OPINIÃO

Geopolítica da vida

Claro que não me iludia com política, pelo menos no sentido ideológico dela. Das bandas russas havia pouco a esperar. Iludia-me, queria iludir-me, era com o reatar duma relação profunda, civilizacional e cultural que parte de um pressuposto poderoso: a Rússia é Europa.

A semana passada terminou com um discurso de Angela Merkel, amargo e realista, anunciando o fim de um mundo: a partir de agora a Europa acaba no cabo da Roca. Ela não disse assim, mas sugeriu que uma placa tectónica – levando a Inglaterra e a América – desamarrou-se do cais europeu. Ela disse que estávamos órfãos do nosso amor anglo-ocidental. Machadada do brexit, ordinarice do Trump – e eis-nos isolados do nosso lado atlântico. Não sei o que vos aconteceu, mas comigo foi mesmo isso, senti-me de luto.

Daquele péssimo filme, Contágio, conhecem a boa cena com Matt Damon, a quem o médico anuncia a inesperada morte da mulher? «Está bem», responde ele. E prossegue: «Agora posso ir falar com ela?» Eu fiquei assim, entrei em fase de negação. Pensei, primeiro, no general De Gaulle que nos definia o tamanho, a nós, Europa: «Do Atlântico aos Urais.» E naquele «Atlântico» gaulliano eu sabia estar incluída a melhor invenção europeia, a América, que depois nos retribuiria com a melhor, não invenção mas afinação americana, a democracia. E para me recompor mais depressa, pensei no título de jornal inglês em dia de espesso nevoeiro sobre a Mancha: «Continente isolado!» Como sempre os caprichos da meteorologia, dizia-me eu, haveriam de reatar as ligações…

Mas a má notícia tinha o bater, forte e autêntico, da porta de um Mercedes, BMW ou Audi. Não podia continuar a iludir-me, a Sra. Merkel tinha razão. Voltei à frase de De Gaulle, porque ela tinha algo de tranquilizador. Para compensar a falha de um lado, agarrei-me ao oposto: valha-nos os Urais que não podem partir à deriva, as montanhas são mais estáveis do que os oceanos… Justamente, depois do fim agoirento da semana passada, o começo desta semana teve um anúncio prometedor: o russo Vladimir Putin visitava a França. Da Rússia, do Leste, veio o que compensar a perda do Ocidente. A natureza humana tem horror ao vazio, voltava eu a dizer-me. Perde-se daqui, ganha-se dali.

Claro que não me iludia com política, pelo menos no sentido ideológico dela. Das bandas russas havia pouco a esperar. Iludia-me, queria iludir-me, era com o reatar duma relação profunda, civilizacional e cultural que parte de um pressuposto poderoso: a Rússia é Europa. Aliás, a razão da visita de Putin a Paris vivia de uma efeméride: há exatos três séculos o czar Pedro, o Grande, em 1717, chegou em abril e passou maio e junho em França. Vinha tirar um curso intensivo de europeísmo. O imperador russo foi espreitar a ciência ao Observatório, admirar a arte à Grande Galeria do Louvre, foi industriar-se às fábricas de Gobelins… Estas faziam e tingiam sedas e tapetes nas margens do Bièvre, um ribeiro, hoje está tapado, que corria pelo que viriam a ser boulevards parisienses (Saint-Marcel…), ruas míticas (Mouffetard…), antes de ladear o Jardim das Plantas e desembocar no Sena.

As relações dos povos podem ser como o Bièvre, ter momentos iluminados de tapeçaria de Gobelins – como o encontro, esta semana, do presidente Emmanuel Macron recebendo Putin em Versalhes. Nesse palácio onde Pedro, o Grande, pegou ao colo (sabe-se por uma tapeçaria) no futuro Luís XV. Ao mesmo tempo, o czar tirava as medidas à suntuosidade do edifício e à harmonia dos jardins para os reproduzir em São Petersburgo.

E os povos podem ter também momentos obscuros como a velha duquesa russa, talvez falsa, que vivia eternamente num café, com uma estola de raposa fanada ao pescoço e taças de rouge que o garçon ia enchendo ao longo das tardes. Eu vivia numa casa fronteira, na rua Corvisart – vizinho das antigas fábricas Gobelins e das margens do Bièvre escondido que eu desconhecia – e sempre que podia entrava, pedia um café e observava discretamente a duquesa que fingia esconder a sua aristocracia, tal como John, o Chauffeur Russo, passou uma vida a conseguir fazê-lo. Desses tempos a hoje passou o mesmo meio século que os distanciava da Revolução Russa que os fez fugir.

Faço-me medida de todas as coisas, cinjo-me a um momento e a um lugar, o virar de 1960 para 70 e Paris, e recordo-me dos franco-russos produzidos por esses claros e escuros do destino europeu da Rússia. A coragem de Joseph Kessel (o das palavras do Chant dês Partisans), a poesia lenta de Jacques Tati, a beleza de Marina Vlady, o hino ao homem (e às velhas gordas judias) de Romain Gary, o amor de Elsa Triolet inspirando Aragon, as canções de Jean Ferrat… Tanto húmus para alimentar o futuro com o Leste, e aguentar o parênteses que o Oeste nos faz.