OPINIÃO

Na vida e na moda

Seis casais unidos pelo estilo e pelo que sentem. Algumas das mais carismáticas figuras da moda portuguesa partilham projetos pessoais e profissionais.

PASO DOBLE
Luís Onofre e Sandra Cachide

Luís Onofre nem sempre quis ser designer de calçado. «Sentia-me atraído pelo universo artístico mas nunca pensei ser o que sou hoje, foi um imprevisto que acabou por correr muito bem.» No entanto, o empenho e a dedicação de que precisa implicam sacrifícios, «principalmente junto da família». Luís Onofre, de 43 anos, e Sandra Cachide, de 38, conheceram-se há 22, namoraram, casaram, tiveram três filhas, separaram-se, «mas o amor conseguiu» voltar a unir esta dupla invencível da moda nacional. «A vida ensina-nos a valorizar o que de facto é im­portante, mas a verdade é que para vingar nesta área, para conquistar o que achamos merecer, temos de dar grande par­te do nosso tempo ao negócio, à empresa», diz o designer de cal­çado. «É fundamental termos alguém junto de nós que nos apoia mas que também nos diz que devemos ir por aqui ou por ali. A Sandra é o meu equilíbrio até porque o gosto inato por moda que tem ajuda muito a seguir um fio condutor lógico.»

Como qualquer outra equipa, ouvem e respeitam a opinião um do outro, unidos por um sentimento «muito forte que com­bina o amor com a cumplicidade», diz Sandra, responsável pela gestão financeira da empresa pelo departamento criativo, juntamente com o marido. Luís aprendeu com os pais a im­portância de separar o lado profissional do pessoal. «Em ca­sa não se fala de trabalho», garante. Acontece com frequência as filhas não terem noção dos projetos dos pais, uma vez que o tempo em família «é sagrado porque é pouco», diz Sandra. A autonomia conquistada acaba por reforçar a cumplicidade do casal, Sandra gosta de sair com as amigas e Luís de fazer surf. «Acho que os casais devem ter os seus momentos pelo prazer de regressar e de partilhar novidades», diz o designer. «O nosso quotidiano é relativamente separado. Como traba­lhamos em áreas diferentes da marca, podemos passar até um dia inteiro sem nos cruzar. Cada um tem a sua agenda e os com­promissos relacionados com a área que cada um tem sob a sua responsabilidade. E nem partilhamos o mesmo carro entre a nossa casa e o local de trabalho.»

No início deste ano abriram a primeira loja monomarca em plena Avenida da Liberdade, em Lisboa, um projeto que ambos desejaram há mais de quatro anos e que finalmente se concre­tiza. A fábrica que atualmente produz a marca Luís Onofre, em Oliveira de Azeméis, foi fundada por Conceição Rosa e Pereira, avó de Luís. «Só fabricamos a minha marca, não trabalhamos para outros clientes nacionais ou internacionais. O que fazemos algumas vezes é produzir edições especiais em parceria com marcas conhecidas, como aconteceu com a H&M.»

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FINA ESTAMPA
Christophe Sauvat e Filipa de Abreu

Antes de se conhecerem já trabalhavam na área da moda, mas em setores distintos. Christophe Sauvat fundou a marca de roupa Antik Batik em 1990 (atualmente está desvinculado da empresa) e Filipa de Abreu trabalhava na edição britânica da revista Elle e era editora de moda e beleza na Sunday Times Travel. «Conhecemo-nos há 12 anos em Paris», diz Filipa. «Abri a porta do meu apartamento e lá estava o Christophe, com um sorriso rasgado, cabelos compridos e muito bronzeado. Uma luz…» Hoje têm três filhos e vivem em Portugal há qua­tro anos. «Escolhemos Lisboa e foi uma decisão acertada. É a cidade perfeita para construir um lar, para regressar das muitas viagens que temos de fazer.» Ambos integram o depar­tamento criativo da marca Christophe Sauvat (presente em diversas lojas multimarca dentro e fora de Portugal), mas Fi­lipa é também a gestora da empresa.

«A moda é importante para não apenas na escolha das peças que usamos mas também no modo como vivemos», diz Chris­tophe. O projeto a dois tem quase tantos anos como o próprio casamento e a harmonia, por vezes aparentemente caótica, foi construída no «respeito absoluto pelas opiniões um do ou­tro». Nem sempre de acordo, é verdade, mas admitem que a re­lação tem contribuído para a expansão cultural e intelectual dos dois. «Sou um apaixonado pelo trabalho de designers japo­neses e a Filipa é fascinada por música e literatura. Os nossos gostos interagem harmoniosamente e misturam-se de forma natural.»

O trabalho e a vida pessoal funcionam em parceria mesmo quando desejam que haja maior separação. «Tentamos fixar algumas regras dividindo as horas de trabalho e as horas em família, mas qualquer dos nossos três filhos vos pode dizer que isso não acontece», diz Filipa. «Faz parte da nossa forma de estar e das nossas paixões.»

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MODELOS E EMPRESÁRIOS
António Romano e Emília Romano

Trocaram os primeiros olhares em 1980, quando deram também os primeiros passos no mundo da moda. O fascínio pelas pessoas, a atra­ção pela beleza e a criatividade foram alguns dos motivos que leva­ram António e Emília, Mi para os amigos, a apostar numa carreira que na década de 1980, em Portugal, tinha ainda poucos seguidores. Trabalharam juntos pela primeira vez num catálogo da extinta Traffic e «foi amor ao primeiro olhar», diz Tó Romano. «Quando di­go isto pode parecer um recorrente cliché, mas a verdade é que nos apaixonámos no primeiro momento e continuamos a viver com a mesma intensidade amorosa.» Partilhar a vida privada e a profissio­nal foi uma opção de ambos, que tem resultado, «através do respeito mútuo e da permanente sintonia de interesses».

Em 1989 fundaram a primeira agência de modelos em Portugal, a Central Models. «Quando decidimos investir nesta área as nossas carreiras como modelos foram postas de parte. Fomos tentados a não o fazer algumas vezes, mas a verdade é optámos por não mistu­rar as coisas», explica Emília. Vinte e cinco anos depois de terem criado a agência, agora com 53 e 52 anos, respetivamente, Tó e Mi Romano continuam juntos e trabalhar juntamente com a equipa de bookers que gere a vida profissional de modelos, atores e cantores. «É impossível não levar para casa assuntos profissionais e vice-ver­sa. Em casa conseguimos refletir sobre alguns temas com mais po­der de análise. Somos os mentores deste projeto e temos a sorte de partilhar uma vida em comum. Tudo acaba por funcionar porque somos parceiros nos bons e nos maus momentos.» Pais de dois filhos já adultos, têm noção de que a durabilidade da sua relação se deve ao simples facto de gostarem de «partilhar uma vida em comum, assim como a vontade que cada um tem de manter a relação».

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ALIANÇA DE SUCESSO
Eugénio Campos e Rosa Maria Campos

Ainda andavam no liceu quando o destino os juntou. «Era já uma vida intensa a que tínhamos nesse tempo», diz Eugénio Campos. «Estudávamos à noite e tínhamos os nossos empregos diurnos. E ainda se arranjava tempo para nos descobrirmos e namorar.» O gosto pela moda e a atenção prestada às tendências dentro e fora de Portugal ajudou-o a perceber o que gostaria de fazer na vida pro­fissional, criando um projeto já com a mulher. «A partir do momento em que registámos a marca EC Joias [Eugénio Campos] começámos logo a trabalhar em coleções próprias, o que acabou por ser vantajoso no processo de implementação no mercado e na sua divulgação», diz Rosa Maria, responsável pela gestão da empresa, tarefa que partilha com o marido, mas em setores distintos. E garantem que a opinião de ambos é importante para facilitar o processo criativo e o funcio­namento do próprio negócio. «O facto de sermos um casal e traba­lharmos juntos não afeta a nossa relação. Existe uma notória neces­sidade de criar momentos em família e também de arranjar tempo só para o casal», diz o designer de joias, que reconhece ter uma vida intensa devido às coleções que tem de fazer, às viagens constantes para estar presente em feiras e outras mostras da especialidade e ainda passar algum tempo com os filhos e a mulher fora do contex­to profissional. «Quando estamos em casa, evitamos falar de tra­balho, mas o contrário também. Preocupamo-nos em preservar os espaços, respeitar a privacidade e manter a liberdade que cada um deve ter sem ignorar que estamos numa parceria e que essa parce­ria promove a nossa relação e a nossa empresa», diz Eugénio. Ape­sar de viverem juntos e de trabalharem no mesmo espaço, acontece frequentemente passarem o dia sem se cruzarem. «O que acaba por acontecer só em casa, como qualquer outro casal.»

 

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Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens

CASADOS COM O NEGÓCIO
Carlos Gil e Carla Gil

Conheceram-se no Fundão e foi na cidade beirã que se casa­ram. Carlos Gil é natural de Moçambique, mas veio viver pa­ra Lisboa e estudou Design de Moda no Porto. «Depois de terminar os estudos fui dar aulas e trabalhar para o departa­mento de design de uma fábrica de roupa no Fundão, onde acabei por conhecer a Carla.» As tarefas estão repartidas de forma a manter o equilíbrio de funcionamento da empresa. E trabalhar e viver juntos não tem complicado ou desgasta­do a relação. «Antes pelo contrário», como estilista gosta de salientar. «Somos almas gémeas. Fazemos anos no mesmo dia, apesar de termos alguns anos de diferença, partilhamos os mesmos gostos, temos uma visão similar em relação à mo­da. Somos uma equipa e isso é essencial para o meu trabalho porque a Carla dá-me estabilidade.» A loja e o atelier que têm no Fundão conta ainda com uma equipa de costureiras resi­dentes, garantindo a qualidade e confeção das coleções de Carlos. «Sou exigente comigo e também com os outros, mas tento ser justo em todos os momentos», diz o estilista, que veste a primeira-dama Maria Cavaco Silva.

Carla é uma apaixonada por moda e cedo aprendeu os se­gredos do negócio, sobretudo no que toca à expansão (inter­na e externa do projeto). «Compreendemos as dificuldades e as alegrias mútuas, conseguimos perceber o que cada um está a pensar sem falar. Tem sido um percurso muito interes­sante porque aprendemos com os desejos e as necessidades um do outro», diz ela. O estilo da marca reflete a criatividade de Carlos e a inspiração, muitas vezes, vem das viagens que fazem. «Viajamos muito em trabalho mas também em lazer. Por vezes, parecemos uns verdadeiros nómadas, o que nos diverte pela constante diversidade nas nossas vidas. Nada é monótono e estamos numa procura constante de ir mais além, quer com a marca quer como casal», diz o estilista.

 

Gerardo Santos/Global Imagens
Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens

PROJETOS A DOIS
Alexandra Moura e Diogo Sousa

São casados, têm um filho e trabalham juntos na marca que fun­daram em parceria com Luís Sousa, o sócio de Alexandra na em­presa com o nome da estilista. Ela é designer, ele é o responsável pela logística do negócio. «O Diogo acabou por ser atraído pela minha paixão, pela minha vontade de fazer alguma coisa de es­pecial e diferente na indústria da moda.» Juntos há nove anos, trabalham diariamente na construção de um projeto de moda de autor, concetual, com forte inspiração urbana. «A Alexandra fas­cinou-me desde o primeiro momento. Não só por ser mulher que era e é, mas também pela vastidão criativa que tem. Foi impossí­vel ficar indiferente.»

Definem os momentos para partilhar assuntos profissionais e pessoais, porque parte do sucesso da relação está na cumplicida­de que os une e na capacidade que têm em gerir as suas vidas, que se cruzam 24 horas por dia. «Não é fácil dissociarmo-nos das coisas, mas esse esforço é permanentemente conversado para podermos rentabilizar o tempo que partilhamos», diz a designer. «Quando es­tamos fora da empresa, e com o nosso filho, é sempre muito inten­so e de muita dedicação a cada um, e essa estrutura familiar é de ex­trema importância para nos ajudar no dia a dia na empresa.» Além de designer de moda, Alexandra Moura também dá aulas de Design de Moda na Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco, obrigando-a a ausências constantes, «só possíveis porque as priori­dades estão muito bem definidas. Esta é uma profissão que requer momentos de solidão, mas também pede a troca regular de ideias, de inspirações».

Catarina Vasques Rito
Fotografia: Leonel de Castro/Global Imagens