OPINIÃO

José, o solidário

José Couceiro da Costa sentiu-se perdido, mas encontrou o voluntariado «no meio do nada». Um nada que lhe deu tudo.

Ganhou uma nova vida depois de o filho ter saído de um período de coma resultante de complicações pós-cirúrgicas. Foi a maior lição da sua vida – mas também a mais complicada.

Decorria o ano de 2013. Fernão, o mais novo dos quatro filhos de José Couceiro da Costa (na altura com 2 anos), fora submetido a uma cirurgia simples às amígdalas. E isso acabou por resultar na mais dura prova da sua vida. Uma série de complicações pós-operatórias obrigaram a um período de coma. «Foram 54 dias de um verdadeiro calvário», desabafa José Couceiro da Costa. Os dias começaram a ser passados na unidade de cuidados intensivos do Hospital de Santo António, no Porto. Apesar do enorme sofrimento, ficou marcado «pela positiva» e contou com a «excecional equipa médica, de enfermagem e de pessoal auxiliar». Foram eles que lhe «deram uma nova vida» e que permitiram contactar com a associação NoMeioDoNada, onde hoje é voluntário e membro da direção. É assim que se sentem os pais que têm os filhos internados em unidades pediátricas e de cuidados intensivos: perdidos, sem rumo e a precisar de muito apoio. «Depois de ter percebido a dimensão da ajuda que a associação dava aos pais e às crianças, comecei a interessar-me pelo trabalho deles.» E como recebeu tanto, quis de alguma forma contribuir e «retribuir a generosidade». E assim tem sido até aos dias de hoje. Além do apoio psicológico, a associação garante ajuda monetária aos pais de crianças internadas para que possam deslocar-se para as visitar diariamente ou para comprarem medicação. São 60 as famílias apoiadas neste momento, contando a associação com a ajuda de algumas entidades que contribuem com fraldas e laticínios. «A nossa preocupação é promover uma ajuda à família, mas sempre direcionada e focada nas crianças.»

A associação, presidida pela enfermeira Teresa Fraga (na fotografia), tem como projeto implementar uma unidade de cuidados continuados e paliativos para crianças até aos 18 anos. É um projeto pioneiro em Portugal, que irá englobar crianças com patologias crónicas. «O Kastelo terá trinta camas, 26 das quais destinadas a internamento, entre cuidados paliativos e cuidados continuados. As outras quatro serão dedicadas à unidade de dia, para crianças que necessitem de um apoio muito constante, mas que por força do seu estado clínico possam dormir em casa. A ideia é que os pais saiam de manhã para o emprego, vão trabalhar e fazer a sua vida e deixem as crianças no tratamento necessário no Kastelo», explica José. O grande objetivo é promover o bem-estar e dar um acréscimo na qualidade de vida das crianças e da família.

Ainda em fase de construção, numa casa doada à instituição, em Matosinhos, o projeto é apoiado de diversas formas. «Candidatámo-nos ao BPI Capacitar, fomos passando fases e ficámos esmagados com a notícia de que iríamos receber cem mil euros e que o nosso projeto tinha sido premiado. O valor ajudou nas despesas de equipamentos do Kastelo e perante o valor e significado deste prémio passámos a designar a nossa unidade de fisioterapia como Ginásio BPI Capacitar», explica. O dinheiro tem sido utilizado para a compra de equipamentos necessários para o tratamento destas crianças.

Uma vez que o apoio da família é fundamental, alguns pais poderão ficar a dormir no Kastelo para estarem mais próximos dos seus filhos. «Queremos que as crianças se sintam em casa mas com todas as valências de uma unidade clínica», diz José Couceiro da Costa. O projeto contará com uma equipa multidisciplinar, incluindo professores e educadores, que permitirão que a formação não seja descurada e que de alguma forma as crianças continuem a «adquirir competências adequadas». Além desta equipa, a associação conta com um grande número de voluntários. Uma ajuda preciosa, que José reconhece e agradece – ou não se dividisse ele também em muitas atividades e vivesse com o tempo muito preenchido, entre a administração de uma empresa e o voluntariado nesta e noutras duas instituições de solidariedade social.

Cláudia Pinto