OPINIÃO

Lisboa, capital da kizomba

Dos subúrbios de Lisboa para o mundo, está a acontecer uma revolução musical em Portugal. E ninguém tinha reparado.

Aconteceu sem aviso: a kizomba explodiu. A batida africana anda a reinventar-se nos subúrbios de Lisboa. Misturou-se com hip hop, R&B, música eletrónica e agora está a espalhar-se pelo mundo. Portugal é o principal palco do fenómeno – há festas por todo o lado, concertos nas grandes salas, aulas de dança à pinha. História de uma cidade com as ancas a abanar.

 

 

A mulher tem saltos altos e pernas compridas, realçadas por umas calças justas e negras. A camisola, clara, tem uma gola larga – denuncia mais a linha de pescoço do que o peito. Tem o cabelo solto, brincos compridos, e a pele húmida do calor da dança. O homem segura-a nos braços, indica-lhe o caminho, mas dá-lhe o protagonismo inteirinho. Um, dois, três, um, dois, três. Toca uma kizomba de ritmo marcado, rostos encostados, segredos ao ouvido. Um, dois, três, um, dois, três. Na pista, a mulher sacode os pés, balança as ancas, roda e roda e roda. É africano o momento, ainda que os dançarinos nunca tenham posto um pé fora da Europa. Anda um calorzinho bom a tomar conta de Lisboa.

A cena aconteceu na última quinta-feira em Lisboa, numa discoteca no Parque das Nações. Mas podia ser em qualquer dia da semana, porque a kizomba tomou definitivamente conta da capital. Há festas constantes, mas é mais do que isso. Ontem à noite, por exemplo, o Meo Arena encheu-se para o Festival Dipanda, com artistas como Yuri da Cunha e Master Jake a marcar o compasso com ritmo de Angola. O cabo-verdiano Nelson Freitas vai tocar na maior sala de concertos do país a 28 deste mês, Anselmo Ralph a 8 de dezembro. Depois do verão mais angolano de sempre – com as canções destes artistas a ouvirem-se em todo o país, tanto nas discotecas das grandes cidades como nos bailes das pequenas aldeias –, o ritmo que se vai ouvir em Portugal nas próximas semanas só pode ser o de africanidade.

No último fim de semana, num bar de Figueira de Castelo Rodrigo, uma banda local tocava covers para cinquenta pessoas e as únicas músicas que o público pedia para repetir eram Não Me Toca, Jajão ou Bô Tem Mel, êxitos maiores da nova onda de kizomba. «Nos últimos dois anos, as coisas mudaram muito», diz Anselmo Ralph. «O público português da kizomba, que era residual, representa hoje trinta por cento das vendas. Mas não é só isso. Portugal garante prestígio a um artista africano e é um passaporte para o resto da Europa.» Os concertos que o cantor angolano tem feito em Londres, Luxemburgo, França e Suíça são disso exemplo. «Primeiro vinham só emigrantes portugueses, agora vem cada vez mais público local», diz o sétimo cantor mais rico de África, segundo a revista Forbes. «Estou a compor em inglês e em espanhol, para internacionalizar o meu internacionalizar o meu som no próximo ano. Já é tempo de perdermos a vergonha, de mostrarmos a nossa música ao mundo.»

Revistas como a Time Out de Londres e a americana Seattle Magazine têm escrito regularmente sobre a nova onda de kizomba que se ouve nos clubes destas cidades. Os Buraka Som Sistema, apesar de seguirem outro caminho na batida africana, andam há anos a recolher elogios no The New York Times, e Marfox, um DJ de origem santomense que cresceu nos bairros de lata da capital, criou uma batida negra que a Rolling Stone disse ser uma das dez coisas mais quentes que o mundo podia esperar em 2014.

Em Toronto, no Canadá, fazem-se festas de kizomba na rua durante o verão e na Austrália há dois festivais de música e dança dedicados ao ritmo africano – em Sydney e em Melbourne. «A kizomba é a nova salsa. É apenas uma questão de tempo até tomar o lugar que a música e a dança latinas tiveram nos últimos vinte anos», vaticina o cabo-verdiano Nelson Freitas – cuja música I Steel Feel for You esteve em quarto lugar no top australiano. «Mas que Portugal – especialmente Lisboa – é o epicentro desse fenómeno.»

É impossível calcular quantos milhões fatura a kizomba, em Portugal ou no mundo, mas há indicadores preciosos. A canção Bô Tem Mel, de Freitas, esteve 42 semanas seguidas no top 50 de singles portugueses. O álbum A Dor do Cupido, de Anselmo Ralph, chegou ao primeiro lugar no topde vendas – e foi a primeira vez que isso aconteceu com um artista africano. O videoclip de Não Me Toca, de Ralph, vai em mais de 36 milhões de visualizações no YouTube – e a versão satírica que Rui Unas fez da mesma canção, adaptando a letra à crise económica portuguesa, tem mais 2,5 milhões de cliques.

O investimento é cuidado. A produção dos telediscos é grande – e isso explica porque se espalham tão rapidamente nas redes sociais. «Apesar de ainda haver um preconceito intelectual em relação a este tipo de música, tentamos ter o máximo de qualidade no que fazemos», diz Ralph. «Gravamos em bons estúdios, produzimos bons vídeos, damos bons espetáculos. Mesmo que a imprensa não ligue, o público reconhece o esforço e vem atrás.»

José Moura é um dos quatro fundadores da Príncipe Discos, que produz novos artistas dos bairros africanos de Lisboa. «A kizomba não é uma coisa nova, o ritmo lânguido e sensual da música de África está em Portugal pelo menos desde os anos setenta. Crescemos com ela. Mas agora há uma novidade, que é a mistura da batida de sempre com os ritmos da black music.» Nos casos de maior sucesso – como Anselmo Ralph, Nelson Freitas, Yuri da Cunha ou B4 – há uma fusão de kizomba com o R&B de Beyoncé ou o hip hop de Jay-Z. Sons para as grandes massas, sejam em que língua forem. «Desde os anos noventa que fomos inundados com a ideia de glamour da música negra. Mulheres, joias, carros, gangsters bem vestidos. E, aos poucos, tornou-se a aspiração de quem cresceu nesses anos. A kizomba explode agora porque o Portugal dos subúrbios, branco e negro, chegou à idade adulta.»

 

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NELSON FREITAS vive na Holanda, mas tem casa em Portugal – e passa cá cada vez mais tempo. Cresceu nos bairros negros de Roterdão, «numa altura em que Michael Jackson era o rei do mundo e Hollywood tinha descoberto os filmes de breakdance». Os pais, cabo-verdianos de Santiago, ensinaram-lhe algum crioulo, pouco português e muita música africana. «Não gosto desta ideia de que a kizomba é um exclusivo angolano», diz numa noite de terça-feira, durante um jantar com amigos na Estrela Morena, um restaurante com uma cachupa de lamber os dedos na Rua da Imprensa Nacional. «O ritmo é comum a toda a música africana dos países de língua portuguesa, é a mesma ginga.» Mesmo que kizomba signifique «festa» em kimbundu, uma das línguas nativas de Angola.

À mesa estão Patrick Borges, promotor de Nelson em Cabo Verde, e Nish Wadada, antiga cantora de apoio que está a lançar-se a solo. A conversa segue em inglês. «Primeiro vem a música, só depois é que o pessoal liga à letra», assume o cantor sem problemas. «A imagem é importantíssima, porque a kizomba estava ligada a uma coisa melosa e romântica. Foi preciso dar-lhe uma volta, torná-la mais cool. E andamos há anos a trabalhar nisso.» A maior parte dos artistas faz os vídeos nos Estados Unidos, canta de óculos escuros, camisas apertadas, joias ao pescoço e nos dedos. O romantismo africano é coisa de rapaz malcomportado.

Termina-se o jantar com grogue, à boa maneira de Cabo Verde, e avança-se Bairro Alto adentro. «Toda a gente começou nisto por brincadeira, mas a coisa tornou-se séria.» Está a crescer 500 por cento ao ano, diz ele. No ano passado conseguiu encher o Coliseu, este ano tem casa reservada no Meo Arena. «Setenta por cento do público é branco, isso é uma surpresa.» Já não se mostra tão admirado com a idade das pessoas que o ouvem. «O meu público-alvo é muito jovem, vai dos 14 aos 40. Apesar de eu cantar muito em inglês, este sucesso espalhou-se de Portugal para os países lusófonos e daí para o resto do mundo.» Estados Unidos, Rússia, muita Ásia e, claro, a Austrália. Estamos no Miradouro de São Pedro de Alcântara, a cidade aos seus pés. «Esta crise permitiu às pessoas ouvirem o som dos subúrbios da cidade, deu voz a quem antes não tinha voz», diz. «E permitiu-nos sair do armário, mostrarmos o que andávamos a fazer.» É como se, nos tempos frios, toda a gente precisasse de um bocadinho de calor.

Se estamos a falar dos subúrbios é obrigatório falar dos Buraka Som Sistema, os primeiros a convocar a atenção do mundo para a africanidade lisboeta (neste caso, da Amadora). «A kizomba é que começou com isto tudo. É a base, o início da conversa», diz Kalaf Ângelo uns dias depois, durante um copo no bairro da Bica. «Havia o Eduardo Paim e o Paulo Flores, eles é que bombavam nos anos oitenta. As discotecas africanas, com o Mussulo à cabeça, enchiam. Todos os que tinham vindo de África cresceram com esse som. Mas era um nicho, não era como agora.» Ele próprio trabalhou numa discoteca africana. Dessa kizombada toda, diz, nasceu o kuduro dos Buraka, que se misturou com música eletrónica e tornou a banda famosa.

A internet permitiu aos Buraka afirmarem-se no mundo – e dá agora oportunidade a uma nova geração de cantores de chegar ao público sem a aprovação das editoras nem da crítica. «Nós operávamos em comunidades da dance music do MySpace. Era um nicho, com afinidades diretas, de primeiro grau, entre os artistas que estavam a criar algo novo.» Cresceram fora de Portugal ao mesmo tempo que iam tendo sucesso cá dentro. O primeiro álbum, em 2006, entusiasmou muita gente – e convocou atenção fora de portas. Numa altura em que o techno e o house dominavam, revelaram-se uma alternativa válida às pistas de dança.

 

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Todos os artistas africanos que agora estão a conhecer um sucesso global reconhecem a paternidade dos Buraka Som Sistema. Foram os primeiros a globalizar a música africana feita em Portugal. «Muitas vezes nos pediram para nos definirmos como angolanos, o que recusámos sempre.» Assumem-se dos subúrbios da capital portuguesa. «Lisboa é um porto de saída fantástico e tem esta condição única de contacto com África.» Nos arredores, «que são quem alimenta a cidade», o vizinho é cabo–verdiano ou angolano, guineense ou moçambicano. «Agora essa população deixou de ser uma franja. O miúdo branco fala crioulo, e o africano tem dinheiro para comprar música, ir a um concerto. Mudou isso, e com isso mudou tudo.»

Às duas da manhã de uma quinta-feira, umas boas centenas de pessoas dançam ao som de Mika Mendes. É noite de kizomba no Barrio Latino, um clube que abriu há dez anos no Parque das Nações e nos últimos tempos se converteu ao ritmo africano. As luzes vão mudando de cor e o som toca alto. As conversas fazem-se em sussurro, dois a dois, como os corpos na pista. Bebe-se drambuie e os copos abanam com a vibração das colunas. «De há três anos para cá tem sido uma explosão de kizomba tão grande que um dia mudo o nome de Barrio Latino para Bairro Africano», zomba José Ferreira, proprietário do espaço. «Quando comecei esta casa, o prato forte era a salsa, as danças latinas estavam em alta. Já não é nada assim.»

TERÇAS, QUINTAS E DOMINGOS são noites fortes para mexer a anca com som negro, ainda que mais de metade da clientela tenha pele branca. Há gente experiente nos passos, mas mesmo quem tem pés de chumbo acaba por rumar à pista. Às onze da noite, e durante uma hora, Hélio Santos dá uma aula para iniciados. «Ao fim de semana não posso, tenho sempre trabalho fora de Portugal, a ensinar kizomba em festas de outros países.» Numa T-shirt tem escrito Kizomba X-treme, o grupo de sete dançarinos que vieram de Cabo Verde para Portugal em 1999, ensinar Lisboa a rodar a anca. Agora conhece os cinco continentes.

Nuno Furtado, também professor, dá aulas de kizomba na Jazzy, uma escola de dança no Cais Sodré. Ele e o seu par, Vanda Gameira, passam os fins de semana a viajar pelo mundo, sempre para participarem em festivais de kizomba. «Quando começámos aqui tínhamos 40 alunos nestas aulas, agora temos 180», diz ele. «A escola teve um aumento de 50 por cento nas incrições este ano – e muito por causa das danças africanas.» Alemanha, França, Rússia, Dubai, Austrália, Egito, Canadá e Brasil são alguns dos destinos onde já foram dançar, dar workshops, organizar congressos.

 

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«Agora vamos preparar um curso para formar professores cá em Portugal», continua Nuno. Têm 50 inscritos, vindos de todo o mundo. A lotação há muito que esgotou e a lista de espera é grande. Há aparentemente um nicho de mercado turístico que anda a trazer dividendos à economia nacional. De volta ao Barrio Latino, nessa mesma noite, descobrem-se duas holandesas que viajaram de propósito para dançar kizomba na noite lisboeta. «Andamos a aprender em Eindhoven e viemos passar férias aqui para praticar e saber mais», diz Gitta Lamers. «Uma semana, e dançamos todas as noites.» A amiga, Aukie Ellenbroeck, reforça a ideia: «Portugal é o paraíso da kizomba. Temos muitos amigos que vêm cá por causa disso.»

Não deixa de ser curioso como o mundo está a olhar para um fenómeno que, às vezes, nasce numa barraca. É essa a história de DJ Marfox, na verdade Marlon Silva, que chamou a atenção da mais conceituada revista musical do mundo, a Rolling Stone, com a música que criava a partir da Quinta da Vitória, um gueto de Loures. Não se pode chamar kizomba ao que ele faz, mas a verdade é que não se lhe pode chamar nada – é algo completamente novo. «Quando era miúdo eu ouvia a kizomba e depois apareceu o semba, o kuduro, o hip hop e o breakdance. Eu ouvia isso tudo e comecei a fazer as minhas músicas muito cedo. Era uma misturada de tudo, com base na batucada forte.»

Marlon mudou-se há um ano para a Quinta do Mocho, um bairro social na periferia da capital. No seu quarto tem o computador onde produz o som que os Estados Unidos dizem ser uma das coisas a que o mundo deve estar atento. E, dentro de uma das gavetas, guarda um tijolo da antiga casa, foi lá que inscreveu pela primeira vez o nome que o haveria de tornar conhecido. «Era no gueto que tudo acontecia», diz enquanto nos leva a dar uma volta pelo bairro. Prédios sem fechaduras, graffitti nas fachadas e «não se preocupem, estão comigo não vos acontece nada». No ringue das traseiras de casa organizavam as festas, uma extenção de eletricidade emprestada à loja que vendia cerveja, mesa de mistura e colunas e o portátil a dedilhar a criação.

 

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«No primeiro dia de escola tu querias levar sempre um som novo, mostrar aos colegas que tinhas a melhor cena do mundo.» Punham os links no MSN e no YouTube, nada mais do que isso. E o som espalhava–se pelo gueto, sem esperança nem preocupação de sair dali. As coisas mudaram em 2007, tinha ele 19 anos. Participou num workshopda Fundação Calouste Gulbenkian e os rapazes que haveriam de fundar a Príncipe Discos ouviram-no. «Não estávamos a ouvir música de dança que nos satisfizesse, aquilo era uma coisa fresca, uma interpretação portuguesa de África feita por quem nunca lá foi», diz José Moura. Contactaram-no e ele ajudou-os a descobrir mais nomes. A editora tem hoje dez artistas vindos de toda a periferia de Lisboa – e está a fazer chegar aos palcos principais o som que não saía dos bairros.

Marfox mantém a simplicidade, não quer sair de onde vive, e acredita que é preciso tirar as pessoas do gueto e levar lá quem vem de fora. Vários jornalistas americanos foram ter com ele à Quinta do Mocho. Ele andou pelo Brasil, esteve duas vezes nos Estados Unidos, foi cabeça de cartaz de uma noite Red Bull em Nova Iorque. Japão, Sérvia, Nova Zelândia. Uma vez por mês, ele e os artistas da Príncipe tocam no Music Box, no Cais do Sodré. E se há coisa que o deixa contente é levar para o centro da cidade os amigos dos amigos. No final deste mês, os rapazes que compõem a labelvão atuar no Vodafone Mexefest, uma das grandes mostras de novas tendências musicais em Lisboa. Depois, Marfox segue com uma agenda apertada, o mundo é uma caixa de ressonância.

Está a acontecer uma coisa nova em Lisboa, sim. Esta africanidade toda entranhou–se na pele da cidade e anda a espalhar-se pelo mundo. Tem artistas mainstreame tem tentáculos alternativos, que agradam a nichos, seduzem franjas. O mundo todo anda a dançar ao ritmo de uma cidade que já não é África nem Europa nem América, e no entanto é isso tudo – e ainda mais qualquer coisa.

 

[Publicado originalmente a 16 de novembro de 2014]

Ricardo J. Rodrigues
Fotografia de Jordi Burch