OPINIÃO

ADN português

Eles fazem mexer o mundo da moda. Cá dentro e lá fora.

Há quem encontre inspiração na tradição e vá buscar ao saber nacional os materiais e as ideias para produtos inovadores ou adaptados a novos usos. Estes são alguns dos novos criadores, fundadores de pequenas empresas que têm vindo a fazer mexer o mundo da moda em Portugal – e que também já conquistam espaço lá fora.

Annark
AS MALAS SOLIDÁRIAS

FOI UMA VIDA INTEIRA a juntar panos, a paixão pelo gesto de criar e o amor à economia solidária que levaram Ana Isabel Madeira a criar a Annark. Isso e um empurrãozinho do destino que, em 2014, levou uma amiga, Helena Fragoso, a perder o em­prego e a desafiá-la a embarcarem nesta aventura. O nome, An­nark, remete para a Arca da Ana, esse baú sem fim de panos e teci­dos, alguns herdados da família, muitos vindos do Brasil, onde vi­veu durante dois anos, outros de Londres, onde esteve cinco anos, e muitos mais vindos de países como Etiópia, Índia ou Hondu­ras. O design fica a cargo de Ana, a confeção é assegurada por He­lena. Tudo feito em Lisboa, à mão, artesanalmente, com sensibi­lidade e consciência. A estética é importante, claro, mas a base da Annark é o comércio justo, a sustentabilidade, a economia solidá­ria. «Trabalho como voluntária com organizações não governa­mentais para o desenvolvimento. A  sustentabilidade e direitos hu­manos fazem parte dos meus princípios. Tento sempre saber on­de são produzidos os materiais e tento usar o máximo de produtos portugueses.» Em todas as malas há um pouco de Portugal, seja na passamanaria, nas peles ou nas ferragens, de origem nacional, numa tentativa de estimular comércio tradicional e artes e ofícios.

«Cinquenta por cento ou mais do preço das malas é custo de mão-de-obra», diz Ana. Mas a criação e a contribuição para este modo de produção justo dão-lhe prazer. E acredita que, para o con­sumidor, isso também tem um valor. Uma mala Annark custa entre 35 e 60 euros, valores que não divergem muito dos praticados nas peças de produção em massa que se encontram em qualquer loja.

A primeira coleção é composta por malas feitas de materiais or­gânicos, como juta e algodão, e sacos de serapilheira reutilizados, provenientes do comércio internacional do café. Recentemente, a marca lançou também uma linha de shopping bags «Mama-toto», com preços que rondam os vinte euros. www.annark.pt

By Marez
AS CANELEIRAS VERSÁTEIS

MARIA RAMIREZ NÃO TEM TIDO DESCANSO. Mas isso não pa­rece incomodar a lisboeta de 28 anos. «Fui ensinada a aproveitar ao máximo o melhor de cada lugar, a saber desembaraçar-me.» Haverá tempo para descansar, mais tarde: por agora, aproveita o sucesso da By Marez, a marca de acessórios de moda que lançou em julho do ano passado e que em pouquíssi­mo tempo conseguiu alcançar metas invejáveis, como a passagem, em mar­ço deste ano, pelo Wonder Room da ModaLisboa.

Amante de viagens, foi na hotelaria que construiu uma carreira, mas haveria de ser a moda, paixão partilhada no blogue Can’t Cook So What, que lhe mudaria a vida. O primeiro passo foi dado em 2014, quando decidiu criar uma corrente para óculos que se adaptasse ao seu estilo. De repente, todos à sua volta queriam saber onde poderiam encontrar as correntes. «Como o feedback foi positivo e choveram pedidos, decidi aventurar-me.» Foi apenas o primeiro empreendimento de uma marca que, hoje, passado menos de um ano, já reúne também pulseiras, biquínis transformados e, o grande suces­so, uma coleção de caneleiras. «As caneleiras vêm do meu desejo de ter umas botas aprés-ski, de pelo. As que eu gostava custavam o mesmo que o meu car­ro, por isso decidi pôr mãos à obra e tentar arranjar uma solução. Fui buscar a polaina portuguesa e alterei-a até chegar ao que queria: uma cobertura da perna em pelo, que se adapta a qualquer tipo de perna e/ou calçado.»

Da ideia, nasceram as Cover Boots (130 a 250 euros), caneleiras até ao joelho, mais indicadas para o tempo frio, as Boot Bugs (50 a 75 euros), modelo XS pensado para usar com botins ou botas de cano baixo e ainda as Moob Bugs (50 a 75 euros), mais adequadas ao verão, para usar com sandálias ou ténis. Em comum, conciliam pedras, penas, têxteis, correntes e o modo de produção, to­talmente manual – e é sempre possível adaptar as peças ao gosto dos clientes, sem custos extra-associados. «Os valores param onde para a imaginação e o budget do cliente», diz Maria. Além da página online, principal espaço da mar­ca, as peças podem ser encontradas em duas lojas: na Intemporal, no Príncipe Real (Lisboa), e na Dalva, em Cascais. www.bymarez.com

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Toino Abel
DE ALCOBAÇA PARA O MUNDO

É UMA DAS MARCAS DO MOMENTO. Se não acredita, pergunte aos jornalistas da edição in­glesa da revista Vogue, ou aos da Australian House & Garden ou aos do jornal alemão Zeit. Estes são al­guns dos órgãos internacionais que já descobriram a Toino Abel e a colocaram nas suas páginas.

Mas como é que uma marca de cestas tradicionais de junco, nascida em Castanheira, uma aldeia junto a Alcobaça, atravessa fronteiras e barreiras e embar­ca à conquista do mundo? Até há alguns anos, a histó­ria seria provavelmente impossível mas hoje, graças à internet, Nuno Henriques pode trabalhar com um rebanho de ovelhas por banda-sonora (não é fi­gura de estilo, uma chamada telefónica é quanto bas­ta para o ouvirmos) e, ao mesmo tempo, vender para todo o mundo. É a tecnologia a funcionar a favor da tradição, o futuro a manter vivo o passado – no fun­do, uma síntese do que é a Toino Abel, criada em 2010 mas cuja vida começou em 2013.

Aos 30 anos, Nu­no cria cestas de forma totalmente artesanal. Com a ajuda de quem conhece bem as histórias e caprichos do junco: artesãos, tecedeiras, gente que tem o jun­co nas mãos há uma vida e com nome próprio nes­ta história. O processo começa com Emília e Cidá­lia, que cortam, lavam, secam, aclaram e separam o junco claro dos paus que permanecem escuros e são usados para tingir com pigmentos. Depois, tecem-no num tear tradicional, de forma manual, ora em ta­peçarias lisas, ora reproduzindo padrões. Em segui­da, as diferentes tapeçarias que constituem as cestas (tradicionalmente, usam-se três peças) são cosidas, passando depois para o senhor Fernando, que aplica as asas feitas de ramos de verga entrelaçados (há até um vídeo no Youtube onde demonstra a sua técnica). Finalmente, cabe a Nuno aplicar os fechos de pele de curtimento vegetal, um método tradicional que usa taninos das cascas de árvores, raízes e folhas.

São estas mãos, estes nomes e esta história que distinguem as cestas Toino Abel das muitas novi­dades que surgem, todos os dias. E esta é também a história de Nuno, bisneto de José Barreiro, co­nhecido por  «Zé Esteireiro», o primeiro a fazer estas cestas na aldeia. A outro avô, António, filho de Abel, foi buscar o nome para batizar as cestas, numa homenagem às raízes que se repete de cada vez que terminam mais uma cesta e a enviam para algum ponto do mundo. Os valores começam nos 28 euros – um preço pequeno a pagar por peças que, mais que de junco, se tecem de história, me­mória e coração. www.toinoabel.com

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Head-Ji
CADA CABEÇA SEU TURBANTE

CHAPÉUS HÁ MUITOS – TURBANTES, NEM TANTO. É uma his­tória controversa, a do turbante na moda, com acusações de se tratar de uma mera apropriação estética de um elemento com simbologia religiosa, cultural e histórica. Mas isso não impediu que o turbante se tornasse um cobiça­do acessório de moda. Na década de 1920, o criador Paul Poiret elevou-o à po­sição de ícone, aparecendo nas cabeças de estrelas como Gloria Swanson, e, mais tarde, Greta Garbo, Lana Turner ou Elizabeth Taylor. Uma escolha ou­sada e glamorosa, com inspiração étnica, que está de regresso às ruas e pági­nas de revistas – incluindo em Portugal.

Um dos nomes que tem contribuído para a difusão do turbante em Portugal é a HEAD-Ji, criada em 2014, em Lisboa, por Joana Fragateiro e Joana Macedo Santos. Tudo começou no dia em que a primeira decidiu complementar um vestido simples com um turbante da avó, num casamento. O suces­so foi imediato. Surpreendidas com as reações, puseram mãos à obra e come­çaram a pesquisar os melhores materiais, os melhores sítios onde mandar fa­zer os turbantes e o que já existia no mercado. Daí à HEAD-Ji foi um saltinho: ou um like, já que é nas redes sociais que a palavra e as imagens mais correm.

Hoje, conciliam a psicologia e a educação de infância com tecidos, mode­los e os pedidos que vão chegando ao Facebook, onde, num ano, conseguiram reunir 15 mil gostos e muitas vendas. «Nunca pensámos ter o sucesso que tive­mos e temos até agora, no prazo de pouco mais de um ano! O que começou co­mo uma “brincadeira”, hoje consome-nos a maior parte do nosso tempo, sem mencionar que ambas temos as nossas profissões», diz Joana Macedo Santos, psicóloga. A outra Joana é educadora de infância.

Para este sucesso, muito contribui a qualidade dos turbantes, costurados ao pormenor, com tecidos nacionais. «Apesar de os custos serem um pouco mais elevados, acreditamos que o nosso produto faz muito mais sentido sendo 100% português», diz Joana Macedo Santos. Todas as semanas, há dois novos modelos para comprar, além da opção dos turbantes personalizados – para as mães e para as filhas, já que além dos modelos de adulto a HEAD-Ji também produz os modelos Baby e Kids. Os preços variam entre os 22 e os 33,50 euros, para modelos 2 em 1, que podem ser usados fechados ou abertos, como fita.

Garantem que vivem «um dia de cada vez», e querem ter uma evolução gra­dual na marca, mas têm vontade de ajudar clientes que passam por momentos difíceis, como tratamentos de quimioterapia. Outro objetivo é a internacio­nalização. E talvez um novo produto ainda este ano. Além de estarem dispo­níveis online, os turbantes da HEAD-Ji já podem ser comprados em três espa­ços em Lisboa, nas lojas Hippy Chiq, It’s About Passion e Del Rio, e no Porto, na By S Urban Style. www.facebook.com/HEADJI

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Capote´s Emotion
ALENTEJO EM ESTILO

EMOÇÃO, TRADIÇÃO E INOVAÇÃO: são estas as linhas com que se cosem as peças de Florbela Nunes e Delfina Marques. Amigas desde o tempo da faculdade, sempre acalentaram a von­tade de abraçar um projeto de homenagem ao Alentejo, onde nas­ceram e vivem (Delfina é de Évora, Florbela de Arraiolos). Quan­do, num almoço de convívio, uma colega escolheu vestir um capo­te para se aquecer, perceberam que tinham a ideia para criarem a Capote’s Emotion. «É uma peça intemporal, levando o Alente­jo além das suas fronteiras», diz Florbela. «O capote alentejano foi usado inicialmente pelos pastores, mas também aqueceu os solda­dos na Primeira Guerra Mundial e foi usado em grandes momen­tos, como quando José Saramago recebeu o Nobel da Literatura.»

A principal diferença nos capotes da marca criada em 2013 foi a in­trodução do modelo feminino, que não faz parte da tradição alen­tejana, e que na Capote’s Emotion surge em diversas cores, por fo­ra mas também por dentro, com forros que espelham o cuidado de criar peças originais. Além do lado estético, Delfina e Florbela preo­cuparam-se em tornar a peça mais funcional, tornando-a menos vo­lumosa: para isso, utilizam tecidos mais leves, como lã, seda, cetim e peles naturais, nacionais, que permitem manter intocada a essên­cia do capote, embora introduzindo-o no quotidiano urbano. Sem­pre, claro, com respeito pelo traço original e seguindo um modo de produção manual, com a ajuda de uma equipa de três costureiras.

Os planos para a internacionalização dos capotes, samarras e ca­pas deverão concretizar-se a «médio prazo» e os valores variam en­tre 165 euros (capas) e 320 euros (capotes). www.capotes.pt

Laura Patrício
Fotografia: Paulo Spranger/Global Imagens