Como Inês domou a fera

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Na sala C do serviço de otorrinolaringologia do Hospital de São José, em Lisboa, estava na semana passada internado um nonagenário com uma crise respiratória e outra de mau feitio. O senhor J., chamemos-lhe assim, tinha chegado aflito com falta de ar de um lar de terceira idade no Alentejo e tivera de receber oxigénio durante horas, até o corpo finalmente estabilizar. Passava a maior parte do dia a dormir, mas de vez em quando acordava, arrancava os tubos e a máscara, e recusava-se a ingerir o que quer que fosse. Gritava sempre que os enfermeiros se aproximavam da cama – e às tantas tiveram de lhe amarrar os braços para que não fizesse mal a si mesmo. Do alto dos seus 94 anos, o senhor J. revelava-se uma fera.

Foi a enfermeira Inês quem o acalmou. Vinte e poucos anos, acabadinha de sair da escola de enfermagem, ainda em período de integração nos serviços. Vinha de mansinho com a comida e dizia-lhe para ter calma, que estava tudo bem, que gostava muito do Alentejo dele. Ao início, a fera protestou. Entregou um soco à rapariga, sentiu-lhe o decote, gritou em protesto. E ela a insistir no tom pausado, que não lhe servia de nada aquele alvoroço, que estava ali para ser tratado, e toda a gente queria o melhor para ele. Os dias foram passando e a tempestade do senhor J. começou a amainar. Agora já deixava as enfermeiras alimentarem-no e darem-lhe banho, tiraram-lhe as amarras dos braços, se aparecesse Inês o velhote desfazia-se em sorrisos.

No serviço de otorrinolaringologia de São José há 28 camas que recebem pacientes de várias especialidades, porque muitas vezes é preciso internar ali alguém com um maxilar partido ou um corte profundo no braço. A rotatividade das camas não obedece a ordem nenhuma – há gente que fica uma noite, há gente que permanece meses – mas os enfermeiros são sempre os mesmos e fazem um trabalho notável. À noite, por vezes, não há mais de dois cuidadores de serviço, e são eles que têm de distribuir antibióticos e analgésicos, controlar horários e batimentos cardíacos. A enfermeira Conceição, por exemplo, não tem medo de admitir que precisava de mais braços a ajudá-la, mas depois para e reflete que os doentes não têm culpa, e que é preciso tratar as pessoas pelo nome e conversar com elas. No serviço de otorrinolaringologia do Hospital de São José foi estabelecida uma regra entre enfermeiros: tratar as pessoas como tal. E então ali domam-se feras.

O secretário de Estado da Saúde, Fernando Araújo, deu ontem uma entrevista à TSF em que se afirmou preocupado com o crescente número de doentes que trocam os hospitais privados pelos públicos a meio dos tratamentos, porque esgotam os plafonds dos seus seguros de saúde. Na semana passada, um estudo da Ordem dos Médicos apontava para uma redução brutal de recursos no Serviço Nacional de Saúde, mas nem por isso uma diminuição da qualidade dos serviços. Ou seja, intensificou-se o trabalho e diminuíram-se salários, mas os cuidadores continuam a ser cuidadores eficientes. Há vários anos que os hospitais públicos – e os seus funcionários e os seus utilizadores – parecem estar sob ataque. A ventania da austeridade soprou aqui particularmente forte.

Hoje, existe o centro de saúde e existe o grande hospital, mas nenhuma estrutura intermédia que resolva as emergências menos urgentes. A nossa ideia de um SNS congestionado não é um acaso, é uma opção política. Quando se cria incómodo e atraso, é normal que os cidadãos prefiram fazer seguros e optar pelos privados. E depois acontece esta contingência, em que um paciente se torna demasiado caro para os operadores privados e é dispensado. Então vai para o público, congestionar o que já está congestionado. Ainda assim, tem sérias probabilidades de ser bem tratado. Até pode ser uma fera, que há de ter uma enfermeira Inês a domar-lhe os ímpetos. Não são definitivamente os hospitais públicos que estão a viver acima das suas possibilidades.