OPINIÃO

Patrícia, a protetora

Patrícia Flores chegou a ter em casa, em acolhimento temporário, 12 cães ao mesmo tempo.

Uma vez, resgatou uma ninhada de nove cachorros que alimentou a biberão dia e noite, de hora a hora. Já salvou mais de cinquenta animais e hoje gere a única associação de proteção de bichos no concelho alentejano de Arronches.

Desde que se lembra que gosta de animais, mas o dia em que Patrícia Flores recolheu a Jameson, uma cadela que trazia na bagagem profundos traumas de abandono e maus-tratos, foi marcante. «A nossa relação assentou numa troca mútua de afeto e de dedicação. Com tempo e paciência, aprendi que é muito pouco o que os animais pedem em troca daquilo que nos dão.»

Foi a partir daí, corria o ano de 2012, que surgiu o interesse pela proteção de todos os animais que precisem de ajuda. Deitou mãos à obra e lançou o projeto Arronches Adopta, que leva o nome da vila alentejana onde vive, junto à fronteira com Espanha, num concelho onde a questão do abandono e maus-tratos de animais domésticos está longe de resolvida.

Patrícia já se deparou com cães de caça abandonados durante a época porque estão velhos e já não conseguem correr, ou mesmo com alguns que, tendo dono, são esquecidos, deitados no lixo ou acorrentados num canto qualquer, distantes e desprovidos dos cuidados mais básicos. «Infelizmente já conheci e presenciei tantas histórias de violência para com os animais. Muitas delas capazes de fazer arrepiar todos os pelos que temos no corpo.»

Não aceitando o abate, utilizado em vários canis como opção, e com as chamadas e pedidos de ajuda de vários pontos do distrito (Portalegre) a multiplicarem-se, em março deste ano o projeto acabou por ganhar outro nome – e estatuto. Nasceu a Associação de Proteção Animal Arronches Adopta (www.facebook.com/arronches.adopta), coordenada por esta licenciada em História e Arqueologia, de 23 anos, que divide o tempo entre o centro social e paroquial onde é ajudante técnica e as atividades de cuidado aos animais.

«A câmara municipal cedeu-nos um pequeno espaço para podermos manter alguns cães, mas os casos mais graves acabam normalmente por vir parar a minha casa até que sejam adotados. Lembro-me de quando resgatei uma ninhada com uns nove cachorros, passei noites sem dormir, mas no fim todos foram adotados.»

Apesar de a verba já ter sido libertada pela autarquia e o projeto aprovado, a construção do canil/gatil continua por se iniciar. Já passou praticamente um ano e as habituais burocracias continuam a impedir qualquer avanço. O facto de ainda não existir um espaço próprio, que permita manter os animais em condições, acaba por impedir a resposta a muitos dos pedidos de ajuda que recebem diariamente.

A associação sobrevive através de donativos e de algumas campanhas de adoção e recolha de alimentos que já promoveu, mas grande parte das vezes é do bolso de Patrícia que sai o dinheiro necessário para pagar as contas. É também com o seu próprio carro, e com a ajuda de voluntários, que se desloca a qualquer hora, seja onde for, para resgatar um animal. «As contas do veterinário são as mais complicadas de gerir. São sempre um pouco avultadas. Há animais que chegam em muito mau estado e precisam de cuidados urgentes.»

Neste momento a associação tem a seu cargo, nas instalações provisórias e em famílias de acolhimento temporário, oito cães. Desde que está a operar, já deu uma nova vida a quase cinquenta animais, que foram adotados. «Não me esqueço do nome nem da história de nenhum com os quais cruzei o meu caminho. Mas tal como muita gente gosta de me relembrar, a minha missão dificilmente terá fim.»

José Ramalho
Fotografia: Pedro Martins/Global Imagens