O metro que perdeu Carolina

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A mulher olha para o mostrador e suspira, faltam 12 minutos para chegar o próximo metro. Passeia o carrinho de bebé pelo cais, para trás e para a frente, só que entretanto acumulou-se uma multidão tal na plataforma que já não há espaço para embalar a infância. A criança chora incessantemente. É uma menina. Carolina. Sete meses. Linda. «Fome não tem, é do calor, está maçada», explica-me, quase a pedir desculpa pelo incómodo. Minutos depois a mulher inquieta-se, porque chegou um comboio da linha azul que descarregou mais umas centenas de passageiros para quem quer seguir pela verde. «Como é que eu vou conseguir entrar», pergunta-me, pergunta-se. Quando falta um minuto toda a gente se levanta e três carruagens irrompem pela estação. Vêm do Cais Sodré – o que significa que só fizeram uma paragem – e estão a abarrotar de gente. As pessoas agora empurram-se, tentam entrar a todo o custo, um aperto inexplicável no pico do verão, em hora que nem sequer é de ponta. Tento abrir espaço para o carrinho de bebé, mas aqui não cabe nem uma cana de pesca. No dia 7 de agosto de 2016, pelas quatro da tarde, o metropolitano partiu da estação de Baixa-Chiado deixando em terra uma mãe ansiosa, uma bebé chorosa, este jornalista e umas boas dezenas de pessoas. O mostrador indicava o tempo de espera para o próximo transporte: 15 minutos.

Esta é a nova normalidade do metropolitano de Lisboa. Todos os dias a tragédia de alguém não conseguir entrar na carruagem, porque a carruagem está simplesmente cheia. Todos os dias os tempos de espera alargados, os atrasos e os pedidos de desculpa pelos atrasos, que põem em causa a própria filosofia de um metropolitano: transporte rápido e urbano. Todos os dias filas imensas para carregar os bilhetes, porque as máquinas não têm troco, ou estão avariadas, ou são insuficientes. Todos os dias um carrinho de bebé que não consegue entrar, um velhote que afinal fica em casa, alguém que chega tarde ao trabalho, ou chega tarde a uma oportunidade, ou perde o amor da sua vida por 12 minutos. Esta é a nova normalidade lisboeta, a de sabermos agora que é mais difícil estar no lugar certo à hora certa, que uma rede de transportes civilizada foi um sonho passageiro.

Eu, que cresci em Sintra e vi uma linha de comboio tornar-se eficiente – eliminaram-se passagens de peões e de nível, construíram-se estações operacionais e seguras, modernizaram-se carruagens e horários para pôr termo às viagens em que seres humanos eram transportados como sardinhas em lata – não me consolo com o que tem acontecido ao metro nos últimos anos. Porque, no início deste século, quando uma rapariga polaca que eu tinha conhecido no Interrail veio visitar-me a Lisboa, nós passámos uma tarde inteira a conhecer as estações de metro mais belas que havia, o Parque e Picoas e o Oriente e o Martim Moniz. Porque, até há meia dúzia de anos, os lisboetas tinham um orgulho tremendo no seu metropolitano, que era bonito, rápido e funcional. E o que me irrita nisto tudo, o que me enfurece, é que uma bebé de sete meses chamada Carolina possa crescer sem perceber que o metro pode ser um espaço digno de humanidade. Que pode, até, ser uma das mais arrebatadoras memórias de verão que guardamos.