OPINIÃO

Dar a volta ao nosso ensino desmotivador

Ana Manta aponta-lhe o caminho a seguir para aprender sem frustrações.

Os desafios que a escola coloca às famílias são uma dor de cabeça para os pais – e aumenta nos primeiros dias do ano letivo. Como organizar a aprendizagem das crianças e adolescentes? Como trabalhar a atenção, o prazer de saber, a memória? Motivar os Filhos para o Estudo (ed. Clube do Autor) é um guia para formar miúdos bem-sucedidos e felizes.

QUEM É ANA MANTA?
Psicóloga, especialista em desenvolvimento infantil, com 15 anos de experiência em contexto clínico e escolar. Coordenadora da Red Apple, uma entidade formadora nas áreas da psicologia, da educação e das ciências sociais e do comportamento. É autora do blogue Motivar os Filhos para o Estudo, com que ajuda educadores a orientar bons hábitos. Tem três filhos.

Todas as crianças podem ser estudantes motivados? Basta fazer da aprendizagem um jogo e pôr a família a trabalhar em equipa?
_Acredito que sim, até porque qualquer miúdo gosta de jogar e de brincar. Há que tirar o melhor partido disso. Ao início, as mudanças podem custar um pouco a implementar, mas os resultados finais compensam e o essencial é que a decisão de alterar hábitos em casa passe por toda a família. A família deve estar sempre presente, não a fazer os exercícios pela criança, a dar-lhe as respostas, mas a fazer com ela. A criança deve perceber que não está sozinha neste caminho, mesmo que a presença não esteja fisicamente sentada ao lado enquanto faz os trabalhos. Não tem de estar. É mais no sentido de sentir que tem ali um apoio se precisar. Sentir-se amada e segura pelas pessoas mais importantes da sua vida.

O que explica então as elevadas taxas de insucesso escolar?
_A desmotivação. Estamos a transformar o ensino em algo que não é nada motivante. Nenhuma criança gosta de aprender da forma como as coisas estão estruturadas na escola que temos em Portugal hoje em dia, com todas as metas curriculares e sistemas de avaliação complexos. Não é, de todo, um desafio, pelo contrário. Está tudo demasiado estruturado a um ponto em que nem professores nem alunos se identificam com o que fazem no dia-a-dia. Não pode ser este o caminho.

E qual é o caminho?
_Tem de passar por estimular o conhecimento, de tal forma que os alunos aprendem porque querem saber mais, porque fazem pesquisas, porque são curiosos e se interessam pelo que os professores lhes querem ensinar. O sistema de ensino no norte da Europa, por exemplo, vai todo neste sentido, não no de métodos e rankings e coisas que nem sequer respeitam o desenvolvimento da criança porque o que lhe estamos a pedir, na maior parte das vezes, é mais do que ela consegue dar naquela idade. Daí termos de tentar inverter o caminho e enveredar por outro mais dinâmico, em que tanto educadores como alunos beneficiem verdadeiramente das estratégias de ensino adotadas.

Sobretudo neste caso, em que os próprios professores parecem desmotivados…
_E estão. Os miúdos são um espelho dos adultos que os rodeiam e tendem a replicar comportamentos: se os pais e os professores não estiverem motivados, eles também não vão estar. É importante perceber que o modo como vivemos, reagimos e falamos do nosso trabalho se torna um modelo para eles. Além de que passam uma grande parte do seu tempo na escola, portanto quanto mais motivados estiverem para o estudo, mais felizes serão os seus dias.

Aquilo que deseja para os seus filhos é que sejam felizes, mais do que alunos brilhantes?
_Claro que sim. Mas a verdade é que também se pode ensinar a ser feliz e deve ser uma prioridade para os educadores ajudarem as crianças a desenvolver a inteligência emocional, ensinando-as a serem gratas, generosas e a reconhecer os seus pontos fortes. Miúdos otimistas estão mais motivados para a aprendizagem, sentem-se mais competentes, correm menor risco de sofrer problemas emocionais, são menos suscetíveis a ter problemas de comportamento e conseguem melhores resultados na escola do que outros com as mesmas capacidades intelectuais. Que mais podem os pais desejar para os filhos? Que sejam felizes.

Todos os pais querem o mesmo?
_Espero bem que sim, embora um dos aspetos mais difíceis no meu trabalho seja precisamente lidar com as expetativas dos pais em relação aos filhos. Todos nós as temos, é incontornável querermos que sejam bons alunos e tenham boas notas. Mas acima de tudo importa serem felizes com o que fazem. Cabe-nos dosear as nossas esperanças de modo a não interferirem nos projetos de vida que escolherem para si, independentemente da nossa vontade. Se a criança está feliz na escola, com o que aprende, com os professores, será um bom aluno, com uma motivação diferente da que teria se fosse constantemente pressionada a ter nota máxima a tudo. É esta a chave: saber que disciplinas tem e motivá-la para a curiosidade do que se vai passar durante o dia.

Quais os erros mais comuns que os pais cometem relativamente aos hábitos de estudo dos filhos?
_Exigem-lhes que estejam muito tempo sentados diante dos livros, que passem muitas horas a estudar, quando na maioria das vezes eles já desligaram a partir da primeira meia hora. Não dá, a criança não tem essa capacidade. Mais do que meia hora seguida a fazer seja que trabalho for, mesmo em miúdos mais velhos, não vale a pena – se até nós, que somos adultos, precisamos de pausas para arejar a cabeça quando estamos muito tempo agarrados a alguma coisa, imagine os pequenos, com menos maturidade e capacidade de concentração. Mas aqui reconheço que os pais, regra geral, não têm culpa de exigir demasiado. Fazem-no por desconhecimento, por não terem esta noção.

Qual seria o plano de trabalho ideal?
_Cada criança é uma criança, umas aguentam mais tempo concentradas do que outras, portanto o plano passa sempre por respeitar os diferentes ritmos. Não estou contra os trabalhos de casa: acho que fazem sentido na medida em que ajudam a responsabilizar os miúdos e até a envolver os pais no que estão a aprender na escola. Mas o ideal é que os pais consigam pelo menos uma hora ao final do dia só para estarem com a criança e que, dentro dessa hora, definam um prazo controlado para ela cumprir a tarefa (uma meia hora) e aproveitem o resto do tempo para fazer um jogo, um passeio juntos, o que for. Tendo essa hora para si, ela sabe que quanto mais depressa fizer os deveres, mais depressa vão brincar os dois ou os três.

E como se concilia as necessidades reais das crianças com os horários incertos dos adultos? Porque a maioria chega a casa tarde e esgotada do trabalho, é fácil perder de vista a boa comunicação familiar…
_Por isso é que digo que se transformarmos os trabalhos em brincadeiras, e ao mesmo tempo estruturarmos outras coisas que nos poupem tempo ao final do dia (como definir previamente o que se vai comer durante a semana), vamos ganhar mais algum tempo de qualidade para os filhos. Em última análise, mais vale estarmos 15 minutos totalmente dedicados a eles, a brincar com eles, de coração, do que o triplo desse tempo a discutir por ainda não terem feito os trabalhos, a gritar por tudo, no limite. Chegam tarde e exaustos a casa, é normal que gritem. Mas isso depois gera uma coisa chamada culpa dos pais e é terrível viver-se com ela, acaba mesmo por prejudicar a relação com os filhos.

O que podem os educadores fazer para motivar efetivamente uma criança? Não chega desejar que ela treine a memória ou aprenda a organizar-se, é preciso ensiná-la a concretizar…
_Na prática, é mesmo uma questão de criarem atividades, rotinas e jogos que lhe permita fazer o que tem de ser feito transformado numa brincadeira. Não há nenhuma criança que não goste de desafios, então jogamos com isso. Uma coisa que funciona muito bem com eles é um cartão de cliente dos trabalhos de casa que vem no livro: quando completo, uma cruz por cada meta atingida, ganham uma atividade em família. Outra é o bingo de leitura: eles começam a ler por obrigação, dez minutos por dia para colarmos lá a estrelinha, e às tantas entusiasmam-se e já querem ler vinte ou trinta minutos, e até fazem questão de vir partilhar connosco o que lhes ficou da história. E aí importa estarmos presentes, faz parte da experiência. É algo que os liga a nós.

É fácil criar uma sintonia entre a família e a escola nos tempos que correm?
_É fácil e nem sequer exige muito tempo disponível, mas dá algum trabalho. A minha experiência como mãe e encarregada de educação – tenho uma menina de 9 anos e dois rapazes de 11 e 4 – tem sido boa desde o pré-escolar, também porque faço por isso: vou lá, ofereço as minhas competências, procuro colaborar nas atividades, conheço os amigos deles e os professores. Podemos sempre fazer coisas simples para nos envolvermos na escola, como criar um e-mail da turma, e não há nada que os deixe mais felizes do que saberem que nos interessamos e somos bem-vindos. Pais e professores têm muitas vezes medo de se oferecer uns aos outros, mas estamos nisto juntos. Vários estudos sustentam que esta interligação é dos pilares mais fortes do sucesso educativo.

Quando estivermos a desesperar, respirar fundo e contar até dez resolve?
_Resolve, no sentido em que os pais têm de perceber que também precisam de tirar um tempo para si de vez em quando: os filhos só serão felizes se eles forem felizes. Às vezes andamos tão angustiados a tentar fazer tudo perfeito, tão assoberbados pelo stress e pelo descontrolo com que reagimos a certos comportamentos deles, que não podemos estar bem. Ninguém é perfeito, não existem pais perfeitos. Todos fazemos asneiras e não há mal nenhum nisso, errar é humano. Só precisamos de parar um pouco, respirar, acalmar, e logo voltaremos a ser capazes de valorizar as coisas boas que temos na vida, nomeadamente a relação com um filho. Se num momento mais duro contar até dez não chegar, conte até cem.

Ana Pago
Fotografia: Rui Oliveira/Global Imagens