OPINIÃO

Terceira: a ilha americana

São muitas as vidas marcadas pela Base das Lajes.

Sete décadas de presença militar na Terceira, nos Açores. A ilha americanizou-se: importou os dizeres, as roupas, os hambúrgueres e os chocolates, a música e o desporto. Anunciada que está a reduçãodo contingente da Base das Lajes, os americanos também não vão embora de mãos a abanar – garantem que gostam da vida de ilhéu, do mar e da hospitalidade. Uma relação que deixou marcas.

Há 64 anos que é assim: todos os dias, de manhã, José Tristão deixa a pequena freguesia rural de Santa Bárbara, em Angra do Heroísmo, e vai à América trabalhar. Até lá são 33 quilóme­tros, mais ou menos meia hora de caminho se o nevoei­ro pesado que às vezes se derrama sobre a ilha o permitir. Depois, há de instalar-se no seu escritório com vista para a pista de aviões, na loja que decidiu abrir para facilitar a vida aos americanos. Há de contar as máquinas que aterram e aquelas que levantam voo, há de cruzar-se com os amigos que foi amealhando, há de falar inglês, almoçar no Oceanview Island Grill e, bem mais tarde, regressar a casa. Todos os dias, José Tristão vai trabalhar para a base militar americana das Lajes. E ali é, de facto, outro país.

Não conheceu outra vida, José. Deve o privilégio – como lhe cha­ma – ao padrinho, um padre da Praia da Vitória que lhe aldrabou a idade nos documentos de acesso à ASNER, empresa que construiu os edifícios militares e moradias daqueles que vieram estacionar-se na base e assim pôde juntar-se aos três mil trabalhadores. De facto, o destino podia ter sido outro: na Terceira, ilha de lavradores e de gente do mar, a maioria dos rapazes novos ficavam-se pelas la­vouras dos pais ou pelos barcos que prometiam uma vida dura mas remediada. José Tristão não. Trabalhou para os americanos, endi­reitou a gravata desarrumada de George Bush, o primeiro, e até re­cebeu um convite para visitar a Casa Branca.

O episódio com o então presidente dos Estados Unidos da Amé­rica é um de muitos que o funcionário mais antigo da Base das Lajes, agora proprietário de uma loja de comunicações no inte­rior da infraestutrura militar, guarda na memória. A história que descreve com mais graça e orgulho: George Bush, pai, de passa­gem pela ilha, preparava-se para ser entrevistado e coube a José Tristão, que na altura trabalhava na televisão interna da BA4, as­sumir os comandos da câmara. Não era, pois, um dia normal e o acontecimento veio a tornar-se ainda mais extraordinário quan­do o operador de imagem reparou na gravata torta do presidente. «Fui ao pé dele, pedi desculpa, perguntei-lhe se podia endireitar-lhe a gravata e ele disse que sim. E lá continuámos. No fim agra­deceu-me, disse que tinha sido o único que o tinha posto bem na fotografia», ri-se. A verdade é que o gesto deu frutos: um ano de­pois, Bush voltou à Terceira, reconheceu Tristão e ofereceu-lhe um cartão de acesso à Casa Branca. O passe de visitante foi utili­zado dois anos mais tarde.

A Base das Lajes – conhecida nos meios oficiais como BA4 – é, pa­ra José Tristão, o palco das suas melhores peripécias, mas não só. Os americanos deram-lhe trabalho e salários que chegaram para colecionar alguns carros e para acrescentar quartos à casa quan­do lhe nasceram a filha e os netos. Não foi o único a aproveitar es­sas oportunidades de emprego e, assim, viver melhor também. Ao longo de setenta anos de presença dos Estados Unidos na Base das Lajes, foram milhares os portugueses que se empregaram na es­trutura militar.

Primeiro, foi preciso construí-la, depois foi preciso assegurar o funcionamento dos serviços no seu interior e criar, no exterior, va­lências capazes de servir uma população que aumentou exponen­cialmente com a vinda da força aérea, da marinha e das famílias de todos. Abriram-se restaurantes, supermercados, creches… As mu­lheres da terra cuidaram-lhes dos filhos e limparam-lhes as casas. Os homens trataram-lhes dos jardins ou arranjaram o que fazer no setor da construção civil, nas centrais internas de produção de ele­tricidade, nos tanques de combustível.

Criada em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, para alber­gar a Royal Air Force inglesa, só em 1945 a base foi ocupada pelas for­ças dos Estados Unidos da América. Os americanos, no entanto, vie­ram para ficar e instalaram-se com comodidade: trouxeram os seus hambúrgueres e coca-cola, a sua televisão e a sua música, os seus des­portos e o seu dinheiro. Desenvolveram, enfim, dentro das redes que separam a base do resto da ilha, uma pequena cidade monocromá­tica, onde o castanho dos edifícios só contrasta com o verde da serra onde está implantada. As novidades, no entanto, extrapolaram esses limites e as freguesias que circundam a infraestrutura militar tam­bém cresceram, enriqueceram, viram chegar as inovações e alegra­ram-se com elas. O golfe foi uma dessas boas-novas.

GOLFE E CHICHARROS COM ‘CORN BREAD’
Agnelo Ourique, bombeiro na Base das Lajes há 38 anos, pisa, desde miúdo, a relva impecável desse campo construído em 1954. É um lugar bonito, plantado entre os pastos da freguesia da Agual­va. Era aí, entre hortênsias e criptomérias, que os pequenos iam procurar as bolas que os militares deixavam escapar em taca­das mais longas. Depois vendiam-nas. Agnelo Ourique também andou à caça de bolas, mas sempre teve intenção de um dia fazer-se sócio do clube que um dia serviu.

Foi o golfe que lhe abriu as portas à Base das Lajes. Aos 9 anos saiu da escola e fez-se caddie. Como eram muitos (chegou a haver mais de 120), Agnelo Ourique via-se obrigado a chegar cedo, às 05h30 ou 06h00 da manhã, para inscrever o seu nome na lista. À medida que os golfistas iam chegando, os caddies iam saindo para lhes segui­rem os passos, consoante o lugar que ocupavam no papel. Chega­va a dar duas voltas ao campo – que tem cerca de sete quilómetros – e aos 9 anos já ganhava mais do que o pai, que era sapateiro. «Ha­via dias em que não se ganhava nada e às vezes ganhava-se um dó­lar, dois, e mesmo três, quatro, cinco… Lembro-me de que nessa al­tura o meu pai ganhava 25 escudos, portanto, eu ao ganhar um dó­lar ganhava mais do que ele», lembra. Mas o melhor mesmo foi ter aprendido a falar inglês na escola do campo de golfe – que abria só para os caddies – e com esse conhecimento ter conseguido ingres­sar na BA4. A maioria dos funcionários da Base das Lajes, aliás, pro­vém da Agualva, exatamente por essa razão. Outros aproveitaram a língua para emigrar e engrossar o número de açorianos que se fi­xaram no Canadá e nos Estados Unidos.

Na verdade, a história de Agnelo Ourique, do golfe e do em­prego na Base das Lajes perfaz um triângulo perfeito. É que foi o campo de golfe que lhe abriu as portas à BA4, mas também foi o trabalho na BA4 que fez que pudesse jogar golfe no campo que, enquanto caddie, lhe estava interdito – os caddies, recorda, só po­diam jogar às sextas-feiras de manhã e havia consequências se fossem apanhados a ensaiar um swing fora de horas. Mas o bom­beiro sonhava com isso. Sonhava, literalmente. Em 1989 concre­tizou o desejo.

No campo de golfe, que foi construído para que os americanos pudessem praticar, já não se veem tantos militares; hoje, a maio­ria dos golfistas tem nacionalidade portuguesa. Os Estados Uni­dos anunciaram só agora a retirada progressiva das forças da Ba­se das Lajes, mas os efeitos começam já a fazer-se sentir. Em agos­to, as famílias desses norte-americanos deixaram de vir para a Terceira. Nas ruas já não se veem os carros de matrícula inter­nacional; as mulheres que antes cuidavam das crianças deixa­ram de ter trabalho; os restaurantes começaram a receber me­nos clientes… A economia da ilha, construída quase em torno des­sa presença estrangeira, começou lentamente a desmoronar-se.

Arthur Nilsen, pastor na Azorean Baptist Church, teme as con­sequências da decisão do seu país, que vai, já este ano, concluir a redução da presença militar na BA4. Já adivinhava que algo se­melhante pudesse acontecer. Afinal, já no fim da Guerra Fria a marinha norte-americana abandonou este ancoradouro no meio do Atlântico e quando os Estados Unidos deixaram de enviar grandes vagas de militares para o Iraque e para o Afeganistão, o tráfego aéreo nos céus açorianos também diminuiu.

O pastor da igreja batista criada pelos norte-americanos es­tacionados na Base das Lajes nunca aprendeu a falar portu­guês. Não precisou. Às vezes tenta fazê-lo, mas o povo, que sa­be inglês, cansa-se do tempo que demora nas suas incursões linguísticas. É assim desde há quase dez anos, quando por sua iniciativa decidiu mudar-se com a família e estabelecer-se na Praia da Vitória. Já cá tinha estado, é verdade. Art Nilsen – co­mo é conhecido – é coronel da força aérea norte-americana, onde foi enfermeiro durante 26 anos, e esteve duas vezes em missão na BA4. Apaixonou-se pela simplicidade das coisas da ilha e teve a certeza: um dia haveria de viver aqui.

O americano, natural dos subúrbios de Nova Iorque, tra­balha hoje na igreja que frequentava quando estava destaca­do na BA4. A igreja, pequena, construída em 1978 no lugar de uma antiga fábrica de tabaco das Lajes, demarca-se pela ins­crição identitária, em inglês, na fachada. É difícil não dar por ela quando se percorre a via rápida que liga as duas cidades da ilha Terceira. São muito, muito poucas as famílias america­nas que hoje se sentam nos bancos da Azorean Baptist Church. Na verdade, para além da família do pastor há apenas mais uma a frequentar aquela igreja. Nos anos 1980, pelo contrário, podiam ver-se todos os domingos mais de cem pessoas nas ce­lebrações. Ainda assim, isto é, apesar da redução do número de militares da Base das Lajes, as celebrações continuam a acon­tecer em inglês, sendo traduzidas, em simultâneo, para que os portugueses consigam acompanhá-las. Também os dize­res nas paredes, dispostos em longas faixas vermelhas, estão escritos num inglês dourado. As tradições americanas, como o Thanksgiving, continuam a comemorar-se.

A diminuição do contingente militar na BA4 é um assunto que por estes dias tem feito as capas dos jornais dos Açores, mas entre a comunidade que frequenta a Azorean Baptist Church o problema ainda não foi discutido. Para Art Nilsen, o que aí vem é, ainda, uma incógnita. «Vou soar religioso e é intencional: vou confiar em Deus. Não sei o que o futuro reserva. Dos meus qua­tro filhos só um vive aqui – dois já acabaram a universidade e um ainda está a estudar nos Estados Unidos. Nós adoramos vi­ver aqui; adoro o tempo, adoro o facto de não ter de limpar neve, adoro o verão, adoro o mar… Há muita coisa para adorar e pen­so que esse sentimento é verdadeiro entre os outros americanos que vivem cá: eles gostam de morar na Terceira. Mas a decisão não é nossa. A decisão é do nosso governo», sublinha.

Quem sabe se a decisão não seria, de facto, outra, se estivesse nas mãos dos militares? É que os americanos foram, realmente, bem recebidos e os terceirenses que os acolheram gabam-se dis­so. Entretanto, dos quase setenta anos de relação próxima nasce­ram casamentos – muitas foram as açorianas que casaram com militares e deixaram a ilha para trás – e amizades próximas. Con­ceição Pires sentiu na pele essa ligação quando quiseram fechar-lhe o restaurante, O Galanta, situado noutra das freguesias pró­ximas da BA4, São Brás.

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O restaurante que Conceição Pires garante não ser um restau­rante – aqui não há menus, come-se o que a cozinheira puser na mesa – foi criado quase por acaso, numa altura em que era preci­so dar de comer aos construtores encarregues de fazer crescer a estrada que hoje liga Angra do Heroísmo à Praia da Vitória. As pessoas foram ficando, a casa foi ganhando nome e é, agora, um lugar incontornável. Em mais de vinte anos, os clientes, muitos deles americanos, foram-se deixando ficar.

Um dia a inspeção ordenou: ou O Galanta deixava de ter pa­redes em costaneira e balcões de madeira, ou fechava as portas. «Consegui manter tudo igual sem fazer nada. No dia em que nos mandaram uma cartinha a dizer que tínhamos de fechar estava cá um general da Base das Lajes a jantar. Nesse grupo vieram dois ou três que nunca tinham estado cá e ele disse-lhes que este era o “best lugar da Terceira”. E o Galanta ouviu e respondeu: “Prova­velmente é a última vez que cá vens” e explicou porquê. E assim foi; o general e o grupo foram embora. Dali a dias recebemos ou­tra carta da fiscalização a pedir a presença do Galanta. Disseram-lhe que tinham ido lá entregar um abaixo-assinado contra o fe­cho, com as assinaturas daqueles americanos todos que vinham aqui», lembra a proprietária. Na verdade, aquilo de que a inspeção não gostou mesmo foi das centenas e centenas de fotografias, car­tas, matrículas, porta-chaves, canetas, dólares americanos e um sem-fim de recordações que os amigos que passam pela pequena casa em São Brás vão deixando por toda a parte, coladas em cada cantinho do restaurante. Mas Conceição Pires é implacável. Afi­nal, que importa, se ninguém come nas paredes?

O Galanta – o nome do restaurante provém da alcunha do ma­rido da cozinheira – é, pois, um bom testemunho da ligação já his­tórica entre os terceirenses e os americanos. Há cartas de ami­zade escritas num inglês que Conceição Pires não sabe ler – nem falar –, há fotografias de oficiais e embaixadores, há as matrículas de vários estados norte-americanos. Ainda hoje recebe postais de boas-festas vindos daquelas paragens. Nada disso está conta­bilizado, mas o valor dessa coleção desordenada é incalculável.
Conceição Pires garante que os americanos gostam da gastronomia açoriana. Gostam tanto que até arranjaram nomes próprios e tradu­ções à medida das iguarias que mais pedem: a alcatra terceirense pas­sou a ser o «bife alcatra», os bolos de milho que acompanham os chi­charros fritos passaram a corn bread, e o peixe inteiro assado passou, simplesmente, a big fish. Era precisamente isso o que comiam os mi­litares que por aqui passavam depois dos jogos de golfe ali bem perti­nho, na Agualva. Ao Galanta, chamavam 19th hole.

LÁ DENTRO. CÁ FORA
Mas os americanos na Terceira não comem só o que comem os açorianos. Na Base das Lajes há vários snack-bars que ao fim de se­mana se enchem de portugueses que pagam o acesso à BA4. Esses passes dão jeito no Natal, com os perus Butterball e os chocolates Butterfinger, 3 Musketeers, Baby Ruth e Mr. Goodbar. As coisas americanas parecem ter, na ilha, outro cheiro e valor. É como as sapatilhas All Star e as calças de ganga Levi’s, que os terceirenses puderam comprar, ou pedir que lhes comprassem, muito antes de começarem a ser vendidas em Portugal.

Cá fora, nas freguesias circundantes, os espaços também se fo­ram adaptando aos gostos de quem se instalou na BA4. Veja-se, por exemplo, a Casa da Galinha, restaurante mítico na freguesia da Vila Nova: quem entra as portas vermelhas do edifício quadra­do, depressa se vê num diner da Route 66. Os proprietários nun­ca lhe mudaram as cadeiras, as mesas e as paredes castanhas, nem os quadros que parecem tirados de um episódio de Downton Abbey. Mas foi o sabor da galinha frita – o supremo prato do restaurante –, que melhor se manteve. A receita ninguém sabe; a ga­linha frita do Valadão é um segredo bem guardado, importado, com certeza, dos americanos.

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A ilha acomodou-se, enfim, ao modo de estar e de viver dos que vieram dos Estados Unidos. Essa marca chega, até, aos edifícios, mesmo aos que estão fora dos limites da BA4. No concelho da Praia da Vitória, as casas de traça tradicional coexistem com arquiteturas importadas. E os estilos misturam-se. Quem o diz é José Gabriel, an­tigo proprietário de uma empresa de construção civil. José Gabriel já não trabalha na BA4, onde esteve durante vinte anos, primeiro co­mo inspetor de obras, como o tank farm, e depois como construtor. Hoje tem um empreendimento de turismo, a Quinta do Galo, que é, também, destino de fim de semana para os americanos, sobretudo para aqueles que jogam paintball. Nas suas casas, garante, já adaptou algumas das características norte-americanas: os espaços abertos, nomeadamente entre a cozinha, a sala e o hall de entrada.

José Gabriel gostou do tempo da Base das Lajes. Aos militares, ga­ba-lhes a retidão. As obras, os prazos, os orçamentos, tudo é cumpri­do à risca dentro das redes da BA4. «A construção deles é muito dife­rente da nossa. É redigido um caderno de encargos, é posto a concur­so. Se houver alguma alteração em relação ao caderno de encargos eles responsabilizam-se e é alterado o valor do projeto. Por outro la­do, se passar um dia para além da data em que está estipulada a en­trega da obra, os construtores têm um valor para pagar. Admiro-me com as obras aqui fora por causa das derrapagens de valores… Com eles não é assim», sublinha.

Mas a diferença não está só na retidão dos norte-americanos. É fácil identificar as casas americanas – bem diferentes, ainda assim, das vivendas embonecadas dos emigrantes que regressam às ilhas nas férias de verão. «Nos Açores e na ilha Terceira temos um tipo de construção própria. São chamadas as casas rurais, com um quarti­nho para aqui, um quartinho acolá, o corredor, a despensa… As plan­tas são mais ou menos homogéneas. A construção deles é mais fun­cional, eles optam muito pelo open space: a sala, a cozinha, a dinning room, tudo isso está em conjunto. Gostam de estar comunicativos. É diferente. A parte de fora dos edifícios também é distinta. As estru­turas são mais quadradas, com janelas mais abertas – isso tem van­tagens na captação de luz solar, que aquece os edifícios e faz as casas mais secas», explica o agora empresário do setor turístico que, ao contrário de muitos, vê oportunidades na redução do contingen­te militar da BA4. Afinal, não há porta que se feche sem que se abra uma janela.

A PRAIA DOS ‘FREAKS’
Para Luís Gil Bettencourt, conhecido músico terceirense, a Base das Lajes representou, para a ilha, acima de tudo, uma revolução cultu­ral. A música que se fazia nesse tempo bebia dessas influências, al­gumas trazidas, também, pela televisão e pela rádio dos militares, a que os moradores do concelho da Praia da Vitória tinham acesso. Os Beatles, os Rolling Stones, o Bob Dylan, por exemplo, foram alguns dos artistas que começaram a ouvir-se primeiro nos Açores.

Os itinerários da noite tinham outro encanto. Na cidade, vivia-se um ambiente que não era de cá: os bares de rock, ao estilo america­no, proliferavam nos lugares mais recônditos, os encontros à laia de Woodstock – como o Festival da Praia da Riviera, o Musical Açores, que aconteceu pela primeira vez em 1976 – eram o sinal de uma liber­dade que ainda cheirava a fresco em Portugal. «A Praia tinha uma coisa que toda a gente queria: a novidade. A era do Woodstock, do peace and love, dos charros; a era em que a snifávamos cola america­na num saco de plástico… Nós é que éramos os freaks. Lembro-me de um dia ter desembarcado na Graciosa e de repente ouvir um bur­burinho. Quando pus o pé em terra alguém disse: “O que é aquilo?” A minha roupa, comprada na base, era tão iluminada que era impres­sionante: parecia que estava ligado a uma carga de nove volts», ri-se.

Depois do pai e da avó, também Luís Gil Bettencourt e os irmãos – nomeadamente Roberto Bettencourt e Nuno Bettencourt, o talen­toso músico dos Extreme – passaram pela base para animar as noi­tes aos militares. Às bandas davam jeito não só os cachês, mas sobre­tudo aquilo que aprendiam com músicos que vinham de fora. Nesse tempo, e ao abrigo do programa USO Shows, a ilha recebeu nomes grandes da música internacional. Frank Sinatra foi apenas um deles.

A presença militar na Base das Lajes deu acesso a discos que difi­cilmente teriam. «Quando chegava, no avião, a fitinha com as novi­dades, um amigo nosso fazia uma cópia e trazia cá para fora. Uma, duas semanas depois de o disco sair nos Estados Unidos, já estávamos a tocar os temas cá. Confesso que havia uma certa magia», diz Luís Gil Bettencourt, que mantém as influências musicais anglossaxónicas e as transmite à filha Maria Bettencourt, que já lançou um vídeo do pri­meiro álbum de originais, que ainda está a ser preparado.

Na Praia da Vitória os miúdos já não esperam que os aviões lhes tragam CD, mas há coisas que hão de demorar mais tempo a desa­parecer. As palavras: já ninguém tira ao vocabulário terceirense a «gama» – gum, pastilha elástica, a «suera» – de sweater, camisola, os «alvaroses» – de overall, jardineiras, e a «pana» – de pan, frigideira.  À Base das Lajes os terceirenses foram, portanto, buscar  a viragem e  também o conhecimento. É o caso de Antonieta Costa, investiga­dora na área da antropologia e da sociologia, e Paulo Feliciano, ope­rador de câmara atualmente em funções na BA4, que fizeram o en­sino superior na infraestrutura militar. Fizeram-no por não terem encontrado, no ensino português, a resposta que sempre souberam ser mais acertada. Candidataram-se, assim, à Universidade de Troy e do Maryland, respetivamente. Tratava-se de duas das academias que dispunham de um polo no interior da Base das Lajes. Também a Universidade do Texas e o City College of Chicago tinham repre­sentantes na BA4.  Os bacharelatos, as licenciaturas e os mestrados eram procurados sobretudo pelos norte-americanos e pelas suas famílias. Antonieta Costa foi uma das primeiras civis, sem ligação às Lajes, a quebrar essa premissa. Fê-lo quando foi recusado o seu ingresso na Universidade dos Açores. Nunca se arrependeu. «Foi o melhor que poderia ter feito», sublinha.

Paulo Feliciano partilha do mesmo sentimento. Nas universida­des americanas encontrou o tipo de aprendizagem que procurava. «O ensino português parecia que tinha como objetivo criar barreiras ao aluno. No ensino americano a primeira coisa que o professor fazia era dizer: estão aqui os meus contactos, é isto que vocês devem apren­der, é sobre isto que vai ser o exame, são estes os objetivos. O ensino es­tá virado para ajudar o aluno a atingir os objetivos.» Seguiu Informá­tica e fez um projeto que ele próprio desenvolveu: um canal local que dá conta de tudo aquilo que acontece no interior da BA4.

Sete décadas é muito tempo. Tempo que mudou a ilha Terceira. Os americanos estão em toda a parte, em todos os recantos e singula­ridades da vida de ilhéu. A BA4 significou segurança e estabilidade, porque se traduziu em trabalho e em acesso às novidades do mun­do. Depois de outubro, quando a América partir, a ilha vai ficar mais pobre. O número de desempregados vai disparar, o consumo vai reduzir-se. No entanto, nem tudo vai apagar-se já: serão precisos ou­tros setenta anos até que pereçam as histórias e as influências dessa ligação. Na verdade, ainda há quem não acredite que os america­nos vão virar as costas à ilha. É que a Base das Lajes, garantia José Tristão, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido à Terceira.

UM BAIRRO DE LATA ÀS PORTAS DA BASE

No cimo da serra de Santiago, separado da Base das Lajes por um muro de betão, há um bairro que já foi de casas de lata que foram crescendo coladas umas às outras e que albergavam famílias inteiras que vinham doutras ilhas em busca de trabalho, no engodo da base. A Terceira era, ao tempo, a terra prometida dos Açores. No entanto, para quem viveu no bairro, este sonho não chegou a cumprir-se. Em vez disso, Santiago ocupou um dos lugares mais pobres dos Açores. De Portugal continental, também.
O bairro que já foi de lata discute hoje o futuro sem os americanos. No café Medeiros, o tempo, que parece ser de desesperança, passa devagar. O bairro sempre foi de gente pobre, mas sem o pouco trabalho que ainda há por conta da BA4, a vida só pode piorar. Segundo contas da Câmara Municipal da Praia da Vitória, o desemprego no concelho deverá atingir, no final de outubro, quando a redução militar estiver completa, 25 por cento da população ativa. São menos dois mil empregos diretos e indiretos. Segundo António Rocha, padre da paróquia das Lajes que todos os domingos sobe à serra para dar missa, os casos de prostituição, roubo e consumo de drogas parecem não ter fim à vista.
Ali, junto aos americanos e aos complexos habitacionais construídos só para eles – e batizados com nomes como Pôr do Sol e Beira-Mar – a perspetiva da riqueza esteve sempre muito perto. Hélder Silva sonhou com ela e emigrou para os Estados Unidos. Nunca foi feliz e passou os dias a alimentar o desejo de um regresso, mesmo que o retorno implicasse, como implica, o desemprego. Está preocupado com o que vai acontecer depois que os americanos deixem a BA4, até porque tem família que trabalha na infraestrutura militar. Ainda assim, venha o que vier, ninguém sai da serra.

ANÁLISE/OPINIÃO DE JOÃO ARANDA E SILVA (Presidente do Instituto Açoriano de Estudos Europeus e Relações Internacionais)

Para a maioria da população da Praia da Vitória e, extensivamente, da ilha Terceira e dos Açores, é um flagelo a dispensa de meio milhar de trabalhadores portugueses ao serviço do destacamento norte-americano da base portuguesa das Lajes.
O (quase) fim da presença norte-americana na Base das Lajes, pelo menos na dimensão dos últimos sessenta anos, não é nada que não estivesse previsto e comunicado, pelo menos, desde o princípio deste século. As previsões norte-americanas, assentes em estudos prospetivos da política e das relações internacionais, bem como do avanço tecnológico nos meios aéreos de combate, faziam prever este desfecho.
Os norte-americanos foram avisando o país para essa realidade. Ninguém escutou. Desde 2002, pelo menos, que os avisos têm sido sucessivos. O país devia estar surdo e cego quando norte-americanos e espanhóis renegociaram, nesse mesmo ano, as condições para a utilização das bases de Rota e Morón. Portugal ressonou em todo este processo.
A ilha Terceira pode estar à beira de um colapso social se as medidas anunciadas – equacionadas à pressa, diga-se – não resultarem para dar trabalho àqueles trabalhadores. Muitos deles têm formação especializada, sublinham. A emigração é um dos possíveis caminhos para muitos.
Os EUA não se furtam a assumir as suas responsabilidades no âmbito do acordo estabelecido com Portugal em 1995. Alvo de críticas naquela altura, o acordo revela hoje, em todo o seu esplendor, as fragilidades que lhe ficaram pela incapacidade negocial da parte portuguesa.
Os primeiros a ser despedidos serão os trabalhadores mais novos e com contratos mais recentes. Percebe-se essa cláusula do acordo. Ficam mais barato aos cofres norte-americanos.
Os Açores têm, neste momento, uma elevada taxa de desemprego e não se prevê uma reanimação da economia ao ponto de absorver os que já estão sem trabalho e muito menos aquele meio milhar de trabalhadores.
Exige-se uma responsabilidade social aos EUA. Não têm. Quando muito pode ser moral por tratarem tão leviana e negligentemente quem os tratou como reis. Os EUA não assinaram nenhum tratado internacional com Portugal. O acordo é de governo uma vez que os norte-americanos não o ratificaram nem no Senado nem no Congresso.
Assim, o caso não é mais do que a relação entre um inquilino e um senhorio. O inquilino alega que cumpriu todas as partes do acordo. Os trabalhadores das Lajes vão dizendo que sentem ter servido, apenas, para contrapartidas, nomeadamente militares, que se desconhecem em toda a sua extensão.
A decisão norte-americana colocou a nu a inexistência, em Portugal, de uma política externa e de uma geopolítica/geoestratégia para o Atlântico.
Há quem considere que Portugal sempre teve uma diplomacia pobre e mal informada, ainda que tenha tido nos seus quadros alguns diplomatas que podem rotular-se de brilhantes.
Os EUA já não olham para Portugal da mesma maneira. Portugal era «o» aliado mas hoje é apenas (mais) «um» aliado.
Os EUA, mais do que o interesse primordial nas Lajes, têm agora interesse maior no Atlântico. As «ameaças» chinesas têm peso. A diplomacia norte-americana já sabe, quase de certeza, o que os chineses pretendem do Atlântico. E vão agir em conformidade com os seus interesses. As Lajes para os norte-americanos passam a ser um local de recurso para ações imprevistas. O Atlântico com os seus recursos minerais e energéticos é muito mais importante do que a Base das Lajes.
Portugal é dono, no dizer do Prof. Adriano Moreira, de um triângulo estratégico – continente português, Açores e Madeira – que lhe confere um «poder funcional».
A geografia, de acordo com Vitorino Nemésio, a propósito dos Açores, «vale para nós outro tanto como a história». E para agirmos, de acordo com os nossos interesses, talvez convenha lembrar Napoleão Bonaparte: «A diplomacia exerce-se de acordo com a geografia do país.» Portugal consegue juntar uma geografia esplêndida e um mar imenso. Porque somos, então, pobres e sem política externa?

Oriana Barcelos
Fotografia: António Araújo, na Terceira