OPINIÃO

C’est la vie

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Há um vídeo no YouTube, talvez Paris, certamente depois de 1958, por aquilo que ele vai cantar, em que Chuck Berry abre com Maybellene. Segundo a revista Rolling Stone, o rock & roll com guitarra elétrica começou com esta canção. Não vamos desfazer uma das grandes controvérsias da história, mas olhem para a assistência. Estamos num estúdio televisivo e, sabiamente sentados nas cadeiras, jovens brancos, eles de gravata e elas de gola casta, aplaudem a entrada. Chuck Berry, mulato com bigode fino como deve ser, com a carapinha alisada como eram, e ele não sabia, os cabo-verdianos da década de 1950, ataca o monumento. Os jovens continuam sensatos, sem se mexer e no fim só o fazem com palmas discretas.

Depois, Chuck Berry anuncia Roll Over Beethoven (1956). E canta. Reparem: os jovens já sabem que não estão num concerto clássico. Elas, sobretudo, mexem os ombros e meneiam-se até ao assento da cadeira. Chuck Berry já sabia que sem Beethoven ele não era nada; e nós ficámos a saber que nos desconjuntávamos até um mundo novo. Depois, ele canta Johnny B. Goode (1958). Olhem: as cadeiras ficaram a saber que não são precisas para nada. Em 1977, a sonda Voyager I partiu para Saturno ou talvez mais. Levava consigo, para saberem quem éramos, uma foto da Muralha da China, gravações de 55 línguas, incluindo o português, e música: de Mozart, do tal Beethoven e Johnny B. Goode. Foi a primeira vez que Chuck Berry partiu para o espaço, a segunda foi na semana passada, aos 90 anos.

Por cá, ele andou sempre terra-a-terra. Oiçam a letra de No Particular Place to Go. Ele conta, vai no seu carro, com a garota ao lado, rouba um beijo e dá-se conta de que não há nenhum lugar especial para ir. Sim, há a Muralha da China a erguer e o À La Recherche du Temps Perdu para escrever mas, damo-nos conta (sim, já entrámos pela canção dentro), em 2:30 segundos, que podíamos ter a maravilha de não ter nenhum lugar especial para ir – o banco de trás do velho Chevy vermelho 53 era o mundo a descobrir. O quotidiano era arte do povo jovem.

Na verdade, o Chevy vermelho não entra aqui, mas noutra canção, You Never Can Tell. Ainda mais verdade, quando eu soube de Chuck Berry, pelos discos de 45 rotações de um primo adolescente que importava coisas desnecessárias de Singapura para ter dinheiro para mandar vir a América até Luanda, eu, garoto, desconhecia o que queriam dizer aquelas palavras. Andava a ensopar-me dos sons daquela guitarra elétrica, que eu nunca tocaria (eu é mais batidas no tampo da mesa), mas outros (John Lennon, Keith Richards, Bruce Springsteen…) bebiam dela com a infelicidade de que nunca chegariam aos calcanhares.

Um dia (onde já ia a Voyager I…), estava a ver um filme e fiquei viciado. Viciado. Nunca mais cruzei essa cena sem parar o telecomando ou parar eu próprio. Já me aconteceu numa rua de Cleveland (não sem razão a sede do museu do Rock & Roll Hall of Fame), cidade sobre os Grandes Lagos e era inverno, enregelar à frente duma montra porque os televisores passavam o filme Pulp Fiction. Uma Thurman pediu um batido, John Travolta surpreendeu-se com o preço, estavam dentro dum espada americano e o carro estava dentro dum bar, no palco a Marilyn esperava com um troféu. Eles saltaram para o palco, ela tirou as sabrinas sem se baixar e arregaçou as mangas, ele inclinou-se para tirar os sapatos e eu enregelava. Fascinado como sempre. No momento em que monsieur and madame se puseram a dançar, a música invadiu-me. Como sempre. E, no entanto, a montra separava-me das cordas e da voz de Chuck Berry. Na rua fria, solitária e silenciosa, fui tão feliz.

Ridículo? Também acho, mas não me custa admiti-lo. Sabem, no YouTube há um vídeo de John Lennon, já Lennon, tão deslumbrado por Chuck Berry lhe fazer o favor de partilhar o microfone. C’est la vie dos agradecidos.

[Publicado originalmente na edição de 26 de março de 2017]