OPINIÃO

Maria, a mãe

Maria José Dinis da Fonseca aprendeu a ser mãe há 37 anos, com o nascimento de Marco.

A experiência da maternidade deu-lhe a bagagem necessária para fundar e presidir a uma instituição particular de solidariedade social dedicada a pessoas com deficiência mental. O caminho tem sido longo – mas positivo, na contínua busca da dignidade humana.

Maria José Dinis da Fonseca não podia imaginar que o seu filho viria a nascer com uma deficiência mental. Estávamos em 1977. Marco nasceu a 2 de outubro e a mãe não conhecia nenhuma regra para lidar com a imprevisibilidade da condição do filho. «Integrei-o socialmente da melhor forma possível dentro daquilo que a sociedade me permitia. Aprendi a ser mãe com o Marco e ele aprendeu a ser filho comigo.» Aceitou-o e dedicou-se a cem por cento ao novo papel para poder integrá-lo socialmente. Nunca teve preconceitos em relação ao filho mas sentiu-o na pele por parte da sociedade. Ainda assim, não se revoltou. «Tinha consciência de que este processo era perfeitamente normal, tendo em conta a nossa situação cultural e os nossos valores sociais.» Na época, as respostas para pessoas com deficiência eram praticamente inexistentes. Por esse motivo, e porque sempre as considerou como seres com uma missão a cumprir, abraçou o sonho de criar a Associação Sócio Terapêutica de Almeida (ASTA), em Cabreira do Côa, concelho de Almeida (Guarda), abrindo portas em 2000 depois de alguns anos desde a fundação jurídica (em 1998).

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Curiosa por natureza, com uma forte missão humanista, sempre se questionou em relação ao que significa a deficiência. Acredita mais nas «eficiências de cada um». E questiona perentoriamente: «O que é isso da normalidade? O que é ser normal? Não se pode criar rótulos a ninguém.» A ASTA foi sendo criada como um espaço que acolhesse as pessoas com necessidades especiais. «Esta consciência foi maturando durante muito tempo, mas quando queremos muito uma coisa até as forças da natureza conspiram para a sua concretização. Mudei toda a minha vida para fazer um curso que me preparasse melhor para esta função, pois não basta ser sensível ao ser humano e ter boa vontade.» Rumou à Suíça para tirar um curso de Terapia Cognitiva e Socioterapia com a duração de quatro anos. «Tive a oportunidade e a sorte de ir estudar com uma bolsa». Foi uma experiência gratificante, mas difícil, uma vez que o curso se realizava em regime de seminário durante 24 horas. «Permitiu pôr-me em causa algumas vezes mas sobretudo conhecer-me melhor. Trouxe algum saber numa mão e uma enorme boa vontade na outra.»

Atualmente são 34 os profissionais – entre colaboradores e voluntários – que cuidam de 35 pessoas com deficiência com mais de 18 anos. O objetivo da ASTA passa por proporcionar-lhes respostas condignas «num espaço onde podem dedicar-se a eles próprios e viver com dignidade». O futuro destas pessoas tem de ser equacionado e constitui uma das grandes preocupações das famílias, que nem sempre têm condições para prestar os cuidados disponíveis na associação. «Sabemos que muitas vezes a retaguarda é ineficiente ou até inexistente.» Todos os dias, das 09h00 às 17h00, funcionam ateliês de carpintaria, jardinagem, tecelagem, agricultura, entre outras atividades que permitem ocupar todos os que vivem na associação. Um dos projetos mais recentes é uma estufa que permite desenvolver estratégias terapêuticas a partir da terra, a mesma que tem estado disponível e à espera de ser reavivada. «Observar o crescimento do que foi cultivado e acompanhar esse processo é absolutamente essencial. A construção de uma estufa de raiz só foi possível com a atribuição do Prémio BPI Capacitar, em 2013. Foi mais um sonho tornado realidade.» Ainda em fase experimental, a aprendizagem conjunta tem tido bons resultados, tendo já a ambição de construir uma segunda estufa, talvez no próximo ano, se «o tempo, a terra e as condições o permitirem». A fundadora da ASTA acredita, cada vez mais, que «o ser humano tem a sua missão a cumprir mas para isso é preciso preparar o terreno e encontrar apoios para que cada um possa dar o seu melhor». É o que ela faz todos os dias. Dá o seu melhor. «E tem valido realmente a pena.»

Cláudia Pinto
Fotografia: Miguel Pereira da Silva/Global Imagens