OPINIÃO

Difícil

Os que chegam lá – aqueles para quem parece fácil – aprenderam a desejar o difícil. Sabem que o difícil é mesmo difícil, transtorna a vida, põe em causa, parece que os vai destruir. É avançando sobre esse difícil que alcançam a superação e os verdadeiros frutos.

É errado dizer: para ele é fácil. É errado dizer: a mim custa-me muito, mas, para ele, é fácil. Para ele ou para ela, claro.

Fácil é ignorar o esforço dos outros. São sobretudo eles que o sentem. Podemos soprar bolas de sabão, saltar à corda ou bocejar mesmo ao lado de alguém com os músculos doridos e com a cabeça pesada.

Se é difícil, nunca é fácil. Enquanto ele esteve a repetir gestos, a errar e a tentar de novo, a errar e a tentar de novo, vezes e vezes, nós estávamos no sofá a ver um filme de domingo na televisão, a dormir as nossas nove horas diárias, a jogar PlayStation, a comer a sobremesa.

Nós convencemo-nos de que é assim, essas são as condições mínimas que declarámos, essa é a nossa lei, os nossos direitos humanos, acreditamos que não vale a pena uma vida sem domingos no sofá, sem nove horas diárias de sono, sem PlayStation, sem sobremesa.

Menos do que isso é escravatura. Depois, para nos justificarmos, para salvar o ego, convencemo-nos de que é fácil para os outros. Para ele, com nome e rosto, é fácil. Tem muita sorte, tem tudo facilitado.

Eis a verdade: as vocações são uma gota. O que distingue é a força, o trabalho e a direção. Sim, é fácil enumerar estes três pontos. Difícil é conseguir reconhecê-los entre todo o lixo, difícil é conseguir desenvolvê-los entre todas as resistências. Mas os que chegam lá – aqueles para quem parece fácil – aprenderam a desejar o difícil. Sabem que o difícil é mesmo difícil, transtorna a vida, põe em causa, parece que os vai destruir. É avançando sobre esse difícil que alcançam a superação e os verdadeiros frutos. Se é difícil para nós, também é difícil para ele/ela.

Passei algum tempo a pensar se haveria exceções. Se haveria casos em que realmente seria mais fácil para os outros do que para nós. Não há. Essa ideia é sempre uma desculpa. Se é difícil para nós, também é difícil para ele/ela.

Fácil é ignorar o esforço dos outros, repito. Fácil é ficar no sofá a ver filmes de domingo na televisão, fácil é dormir nove horas diárias, fácil é jogar PlayStation, fácil é comer a sobremesa.