OPINIÃO

Incêndios: O apoio emocional quando há dor e raiva

Medo, ansiedade, vulnerabilidade. Depois das catástrofes dos incêndios o que fazer? Direção-Geral da Saúde e Administração Regional de Saúde do Centro elaboraram um guia depois da tragédia de Pedrógão Grande. Continua atual. O país está de luto.

Como digerir e gerir uma tragédia que colocou um país de luto? Como reagir às chamas que consomem vidas, casas, fábricas, carros, pinhais? Como lidar com tudo isto? É importante estar atento a alguns sinais.

A Direção-Geral da Saúde (DGS) e a Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro fizeram um guia sobre os cuidados a ter quando os fogos terminam, depois do que se passou em Pedrógão Grande. Cada caso é um caso. E a dor pode ser imensa.

O que fazer para ajudar os mais novos? Falar sobre o que aconteceu, sobre medos e preocupações. Aceitar o que se sente e que esses sentimentos são dolorosos e não habituais.

As crianças e adolescentes podem sentir-se tristes, ansiosos, preocupados com o futuro, com vontade de chorar ou de bater em alguém. Irritados, zangados com o que aconteceu, com medo de novos incêndios, que alguém desapareça, com vontade de não largar os pais, irmãos ou amigos, ou, pelo contrário, com vontade de ficarem sozinhos. Podem sentir-se confusos porque a rotina foi brusca e repentinamente alterada.

O que fazer para ajudar os mais novos? Falar sobre o que aconteceu, sobre medos e preocupações. Aceitar o que se sente e que esses sentimentos são dolorosos e não habituais. Tentar que façam atividades de que gostam, que estejam perto dos familiares e amigos. «Normalmente, as respostas emocionais intensas ao acontecimento começam a desvanecer-se após algumas semanas», lê-se no guia.

Os adultos também sofrem. O choque e a negação são respostas imediatas, os sentimentos podem tornar-se intensos e imprevisíveis, pode haver dificuldades de concentração, de decidir, de dormir e até mesmo de comer. As más memórias podem estar sempre à espreita.

Partilhar emoções com outras vítimas ajuda. Perceber que as emoções intensas são uma resposta normal em situações com estas dimensões.

«Pode sentir-se mais irritável do que o habitual e ter mudanças de humor repentinas. Sentir-se particularmente ansioso, nervoso, assustado, angustiado ou muito triste». Podem surgir dores de cabeça ou náuseas.

Como ajudar? Partilhar emoções com outras vítimas ajuda. Perceber que as emoções intensas são uma resposta normal em situações com estas dimensões. Dar tempo para adaptar-se ao que se está passar e, se for o caso, para o luto pelas perdas emocionais e materiais. E, num plano mais prático: dormir bem, comer bem, fazer exercício, mesmo que sejam as últimas coisas que apeteçam fazer. Voltar à rotina também é importante.

É importante que familiares e cuidadores ajudem os idosos as regressar às suas rotinas e que permaneçam disponíveis para falar as vezes necessárias sobre o ocorrido.

E os idosos? E haverá tantos que, neste momento, tentam lidar com o que se passa. Podem sentir-se confusos e até desorientados, podem ter medo de serem obrigados a sair de casa. Apatia ou raiva são frequentes depois desta catástrofe. O regresso à normalidade pode levar mais tempo. «É importante que familiares e cuidadores ajudem os idosos as regressar às suas rotinas e que permaneçam disponíveis para falar as vezes necessárias sobre o ocorrido», aconselha o guia.

A comunidade pode também sentir-se afetada pelos incêndios. Há pormenores que ajudam como participar em manifestações comunitárias de dor e pesar, organizar apoio logístico para quem precisa, ser prestável, disponível para o que for preciso. «É importante cuidar de cada um. Quando uma pessoa cuida de si, está a cuidar também da comunidade».