades de olhos filtrados pelos guias, vêem o que vieram ver – e os viajantes – que acolhem cada lugar com o que ele tem de melhor e pior, e por vezes se encantam com este último, fazem o mínimo de estrago possível, respeitam as diferenças, e vêem o que há para ver, bebendo cada momento. Estes, mesmo que sejam turistas, não querem parece‑lo. Alguns conseguem, são aqueles dos quais não damos conta. Vão a lugares «onde os turistas não vão», andam «fora da estrada mais batida».

Se todos os turistas fossem viajantes, deixávamos de ter hordas de calções, selfies em cada esquina, tolerância para restaurantes maus, preços exorbitantes. Há encanto na ingenuidade dos turistas, e dele falarei na próxima semana. Mas do que Portugal precisa, sendo um país pequeno, idiossincrático e facilmente desequilibrável, é de gente que venha sem mapas ou ilusões a serem preenchidas. Aí sim, Portugal podia abrir‑se a eles, sem medo de se perder.