OPINIÃO

Uma luz ao fundo do Parque

Uma história sobre pirilampos, os riscos que eles correm e as pessoas que os protegem.

Vila Nova de Gaia recebeu um Encontro Ibérico de Pirilampos. Estranho? Parece, mas o Parque Biológico da cidade tem há 15 anos uma noite dedicada a estes bichos que fazem parte do nosso imaginário. Fomos saber mais sobre eles e sobre quem os estuda e protege.

 

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Já reparou há quanto tempo não vê um pirilampo? Porquê? Estarão em extinção? Quantos existem? Para que servem? Como se reproduzem? O que os faz brilhar? De que se alimentam? Alguém os estuda? Mas afinal para que servem os pirilampos? Raphael de Cock é belga, de Antuérpia, e um dos maiores especialistas do mundo nestes seres da família dos Lampirídeos. É, eles existem, os estudiosos de pirilampos. E estas questões todas foram-lhe colocadas à sombra dos guarda-sóis da esplanada do restaurante do Parque Biológico de Gaia, no fim de semana passado, no Encontro Ibérico de Pirilampos no Parque Biológico de Gaia.
Não é a primeira vez de Raphael em Portugal, nem é virgem nesta pergunta. «Essa é uma questão tipicamente humana, a necessidade de encontrar uma função para tudo o que nos rodeia», contrapõe. Não o faz de forma agressiva, fá-lo a sorrir, com um olhar quase condescendente que não é normal num homem de 39 anos. Existem duas mil espécies de pirilampos identificadas em todo o mundo, 65 estão na Europa, onze vivem em Portugal e Espanha. Daí este encontro ibérico onde um especialista belga e outro espanhol explicaram a uma vintena de interessados portugueses o estado em que se encontram os pirilampos na Península Ibérica.
No final da ordem de trabalhos preparou-se um passeio noturno através do Parque Biológico de Gaia (www.parquebiologico.pt – ver caixa). «Não há outro local assim na Europa», garante Raphael, olhando nos olhos Nuno Gomes Oliveira, diretor do parque, doutorado em Biologia e anfitrião do evento. «As condições aqui são perfeitas: há trilho delimitado na floresta, há um pequeno curso de água que o atravessa, há humidade, há vegetação, não há poluição luminosa, é tudo perfeito», diz o belga. «E não usamos herbicidas no parque há mais de trinta anos», acrescenta Nuno, antes de falar das Noites dos Pirilampos, uma atividade que existe há cerca de quinze anos, sempre em junho, no Parque que já é a sua segunda casa, quase a primeira.
Raphael tem esta paixão desde criança, uma curiosidade imensa sobre bichos e tudo o que brilhe de forma natural. Estudou Biologia, graduou-se e obteve o mestrado com teses sobre o assunto, trabalhou no equivalente belga do Instituto de Conservação da Natureza e é hoje um dos nomes mais respeitados da área, numa amostra de trinta a quarenta pessoas em todo o mundo. Ou como ele confessa: «Só os freaks sabem tanto sobre estes animais.» A investigação nesta área carece de apoios, por isso o belga De Cock mantém uma carreira paralela nas músicas do mundo. Canta e toca vários instrumentos de sopro na banda Griff (www.griff.be), com destaque para a gaita-de-foles.

 

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Vaga-lumes, luzecus, caga-lumes, caga-fogos, cudelumes ou simplesmente pirilampos. São vários os nomes utilizados em Portugal para estes organismos bioluminiscentes que fazem luz através de uma reação química cujo ingrediente principal é a luciferina. Esta substância, quando está na presença da enzima luciferase e é exposta ao oxigénio, fica oxidada e emite luz que é utilizada para defesa contra predadores ou para manter comunicação com outros elementos, machos e fêmeas. E toda a reação é controlada pelo cérebro do pirilampo, que pode mesmo, em alguns casos, iludir as aparências. «Há uma fêmea de uma espécie nos EUA que muda o seu ‘código Morse’ de luz, o ritmo do piscar, para poder enganar os machos de outras espécies. Quando eles se aproximam, ela mata-os e come-os para ganhar toxinas que vão fortalecer os seus ovos.» Raphael é quem o garante, adiantando outras curiosidades: há espécies que voam e outras que não, umas brilham sempre e outras em dada fase da vida, há pirilampos que vivem apenas uma ou duas semanas, outros têm dois meses e meio, podendo chegar aos sete meses em laboratório. Tem sempre mais uma informação para dar e é isso que faz durante as suas apresentações no Encontro Ibérico, um workshop para peritos e curiosos sobre o tema.
À entrada para a sala de reuniões, dois homens debruçam-se sobre uma mosca caída no corredor. Um deles apanha-a do chão e coloca-a num frasco que retira da bolsa que trazia à cintura. É José Manuel Grosso-Silva, um dos participantes no evento, entomologista ao serviço do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto. Os insetos são a sua especialidade, passou nove anos na serra da Estrela a conhecê-los e é uma autoridade no que diz respeito a moscas em Portugal. «Atualmente dedico-me mais à entomologia forense», apresenta-se. Uma área semelhante à da personagem televisiva Grissom, no CSI Las Vegas? «Exatamente, até o nome é parecido: Grosso-Silva», responde com uma gargalhada.
No workshop também está Raquel Dias, bióloga marinha e apaixonada por pirilampos. Veio de Setúbal, os três filhos estão a brincar no Parque Biológico e ela põe todas as questões que trazia anotadas no seu caderninho. Escreve livros para crianças e é também por isso que tem interesse nestes artrópodes da classe dos insetos. Quer saber mais sobre o estilo de vida, hábitos, locais onde encontrá-los e qual a melhor forma de os avistar. Organiza, na Quinta do Alcube, em Azeitão, programas para os ver na serra da Arrábida e a sua curiosidade não tem limites.
Em Portugal existem nove espécies de pirilampos, a primeira foi identificada em 1767 e a última descoberta em 2008, no Parque de Montesinho, em Rio de Onor. Raphael foi um dos responsáveis pela descoberta do espécime que ficou com a denominação Lampyris iberica, com o alemão M. Geisthardt e o português Gonçalo Figueira. Há diferenças – umas claras, outras mínimas – entre cada espécie e quem participa no Encontro Ibérico parece saber todas.
José Ramón Guzmán Álvares – assim, com todos os nomes acentuados – é espanhol e o segundo dos oradores convidados. Doutorado em Agronomia pela Universidade de Córdoba, vive em Sevilha e é o responsável e criador do site Gusanos de Luz (www.gusanosdeluz.es), que dá e recebe toda a informação sobre pirilampos, onde encontrá-los, história, novidades e o mais que se possa desejar saber sobre tão luminoso assunto. Lembra-se perfeitamente de, em pequeno, ir para a quinta do pai, em Granada, e ver muitos pirilampos. Depois deixou de os ver e ficou intrigado. Só muitos anos mais tarde (há cinco), quis responder à pergunta: é verdade que há menos pirilampos do que antes? Por isso, trouxe preparada uma apresentação em português.
E as respostas à questão são várias. Em primeiro lugar não é possível saber se há menos ou mais porque não existem números, não há financiamento suficiente para tal; em segundo, a poluição visual impede muitas vezes que se possa avistar corretamente os pirilampos; a terceira opção prende-se com a mudança de hábitos das populações. «Não há verificação nem compilação de dados e, em junho ou julho, quando eles podem ser mais avistados, as pessoas já não passam o verão no campo», lembra José Ramón. Faz sentido. Mas eles estão lá. Raphael De Cock volta à carga com explicações simples para os encontrar: «Há que procurar zonas húmidas, com vegetação e escuras. De março a outubro podemos vê-los ainda como larvas, no solo, ou avistar as fêmeas e os machos, mas o seu período mais ativo é o das duas horas imediatamente a seguir ao pôr do Sol. Depois é apagar as luzes das lanternas e dos telemóveis, habituar o olhar à escuridão e esperar pelos pontos amarelos e verdes a brilhar na mata.»
Os pirilampos alimentam-se de caracóis. Dispensam o palito, o pão torrado com manteiga e a cerveja fresquinha… Mas resta uma dúvida? Como é que um ser de tão pequenas dimensões (cerca de 2,5 centímetros de comprimento) consegue ter como presa um caracol? Simples, através de uma toxina anestesiante que passa através de uma dentada, o pirilampo imobiliza o seu alvo e absorve o líquido do desafortunado caracol. Também o faz a minhocas e lesmas.
Perto das 21h00 de sábado, o Parque Biológico de Gaia já tem mais de trezentas pessoas à espera para mais uma Noite dos Pirilampos. Chegam à procura dos tais pontos amarelos e verdes brilhantes. Há quinze anos que assim acontece, numa ideia que nasceu por acaso. Nuno Gomes Oliveira, o diretor, trouxe um grupo de amigos à noite ao parque para ver os pirilampos junto ao pequeno rio que cruza esta área protegida. E depois trouxe outro, e mais outro, até ter mais amigos a começaram a pedir-lhe para ir ver os bicharocos que deitam luz. «Pensei que seria uma boa ideia abrir ao público a iniciativa e hoje os pirilampos são as estrelas da companhia». No próximo ano terá de aumentar o número de noites dedicadas aos pirilampos, mas diminuir o número de pessoas presentes, em prol da conservação e equilíbrio ambiental.
Raphael e José Ramón vão à frente do grupo de participantes no Encontro Ibérico. Ao fim do dia, já o belga tinha ido distribuir armadilhas – inofensivas, claro – ao longo do percurso para encontrar o maior número de espécies possível. Meia garrafa de plástico cortada com luzes verdes ou beta lights é o suficiente para o pirilampo macho pensar que ali está uma fêmea à espera de parceiro. Os olhos vão ficando cada vez mais habituados à escuridão e rapidamente aparecem os primeiros pirilampos. São pequenos pontos de luz que voam entre o solo e pouco mais que a altura da cabeça. Mas também são pontos imóveis nas folhas ou no solo. Tudo depende se são machos, fêmeas ou larvas.

Há pirilampos por todo o lado. José Ramón voltou aos seus tempos de criança. Raphael estreou-se no parque em 2007 quando ali decorreu o primeiro Simpósio Internacional de Pirilampos. No ano seguinte foi a vez da Tailândia e em 2010 a Malásia. Este ano será na Florida, EUA (www.conference.ifas.ufl.edu/firefly), em agosto. O investigador e músico belga tem planos de lá ir. Há muito para aprender e ver, mas precisa de liquidez. Vai dar aulas nas próximas semanas, tocar em alguns concertos e depois fazer contas de cabeça. Dos pirilampos é que não desiste.

Parque Biológico de Gaia
Este espaço agroflorestal de 35 hectares está aberto todos os dias do ano e vale bem uma visita. É o primeiro centro permanente de Educação Ambiental de Portugal, nasceu em 1983 com apenas dois hectares, emprega cem funcionários e tem em Nuno Gomes Oliveira o seu diretor e “pai”. Está no Parque desde antes de o projeto nascer. Viu-o como sonho de uma associação de conservação da natureza, ser adoptado pela autarquia e, em 2010, assistiu à sua fusão com a empresa municipal de águas. Numa visita ao parque vai ser possível descobrir mais de quarenta espécies de aves selvagens e trezentas espécies de plantas, além de um programa alargado de atividades para crianças e adultos. A Noite dos Pirilampos é um dos pontos altos da programação e inclui também (pelo preço de entrada no Parque Biológico – seis euros) teatro e observação astronómica. E todos os interessados em pirilampos podem enviar fotografias e informações do seu paradeiro em www.facebook.com/groups/vistepirilampos/. Além do restaurante Vale do Febros, com self service ao almoço e, apenas com marcação, ao jantar, esta infraestrutura tem ainda um parque de autocaravanas (a única na região do Grande Porto), uma hospedaria de catorze modernos e funcionais quartos (a partir de 15 euros por noite), salas de formação, auditório para 210 pessoas e loja com produtos alusivos ao parque e tradicionais portugueses.

Águas e Parque Biológico de Gaia, EEM
Avintes – Tel.: 227 878 120. Aberto todos os dias do ano. www.parquebiologico.pt

Ricardo Santos
Fotografia de Pedro Correia / Global Imagens