OPINIÃO

Fora de formato

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Da ascensão das modelos «com curvas» ao uso excessivo do Photoshop, acusado de promover aspirações impossíveis, nunca o conceito de beleza foi tão debatido. No centro da discussão, a indústria da moda vai arriscando sinais de que a variedade também pode existir num mundo onde, acima de tudo, se vendem sonhos.

Chama-se Lammily, é feita de plástico, tem 27 centímetros e é um sucesso viral. Mas como é que uma boneca chegou aos sites de notí­cias e redes sociais de todo o mundo? A ex­plicação é surpreendentemente simples: Lammily tem – à escala – as medidas médias da adolescente norte-americana comum de 19 anos, usa pouquíssima maquilhagem e veste-se de forma a promover um estilo de vida saudável.

Foi no ano passado que Nickolay Lamm apresentou pela pri­meira vez esta boneca realista, com o slogan «Average is beautiful» (médio é bonito). Rapidamente começaram a chegar pedidos de pais que queriam saber onde comprar esta boneca. Não podiam – na verdade, a Lammily ainda não existia. Cenário que só mudou no passado dia 5 de março quando, em menos de 24 horas, através de uma iniciativa de crowdfunding, o empresário norte-america­no nascido na Rússia conseguiu angariar os 95 mil dólares (cerca de 70 mil euros) necessários para produzir a Lammily. Sete dias depois, o financiamento tinha ultrapassado os 399 mil dólares, com a ajuda dos mais de 11 mil financiadores que, em troca, irão receber a Lammily – cada boneca custa 18 euros.

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A Lammily é apenas a mais recente e mediática de uma série de sinais que o mundo tem vindo a dar de que algo na forma como vemos e aceitamos o conceito de beleza vigente está a mudar. Na primavera de 2012 uma norte-americana de 14 anos conseguiu um feito que ela própria julgava impossível: levar a revista Seven­teen a rever o uso do Photoshop. Tudo começou com a criação de uma petição online em que a adolescente pedia à revista que pu­blicasse pelo menos uma fotografia não alterada por mês. Depois de reunir 84 mil assinaturas, Julia e um grupo de outras rapari­gas entregaram a petição na redação da revista em Nova Iorque, onde organizaram um pequeno protesto. Os responsáveis da re­vista ouviram-as: num tratado publicado no editorial, a Seventeen comprometeu-se a «nunca mais alterar a cara ou a forma do cor­po das raparigas» ao retocar as imagens e a «celebrar todos os ti­pos de beleza».

No início deste ano, outro nome chamou a atenção para a im­portância da promoção do conceito de beleza real: a Aeri. A marca de lingerie, cujo target passa sobretudo por adolescentes e jovens adultas, lançou a campanha Aeri Real, em que nenhuma modelo passou pelo filtro do Photoshop. «Não vamos continuar a retocar as nossas raparigas nem vamos usar mais supermodelos», garan­te a marca no site da campanha.»

Cada vez mais, o conceito de beleza parece andar de mãos dadas com variedade. Sem cor, formas ou tamanhos definidos. Mas está a indústria da moda a par desta mudança? A pergunta leva-nos a Paris, em 2005. Jean-Paul Gaultier escolhe a ex-modelo plus size (tamanho grande) Crystal Renn para integrar o desfile primavera/verão. A decisão gera controvérsia. Apesar de estar hoje longe das formas curvilíneas que a tornaram famosa, Crystal seria capa da Vogue francesa em 2010 e rosto da campanha de Gualtier outono/inverno 2011. No mesmo ano, John Galliano apostou em Johanna Dray, também ela longe das medidas habitualmente vistas na moda. E em 2008, Whitney Thompson, uma modelo plus size, venceu a décima temporada do popular concurso America’s Next Top Model, criado e apresentado pela ex-modelo Tyra Banks. Em 2010, a modelo Tara Lynn, uma das modelos plus size mais bem-sucedidas do mundo, foi capa da Elle francesa – repetindo o feito em 2013 na edição espanhola, depois de em 2012 ser fotografada para a Vanity Fair italiana. No ano passado, a GQ Austrália incluiu nas suas páginas um editorial com a modelo Robyn Lawley. Na capa, sob o título «Curve appeal» (o apelo das curvas), desafiavam os leitores: «Rotulem Robyn Lawley como uma modelo plus size, se quiserem. Ou então adotem o nosso adjetivo preferido – hot.» A modelo foi escolhida para dar a cara à linha plus size lançada pela Mango no início deste ano.

Em fevereiro, Londres recebeu a segunda edição anual do British Plus Size Fashion Weekend, um evento de moda destinado a «aumentar, educar, capacitar e apoiar a indústria plus size do Reino Unido, ligando os vendedores aos consumidores». Evento único? Longe disso – em Nova Iorque, o Full Figure Fashion Weekend vai já no seu sexto ano e, em Paris, aproxima-se a data da segunda Pulp’Fashion Week, eventos de moda em que os tamanhos grandes são a regra e não a exceção. Mas é ainda em eventos específicos que estas modelos têm hipótese de brilhar, continuando, regra geral, afastadas dos principais desfiles de moda.

E EM PORTUGAL?

Cláudia Monteiro, relações-públicas da Go Models, agência que representa também modelos plus size, afirma: «Se é certo que o mercado ainda é escasso, há cada vez mais procura do chamado modelo real.» A decisão de passar a incluir as modelos plus size no seu portfólio de agenciadas nasceu há dois anos de duas realidades: por um lado a maior procura das marcas e, por outro, o surgimento de cada vez mais raparigas que em vez de perder peso decidem abraçar as suas medidas. «A realidade é que há cada vez mais mulheres grandes», resume Cláudia.

Diana Santos é uma dessas mulheres. «Sempre tive o sonho de ser modelo, mas era um bocado gozada por ser cheiinha», explica a modelo, de 16 anos, que em agosto do ano passado se juntou à Go Models. O número 42, que veste atualmente, faz dela uma candidata recente à categoria de modelo plus size. «Até há pouco tempo as modelos de tamanho grande tinham de vestir a partir do 44. Mas havia uma série de miúdas que ficavam no meio, não tinham onde se inserir», explica Cláudia. Hoje, as modelos plus size podem vestir números que começam no 40. Patrícia Coelho, outra agenciada da Go Models, tem 19 anos e veste o 44. À pergunta se alguma vez considerou perder peso para poder ser modelo responde: «Eu nem pensava em tentar. Um dia, um amigo falou-me na Go Models e aceitaram-me. Acho que o mais importante é sentir-me bem com o meu corpo.»

Outra agência que também representa estas modelos em Portugal é a Glow Models, que se associou, em 2012, à One Stop Plus, do grupo Redcats no concurso A Moda não tem Tamanho, dedicado aos tamanhos grandes. Na altura, Paulo Pinto, da Redcats Portugal, explicava: «Queremos continuar a promover e a elogiar a feminilidade da mulher portuguesa e a encorajá-la a aceitar-se tal como é, porque a beleza não tem tamanho e não deve ser limitada a questões de peso.»

Ainda assim, há quem defenda que os modelos plus size (tamanhos grandes) são sobretudo «uma tendência criada pela imprensa». É o caso de Hélio Bernardino, diretor da Elite Lisbon, parte da maior rede de agências do mundo, que explica que todos os meses recebe um briefing com as tendências internacionais. «Há uma ou outra marca, mas é uma coisa que não funciona ao nível de negócio», afirma, acrescentando que não acredita que os modelos plus size possam vir a ser uma tendência no futuro. «Há cada vez mais o culto do ego da autoimagem, os ginásios estão completamente cheios… As pessoas querem ter um ar saudável.»

Na L’Agence, outra das maiores agências portuguesas, também não há modelos XL: «O nosso board de agenciados tem de refletir as necessidades do mercado e a verdade é que não existe procura deste tipo de modelo», explica Sérgio Mota Soares, assessor de imprensa da agência.

Mas há marcas que podem estar a contribuir para que o mercado se abra, cada vez mais, a estas modelos.

ADAPTAR-SE AOS NOVOS TEMPOS

Para uma mulher que vista a partir do tamanho 44, uma visita ao centro comercial pode ser um verdadeiro desafio: em muitas marcas este é precisamente o maior tamanho que se consegue encontrar. No entanto, já existem empresas preocupadas em fazer chegar as suas peças a um universo cada vez maior de mulheres.

É o caso da espanhola Mango, que em janeiro deste ano lançou a linha Violeta, com tamanhos que vão do 40 ao 52, ou da H&M, que tem disponível a linha H&M+, com peças que chegam ao 54. Num segmento de mercado mais alto, a Adolfo Dominguez é outra das marcas que também oferecem linhas plus size: neste caso, a AD+ para mulheres com tamanhos entre o 44 e o 54.

Mas além das marcas que incluem nas suas coleções linhas maiores, existem outras que fazem das mulheres plus size o único target. Uma das mais reconhecidas é Elena Mirò. Em 2005, a marca conseguiu o feito histórico de levar as suas peças, pela primeira vez, à Semana da Moda de Milão – um feito que se repetiu até 2010, quando deixou de constar do calendário oficial do evento, com a justificação da organização de que «algumas marcas não estavam em sintonia com o que o pronto-a-vestir deve ser». Mas isso não impediu a marca de continuar a mostrar as suas coleções em desfiles independentes, com o apoio de personalidades tão influentes como a diretora da Vogue Itália. Outra marca italiana que tem contribuído para o elogio dos tamanhos grandes é Marina Rinaldi, do grupo Max Mara (ver caixa)

Outra empresa que dedica atenção a este mercado é a Navabi, que desde 2009 reúne num único site (www.navabi.co.uk) as propostas de moda plus size de mais de cem marcas premium, como Anna Scholz, Elena Mirò, Lacoste, Elisa Cavaletti, Igor Dobranic, Kekoo e muitas outras. Além de proporcionar às mulheres um espaço onde podem encontrar moda plus size de qualidade inclui ainda uma secção de conselhos assinada por profissionais e mulheres, entre as quais modelos plus size, colunistas e bloggers.

Apesar de o mercado parecer estar cada vez mais atento às necessidades das mulheres, o plus size continua a ser um tema polémico. A Mango, por exemplo, teve de lidar com uma petição online que pedia a retirada imediata da campanha Violeta, sob o pretexto de que «apresentar um tamanho 40 como um tamanho grande é ter uma visão totalmente distorcida da realidade». No final de março, a petição contava com cerca de setenta mil assinaturas. Também a H&M não escapou à indignação dos clientes quando, no início deste ano, promoveu a H&M+ com modelos que, segundo os seus críticos, estavam longe de ser grandes (ainda que a marca tenha garantido que todas as modelos vestiam pelo menos um 44).

Mas no fundo, com ou sem polémica, o tema está lançado. O tema e a eterna questão: o que é, afinal, um «tamanho grande?»

 

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O MUNDO CURVY DE MARINA RINALDI

Em 1980, Marina Rinaldi nasceu como a primeira marca plus size premium do mercado. Trinta e quatro anos depois, reabre o seu espaço em Lisboa.

A nova flagship store Marina Rinaldi, inaugurada a 27 de março no número 258B da Avenida da Liberdade, em Lisboa, pretende ser um reflexo da marca: elegante, plena de glamour e feminilidade. Peças de cores fortes, padrões ousados, tecidos delicados e pormenores sofisticados para que as mulheres plus size brilhem e se sintam confortáveis, elegantes. Tem sido assim desde que a marca nasceu, em 1980, no grupo Max Mara, com o objetivo de produzir peças de qualidade em sintonia com as tendências da moda para mulheres com tamanhos a partir do 46.

O segredo do sucesso, explica Lynne Webber, managing diretor da marca, está no trabalho de investigação. «Os nossos designers estudam as clientes, a forma como a roupa lhe fica, os tecidos…» Criar moda plus size não passa simplesmente por fazer tamanhos maiores. Há décadas de trabalho contínuo e diário investido em descobrir materiais que possam ser esticados sem que fiquem danificados, em perceber as linhas que «melhor abraçam» as formas naturais das mulheres e as enaltecem, em perceber como se pode conjugar conforto e elegância de forma que esteja o mais perto possível da perfeição. A diferença nota-se no corte das peças, no modo como os pormenores conseguem transformar um simples cardigã ou uns jeans num statement de estilo. «Não há absolutamente nenhuma peça que uma mulher plus size não possa usar», defende Lynne Webber

Mas não é só pela roupa que Marina Rinaldi se destaca – é também pela forma como se posiciona e comunica. Desde 1981 que Marina Rinaldi faz o elogio das formas curvilíneas em campanhas publicitárias, que, até à data, eram inexistentes. A marca foi mesmo a primeira a introduzir o termo plus size, substituindo o tradicional outsize. A intenção era clara: libertar a moda plus size da carga negativa e a mudança foi acompanhada pelas lentes dos fotógrafos e por modelos que são a personificação da essência da marca: «Procuramos mulheres bonitas, na casa dos 30 anos, que sejam positivas, que demonstrem atitude, com as quais as nossas clientes se possam identificar», resume Lynne Webber. India Hicks, Carré Otis, Kate Dillon, Tatjana Patitz, Crystal Renn e Candice Huffine são algumas das modelos que já assumiram o papel de embaixadoras da marca. Em 2013, a campanha Women Are Backlevou a marca a convidar 12 bloggers plus size para serem fotografadas por Riccardo Vimercati – os retratos foram expostos mais tarde na loja que Marina Rinaldi inaugurou em Milão, Itália. A exposição associada a esta campanha, que pretendia celebrar as curvas, a feminilidade e a confiança, fortaleceu a ideia de que a beleza não está associada ao tamanho. No início deste ano, Marina Rinaldi apresentou a coleção de vestidos de noite Red Carpet, que promoveu reunindo pela primeira vez as modelos plus size mais conhecidas do mundo: Tara Lynn, Robyn Lawley, Jennie Runk, Candice Huffine, Alessandra Garcia, Lizzie Miller e Katy Hansz.

Laura Patrício
Fotografia: Marina Rinaldi