OPINIÃO

Exclusivo: Rui Unas ainda acredita no Pai Natal. E entrevistou-o.

Como consegue estar em vários locais ao mesmo tempo? Trabalha a recibos verdes? O que faz depois de distribuir os presentes? O Pai Natal conseguiu arranjar tempo na agenda apertada para passar pelo estúdio do humorista Rui Unas. E respondeu a estas e a outras perguntas difíceis.

Texto Rui Unas | Fotografias Jorge Simão

Pai Natal, antes de mais, muito obrigado por teres aceitado o convite para esta entrevista, numa altura em que, como se sabe, já estás muito atarefado. Era precisamente por aí que gostava de começar: preparas o Natal o ano todo, embora com mais intensidade nesta altura, ou é um trabalho sazonal como são quase todos os empregos no Algarve?
De nada, é um prazer estar aqui contigo! Ora, há muita gente que acha que trabalho o ano todo, essencialmente, para avaliar se as pessoas se portaram bem ou mal. É falso. Eu funciono exatamente como o mundo funciona. Ou seja, quanto mais dinheiro e poder alguém tem, menos prendas precisa, mas mais recebe. Sei que isto pode parecer frio, mas tenho sempre os acionistas à perna e tenho de apresentar resultados.

Realmente, isso é uma realidade sobre o Pai Natal que a grande maioria das pessoas desconhece e até tira um bocado da magia da época, para ser franco. Aliás, eu desconhecia que o Pai Natal tinha acionistas, até pensei que estivesses a recibos verdes.
E estou, calma. O Natal é que tem acionistas. Como qualquer outra celebração capitalista que se apropria de motivações religiosas ou sociais, tem acionistas e tem objetivos financeiros. Quanto à minha situação, enquanto freelancer ou trabalhador independente – se preferires –, para Portugal tenho de passar recibos verdes, e aí posso dizer-te que o espírito de Natal está bem vivo. Com o que recebo para distribuir todas as prendas, depois de pagar IRS, Segurança Social e combustível para as renas (feno, entenda-se), o que me sobra é quase uma esmola.

«Temos duendes nas fábricas de brinquedos que trabalham cada vez mais horas e produzem cada vez mais (almoçam uma sandes no posto de trabalho para não perderem tempo) e depois é preciso escoar todo esse produto.»

Entendo, não é nada fácil ser trabalhador independente em Portugal. Mas falando então de coisas mais práticas: se são os duendes que fazem os brinquedos, como é que os hipermercados estão cheios deles e a televisão está sempre a anunciá-los?
Obviamente, tem havido uma integração dos serviços. Claro que são os duendes que continuam a fazer os brinquedos e há alguns que até trabalham nos hipermercados como inspetores do brinquedo e que andam a verificar se os brinquedos estão bem arrumados, se são bem embrulhados e todos esses pormenores. Por outro lado, temos duendes nas fábricas de brinquedos que trabalham cada vez mais horas e produzem cada vez mais (almoçam uma sandes no posto de trabalho para não perderem tempo) e depois é preciso escoar todo esse produto.

A entrevista teve lugar no estúdio do Maluco Beleza, o programa online em que Unas já entrevistou dezenas de convidados.

Como é que conseguem isso?
Criando anúncios que fazem que as pessoas acreditem que precisam mesmo de mais roupa, de telemóveis novos ou televisores maiores. E é tão fácil de as fazer acreditar nisso! Ah! ah! ah!

A sociedade está exageradamente consumista, é um facto. Mas também continua a haver coisas boas no Natal, não?
Claro que sim. A solidariedade social, por exemplo. Já reparaste na quantidade de empresas que têm ações deste tipo nesta altura? Mesmo que no caso de algumas seja só para parecer bem, há muitas que querem – e conseguem – realmente ajudar. E isto é ainda mais válido para as pessoas enquanto cidadãs individuais. Há sempre os palermas do costumem que dizem «eh pá, pois, as pessoas só se lembram de ajudar no Natal». E eu pergunto: além das pessoas que já ajudam outras o ano inteiro, se no Natal houver mais uma data de gente que também ajuda, isto não é muito melhor do que nunca ajudarem? Mas, enfim, quem se queixa disto também é gente que depois nem a reciclagem faz.

«Posso confessar-te aqui, em primeira mão, que a rede social que mais uso é o Tinder. Desde que me divorciei da Mãe Natal.»

Os reacionários de sofá, lá está. Por falar nisso, tu não tens redes sociais, pois não? Como é que é a tua relação com este novo paradigma das relações e comunicações sociais?
Olha, não sou nada contra, acho até que têm imensas utilidades que fazem todo o sentido nos dias que correm. Simplesmente, não perco muito tempo com elas. Posso confessar-te aqui, em primeira mão, que aquela que mais uso é o Tinder. Desde que me divorciei da Mãe Natal – acabámos a bem, somos grandes amigos, simplesmente o amor acabou – que fiquei fã da aplicação. Há um grande estigma com o Tinder, mas a verdade é que é uma forma ótima de conhecer pessoas de uma forma rápida, visto que não tenho assim tanto tempo livre. Claro que quando estou a distribuir prendas conheço milhões de pessoas, mas não gosto de misturar prazer com trabalho. De resto, tenho pena que tanta gente use as redes sociais como veículo de ódio e andem para lá só a insultar tudo e todos, esbanjando as frustrações das suas vidas miseráveis.

E com toda essa azáfama de trabalho, como é que consegues estar no NorteShopping, no Fórum Almada e na Lapónia ao mesmo tempo?
Já estava à espera dessa pergunta… É provavelmente uma das grandes questões da humanidade. De que tamanho é o universo? O que acontece quando morremos? Como é que o Pai Natal consegue estar em todo o lado na noite de 24 para 25 de dezembro? Eu entendo, não é algo óbvio. Mas a verdade é que também não te posso responder a isso. Se o meu emprego já é precário, imagina se revelo o meu maior talento e que me define como o serviço de entregas mais eficiente da história da humanidade. Não pode ser. Esta vais ter de me desculpar, Unas, mas não posso mesmo revelar.

«É normal pormos em causa as nossas crenças, sejam elas o cristianismo, o islamismo, o capitalismo, o comunismo, o clubismo e, claro, o pai-natalismo, se assim o quisermos chamar.»

Percebo perfeitamente, e respeito. Então diz-me lá outra coisa – e atenção que também pode ser uma questão que te deixa de certa forma melindrado, mas que gostava de fazer à mesma. Não te incomoda que a pergunta «Ainda acreditas no Pai Natal?» seja como que um teste à ingenuidade de alguém?
Honestamente, não. É saudável que questionemos as coisas e que não as aceitemos como dogmas logo à partida. É normal pormos em causa as nossas crenças, sejam elas o cristianismo, o islamismo, o capitalismo, o comunismo, o clubismo e, claro, o pai-natalismo, se assim o quisermos chamar. Depois há quem acredite e quem não acredite, faz parte e vivo bem com isso, como toda a gente devia lidar com as crenças uns dos outros. Além disso, o meu ego não se alimenta de as pessoas acreditarem em mim ou não, o que me traz regozijo é ver as pessoas realmente felizes umas com as outras. Que as prendas que recebem façam que se relacionem mais, que falem mais, que se abracem mais… Ah! ah! ah! Desculpa, já estou a resvalar para o sentimental!

Ó Pai Natal, mas estamos aqui também para isso. Aliás, o teu trabalho tem uma componente emocional fortíssima e é até o que lhe dá verdadeiro sentido. Sente-te à vontade para te abrires emocionalmente comigo. Quem também tem tido uma parte importante do seu trabalho como algo emocional é o nosso Presidente Marcelo. O que lhe vais dar, já sabes? Um selfie stick será demasiado óbvio?
O próprio Marcelo já é, em si, um selfie stick, com a quantidade de fotos que tira com as pessoas.

«Gosto sempre de tirar umas semanas depois do Natal para ir surfar para a Indonésia ou beber umas caipirinhas no Rio. Farto de neve e frio já estou eu.»

Eu próprio gostava de lhe dar um abraço. Tenho de ver se o convido para o Maluco Beleza. E quando passar este Natal, o que vais fazer?
Olha, primeiro que tudo vou de férias. Gosto sempre de tirar umas semanas para ir surfar para a Indonésia ou beber umas caipirinhas no Rio. Farto de neve e frio já estou eu. Depois tenho aí uns projetos que gostava de pôr em prática…

É? Que projetos? Podemos saber?
Ainda é secreto, mas tem a ver com uma quinta de produtos biológicos… algo como «a quinta do Pai Natal, supersaudáveeeeeeel»! E vou ter influenciadores digitais e tudo. E vou oferecer dez por cento de desconto a quem usar os códigos dos meus embaixadores. Tipo FRUTUNAS para comprar produtos.

Eh pá, ó Pai Natal, agora fui apanhado de surpresa. Logo falamos melhor sobre isso. Para terminar, queres deixar alguma mensagem aos portugueses para este Natal e para 2018?
Claro que sim. Obviamente, que tenham um Natal muito feliz, mesmo junto daqueles primos que não gostam nada! Um grande 2018 para todos os portugueses e boa sorte para que ganhem o Mundial e o Festival Eurovisão outra vez!

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