OPINIÃO

De escudeiro a cavaleiro

As ondas da Nazaré continuam a bater recordes. E há portugueses a surfá-las. Como Hugo Vau, escudeiro de McNamara.

Começou a garantir a segurança de quem se arriscava a enfrentar as ondas da praia do Norte, na Nazaré. Aos 37 anos, Hugo Vau realizou um sonho: graças à sua Gigante Expeditions vive do mar e perto deste, na Terceira, a ilha açoriana que fez sua. Com McNamara passou de escudeiro a cavaleiro. Há um mês, as ondas nazarenas voltaram a correr mundo, mas desta vez foi de um português a maior vaga do dia. Novo recorde à vista?

Foi pela natureza que Hugo Vau se mudou de Lisboa pa­ra a Terceira. Apaixonado pe­lo mar, em São Mateus guar­da o Gigante, barco com que promove pescarias e via­gens para ver golfinhos e baleias no mar dos Açores. Mas sem nunca perder de vis­ta as grandes ondulações. «Quanto maior a nau, maior a tormenta, assim dizem os pescadores de São Mateus», diz quem, de barco, só procura calmaria.

Com a prancha de surf, a conversa mu­da. A perseguição às ondulações começa com dez dias de antecedência e a mala tem de es­tar sempre feita. Garret McNamara voa do Havai, Andrew Cotton da Irlanda e em pou­cos dias o encontro acontece na praia do Nor­te. Foi assim no passado dia 11 de dezembro quando a Nazaré voltou a inundar a inter­net. Nesse dia, Vau apanhou a onda do dia. «Foi a maior onda da minha vida.»

Aos cinco anos, numa prancha de body­board que recebeu no Natal, apanhou a pri­meira onda na praia Verde, no Algarve. Dez anos depois, na praia Paraíso, na Cos­ta de Caparica, estrear-se-ia no surf. «Co­loquei-me em pé à primeira e cortei a on­da até ao fim. Foi uma sensação mágica.» Anos depois experimentava o medo em on­das grandes – na Peralta, na zona da Louri­nhã, com o mar entre os quatro e cinco me­tros. No Algarve viciou-se no mar, na Costa de Caparica viciou-se no surf, mas na Peral­ta descobriu a sua especialidade. «A escala e a maturidade subiram rapidamente. Já vi ondas gigantes, mas é onde gosto de estar, onde me sinto bem.»

Estudante de Psicologia na Universida­de Lusófona, deixou o curso por acabar pa­ra trabalhar no colégio de uma tia em Al­mada. Mas não é fácil a vida de surfista em Lisboa e, aos poucos, as malas foram assen­tando no Baleal, em Peniche. À medida que o colégio ia ficando para trás, a pesca semipro­fissional começava a tornar-se na sua fonte de sustento. «Ia de férias aos Açores desde os 17 anos. Numa das viagens fiquei mais tem­po na Terceira e vi um anúncio: “Precisa-se de homem para ir ao mar”, decidi arriscar», lembra o momento em que passou a pesca­dor profissional. O Gigante e a mudança oficial de morada viria logo depois.

Antes, em 2005, Vau descobria a praia do Norte, mas levaria dois anos a apaixonar–se. «Voltei para fazer segurança aquáti­ca no Special Edition, um campeonato de bodyboard, e as ondas estavam com uns seis metros. Vi tanta onda grande, tanta onda linda, que a minha perspetiva do local mu­dou para sempre.» E nunca mais se afastou – em 2011 tornou-se no único português em quem Garrett McNamara confia a missão de resgate na hora de caçar gigantes. «Não quero pensar que salvei a vida a alguém, mas já tirei grandes nomes do surf mundial de situações muito complicadas, potencialmente fatais.»

Fotografia de Vítor Estrelinha

Fotografia de Vítor Estrelinha

Hoje os papéis invertem-se. «Foi ele quem me rebocou para as maiores ondas da mi­nha vida. Na água, com o Garret McNamara (na foto, à direita) e o Andrew Cotton (na foto, de costas) , o terceiro membro da equipa, sinto-me confiante.» A maior chegou no passado dia 11 de dezembro. «Disse-lhe que queria uma esquerda gigante.» Quebrem para a esquer­da ou para a direita, na praia do Norte McNamara sabe como ninguém encontrar ondas e depressa acedeu ao pedido. «Uns momentos antes tinha fechado os olhos e pe­dido a onda à mãe natureza, e ela veio. Quan­do larguei a corda, foi um momento mági­co. A velocidade e a sombra superescura que criou marcaram-me. Dei três saltos enor­mes, o terceiro foi abismal. Mesmo em queda livre, acreditei que ia conseguir aterrar bem. Foi esse salto que gerou a velocidade que me permitiu surfar a onda até ao fim.»

Hugo Vau, 37 anos, é o único português na equipa do surfista havaiano e o mais sé­rio candidato luso ao título de sobrevivente à maior onda alguma vez surfada na praia do Norte, que diz ter atingido «20, 22 metros de altura», bem perto do recorde do McNama­ra em 2011 (24 metros), e que para já lhe ga­rantiu a entrada direta nos Billabong XXL, os Óscares para surfistas de ondas grandes.

Vau passou a adolescência entre competi­ções de natação, mas no surf gosta pouco de confusões. «Acho pouco saudável a compe­tição gratuita entre surfistas, com faltas de educação, gritos e agressões. Por isso gosto tanto de surfar ondas maiores. Há mais es­pírito de entreajuda e de partilha. Para mim esse é o verdadeiro espírito do surf.» Consi­derando-o um verdadeiro desporto de com­petição, prefere fazer os treinos ao ar livre, seja em caminhadas, corridas, sessões de ca­ça submarina ou treinos de apneia. E leva a coisa muito a sério.

No tow in, variedade em que o surfista é rebocado para o local onde tentará apa­nhar a onda, o risco é bem maior. Em 2013, a brasileira Maya Gabeira teve de ser rea­nimada na areia e no dia em que Vau fez a sua maior onda foi o outro português na água a provar o lado mais negro da praia o Norte – António Silva caiu, foi atropelado por três ondas e acabou o dia no hospital com uma distensão nos ligamentos do joelho. Mesmo assim, Hugo Vau recusa a ideia de que desafie a morte e garante que é mesmo a «paixão pelo surf e pelo mar» que o move.

Ao fim de três anos na equipa de McNa­mara, de escudeiro, Hugo Vau foi arma­do cavaleiro de ondas gigantes. Ao havaia­no agradece o facto de o ter rebocado para as maiores ondas que alguma vez surfou. E uma lição muito especial: «O medo é criado na nossa mente e é a esse nível que temos de o combater. Se nos focarmos no que estamos a fazer, não pensarmos no passado ou no que irá acontecer, não existe espaço para sentir medo. Ficamos protegidos.»

Quem, em dia de ondas grandes, já des­ceu do Sítio da Nazaré em direção ao farol da praia do Norte, terá dificuldade em acre­ditar, mas Vau garante que do mar não sen­te medo. Apenas respeito. Ainda assim, an­tes de surfar há rituais a cumprir. «Peço à minha mãe e à natureza que me acompa­nhem e protejam. Pessoalmente ou por te­lefone, dou sempre um beijinho à minha mulher. Se não me despeço dela nem me sinto totalmente confiante.» Faz sentido: é com ela que persegue aves, baleias, golfi­nhos e tartarugas e é a ela que reconhece mérito. «Acho que é ainda mais corajosa do que eu. É raro de se ver uma menina nasci­da e criada em Lisboa ter tanta destreza no mar», gaba. Para evitar demasiadas preo­cupações ao resto da família só conta no re­gresso a terra. Se não dá para evitar, o me­lhor é mesmo nem pensar nisso. Não é essa a lição de McNamara?

Filipe Garcia
Fotografia de Paulo Spranger/Global Imagens