OPINIÃO

Entrevista a Carlos Barbosa

Os carros e as estradas, os jornais e a política, numa entrevista de vida ao presidente do ACP.

Carros, media, Sporting: paixões não lhe faltam. É presidente do maior clube português, o ACP, foi dono do Correio da Manhã, lançou O Independente, quis um canal de televisão, organiza o Rali de Portugal e não para. Garante que não tenciona reformar-se e que é um independente a quem ninguém cala, porque tem as contas em dia e paga todos os impostos. «Desbocado», ataca políticos e poderosos e contesta ideias e leis. A história do homem apaixonado por Vespas e Renault 4, que tem um Ferrari, um Bentley e um Porsche, é filho de um radiologista e de uma professora de yoga, e começou a fazer dinheiro na tropa, a fotografar os militares que iam para o Ultramar.

As suas grandes paixões são os carros, os media e o Sporting. Se pudesse, comprava um Bentley, o The New York Times ou o Sporting?
Comprava uma rádio. Da comunicação social, é a única coisa de que tenho saudades. Não tenho saudades do Correio da Manhã, perdeu todo o carisma que tinha quando o Vítor Direito o fundou. O que realmente ainda mexe comigo é a rádio. Lançámos a primeira rádio pirata em Portugal, o Correio da Manhã Rádio, com emissores escondidos nos ares condicionados das Amoreiras e retransmissores postos, às escondidas, nas antenas da RDP.

Ainda há espaço para ter mais rádios em Portugal?
Há, para ter rádios diferentes. Hoje são todas iguais. Mesmo a TSF, que procura ser uma rádio de notícias, não o é, é uma rádio da oposição. E as outras são comerciais, de entretenimento. A Antena 3 ou a Nostalgia são gira-discos enormes.

E qual é a mesmo a sua maior paixão? Os carros, os media, o Sporting?
O Sporting é uma paixão desportiva, não tem que ver com uma atividade em que goste de estar. Desde que estou no ACP também me apaixona a segurança das pessoas, a mobilidade. Em Portugal é mais complicada, porque as câmaras não sabem o que é. Começa à porta de casa e não na estação de comboios.

Tem feito vários alertas, nomeadamente críticas, em relação às mudanças de trânsito, por exemplo, em Lisboa…
Nós fizemos estudos técnicos na Avenida da Liberdade, que provaram que a Rotunda do Marquês, como está, não funciona. Foi uma decisão de criança do presidente da câmara e do Manuel Salgado, para deixar obra feita. Nós até acordámos que podia haver uma terceira circular por fora, dissemos sempre que ela só funcionaria se tivesse mais uma faixa.

Defende, por exemplo, taxas de entrada na cidade?
São uma utopia, como se provou já em Londres, onde custou a reeleição ao presidente da câmara. O sistema de controlo da entrada é duas vezes mais caro do que a receita. Há cidades históricas como Roma, Milão, que têm vinhetas nos carros de residentes e comerciantes. Isso faz sentido.

Quais são os grandes problemas das estradas portuguesas?
Quando se fizeram as SCUT – uma ideia muito boa do Guterres e do Cravinho –, aproveitou-se a estrutura rodoviária e puseram–se duas faixas. Assim que decidiram taxá-las, deixaram de existir alternativas. E as estradas nacionais não foram reparadas. Se for pela antiga estrada nacional para o Porto demora seis horas.

E perco-me…
E perde-se, exatamente. Porque as cidades, e bem, começaram a fazer jardins, rotundas, porque já não eram cidades de atravessamento. Voltaram a ser. A Mealhada tem seis ou sete rotundas. Com transportes pesados, autocarros,  que têm de dar às vezes prioridade a bicicletas ou mata-velhos… são as seis horas.

Tem travado muitas batalhas aqui no ACP. Ganhou ou perdeu mais?
Aqui as batalhas não são de ganhar ou perder, são de alerta.

Desde quando é um apaixonado por automóveis?
Acho que desde que nasci. Era muito pequenino, passávamos férias na Murtosa, Aveiro, e o primeiro carro que entrou na Murtosa foi o do meu pai. Juntávamos quatro moliceiros e pregavam-se tábuas, e o carro atravessava a ria. Era um Ford A. Sou cunhado de um dos melhores corredores de todos os tempos em Portugal, o Ernesto Neves. Aos 17 anos era eu que lhe tratava da publicidade. Foi o primeiro carro a ter publicidade, da Boutique Vanitas, em São Sebastião da Pedreira. De uma senhora que conhecia.

Com que idade é que começou a conduzir?
Com 18. No meu tempo, para se guiar aos 18 anos, tinha de se ter seguro de carta, porque legalmente só aos 21. Antes disso, guiava em ruas mais escondidas em Vila do Conde, nas férias. Um Renault Dauphine da minha mãe.

O primeiro veículo que teve foi uma Vespa…
Exatamente. Três Vespas 50… Ia para o Liceu Pedro Nunes de Vespa. Fiz toda a minha vida de moto. Ainda tenho duas. Naquela altura ter uma moto era uma coisa fantástica. O meu pai deu-me a moto porque passei o quinto ano. Mas depois tramei-me porque por causa da moto chumbei o sétimo [risos]. Ele arrependeu-se…

E não lhe tirou a moto?
Não, porque era o presente de anos. Estava no Colégio Militar. Fui para o Pedro Nunes… Gostei imenso de andar no Colégio Mi litar mas queria sair para vir para a vida civil. Chumbei numa pré-combinação com o professor Reis Pinto, que era muito amigo do meu pai. Disse-lhe «vou chumbar», e ele disse-me: «O teu pai mata-te.» E eu: «Está bem, mas eu quero ir lá para fora, onde tenho os meus amigos.» Fiquei sentado em cima do plinto duas vezes e chumbei a ginástica. Como tinha passado todas as provas literárias e as físicas, fui para o Pedro Nunes. Ao pé havia o Jardim Cinema que tinha o bilhar, e a gente passava lá as tardes. A moto foi a minha desgraça e chumbei no sétimo ano.

E qual foi o seu primeiro carro? Lembra-se?
Muito bem. Um Honda 360, ED-60-00. Comprei-o por 25 contos. Pedi dinheiro emprestado ao meu pai.  O Liceu Francês tinha cursos à noite. Estudava à noite e trabalhava durante o dia. Para pagar o empréstimo.

Fazia o quê?
Trabalhava no Instituto Nacional de Estatística. O presidente era amigo de um tio meu. As cunhas funcionavam tanto como hoje e ele meteu-me lá. Só que descobri que havia uma estatística da batata errada. Fui ter com o meu chefe e ele disse-me para não abrir a boca. E eu respondi que não. Puseram-me a andar. Entrei para o Diário de Lisboa, com a ajuda do meu primo António Pedro Ruella Ramos, de quem tenho uma saudade infinita, foi a pessoa que me deu a mão. Fui para a secretaria de dia e estudava à noite.

De todos os carros que já teve ou que tem, de qual é que mais gostou?
Das Renault 4L. Tive três e fiz todo o meu serviço militar com uma. Estive em Tavira um ano. Todos os fins de semana vinha à sexta-feira à noite e ia no domingo. Demorava umas quatro horas,  por Alvalade… do Sado e fazia-se a serra toda para chegar a Faro. Ia sair da tropa no dia 1 de maio de 1974 e estava na ação psicológica do quartel que desencadeou o 25 de Abril, de Caçadores 5 ali em Campolide, ao lado da prisão.  Tinha um negócio. Todos os batalhões que iam para África dormiam uma noite lá. Comprei um quadro com umas folhagens por fora e os soldados passavam um a um, eu fotografava, e depois fazia postais deles de camuflado a irem para o Ultramar e mandava para as famílias, era a despedida. Como trabalhava no Diário de Lisboa tinha desconto na Foto Sport. Levava-lhes cinco tostões por cada coisa e pagava dois. Fiz uma fortuna com as tropas que iam para Angola, era o fotógrafo oficial do quartel. Era uma fila indiana de 400, 500 pessoas! Uma pipa de massa.

Quantos carros já teve?
Muitos. Muitos mesmo, nem sei dizer.

Qual foi o mais caro que comprou?
Um Ferrari, quando vendi o Correio da Manhã. Ainda o tenho. Um Ferrari Scaglietti, preto, forrado a preto, que adoro. Na altura os carros começaram a sair com as mudanças no volante, mas mandei pôr caixa manual para ser um verdadeiro Ferrari. Foi o carro mais caro que comprei. Uma prenda para mim próprio.

Quantos carros tem hoje?
Cinco, um dos quais do ACP.

O Ferrari foi a maior extravagância que já fez neste mundo das corridas e dos carros?
Foi. Acho que não é uma extravagância. Trabalhei tantos anos, vendi bem o Correio da Manhã, tive o prémio do meu trabalho. Era  um sonho de toda a vida, tive dinheiro para o comprar e comprei-o. E está em meu nome, não numa sociedade, nada. Há pessoas que têm os Ferraris guardados na garagem. Eu não! Ando com tudo o que tenho, é para mostrar. Tenho um Bentley, que comprei em segunda mão.  E um Fiat 500 e um Porsche.

Além disso, tem uma coleção enorme de miniaturas…
Está encaixotada. Filhos pequeninos, foram pegando neste, naquele, foram estragando.

Foi pela paixão dos automóveis que se tornou presidente do ACP?
Não! Engraçado. Quando vendi o Correio da Manhã achei que me ia reformar. Fazer negócios para mim. Mas o Dr. Miguel Horta e Costa convidou-me para ir para a Portugal Telecom para a gestão da publicidade do grupo. Criei uma empresa chamada PT Meios. Só no primeiro ano poupámos cinco milhões de contos. A determinada altura, num fim de semana, o Domingos Piedade e o Luís de Freitas desafiaram-me a concorrer para o ACP. E eu disse, porque não?! Juntei-me à Vera Nobre da Costa, na altura a presidente da McCann, e minha amiga desde miúda, e pedi-lhe uma campanha à americana. E fizemos! Uma campanha divertidíssima, com posters na rua, cartazes, debates e tudo. Tinha como meus opositores dois grandes amigos meus. O Miguel Pais do Amaral – fomos ambos fundadores de O Independente – e o Mira Amaral, irmão do ministro, que conheço de toda a vida. Eram debates entre amigos. Analisei muito bem o clube, quais eram as possibilidades. E ganhei com uma maioria larga. Mas continuei amicíssimo dos dois…

Termina o mandato para o ano. Vai recandidatar-se?
Vou. Acho que a obra que foi feita nestes dez anos está finalmente a começar a dar frutos. O ACP era obsoleto, velho, estava virado para dentro e muito pouco para fora. Hoje é o maior clube português, de longe, pagantes tem mais cem mil do que o Benfica.

Quanto é que aumentou em número de sócios?
Perdemos, por ano, cerca de 12 mil a 13 mil sócios. Porque morrem, crise económica, se zangam… Ganhamos cerca de 23, 24 mil. Quando entrei, tínhamos 167 mil sócios, agora temos 300 mil.No fundo, independentemente de manter-se como clube que é, o ACP é uma grande empresa de serviços. Assistência em estrada, médica, seguros… E temos os outros serviços, ensinar às senhoras a mudar uma roda, a documentação, mais rápido do que na Loja do Cidadão. Estamos em negociações com o Governo para emitir passaportes, que já fizemos. E para aligeirar o IMT, que é o Instituto de Mobilidade e Transportes, não faz sentido hoje uma revalidação de uma carta de condução demorar um ano. Fazemos 28 mil cartas por ano.

Neste momento, o ACP abriu-se ao grande público?
Completamente, senão morria. Transformei o ACP em várias empresas, as que são rentáveis continuam, as que não são, fecham.

Voltemos à estrada. Acha que há mesmo muita inconsciência dos portugueses ao volante?
Grande parte dos desastres dão-se porque as pessoas não sabem guiar, acho que o ensino em Portugal está completamente obsoleto, os exames são permissivos. Vão para a escola de condução para tirar a carta, não é para aprender a conduzir, e depois vão para as estradas aprender a conduzir e matam pessoas. Neste novo Código da Estrada alguma coisa já foi alterada mas não é suficiente. Para se ter carta no Mónaco são quatro exames, dois de dia e dois de noite. E um deles tem autoestrada, tráfego e chuva! As pessoas são muito pouco conscientes de que têm uma arma na mão. Não têm consciência de que o automóvel mata se não for utilizado corretamente.

Também defende penas mais graves para o alcoolismo?
Completamente. As penas do alcoolismo deviam ser gravíssimas. Logo à primeira, ficar pelo menos um ano sem carta. Essas pessoas têm de ser banidas do mundo automóvel porque são criminosos que andam à solta.

Já teve muitos acidentes?
Nunca. Bati uma vez na Rua da Lapa, por trás.  Sustos tive vários, porque as pessoas, em Portugal, acham que o pisca-pisca lhes dá direito a fazer o que querem.

Transgride os limites muitas vezes ou não?
Muitas vezes. Sobretudo nas autoestradas. Não ando a 120km/h nas autoestradas.

E acha que esse limite deveria ser alterado?
É um disparate. Devia haver 130km/h a seco e 110km/h à chuva. E a GNR tem de saber que se um Mercedes for a 140km/h não vai em perigo, mas um Fiat 500 vai. A GNR está a fazer um bom trabalho e a PSP também, no sentido de deixar cada vez mais a caça à multa e apostar mais na consciencialização.

Dos carros para o automobilismo. Quando é que essa paixão pelas corridas, pelo mundo automóvel, nasceu?
Era miúdo, tinha 17, 18 anos, quando comecei a namorar a minha primeira mulher, que era irmã do Ernesto Neves. Acompanhava-o nas corridas todas, nos ralis, em todo lado. Foi aí que nasceu também a minha grande paixão.

E competiu…
Cheguei a competir. Fiz o Troféu Visa, fiz o Troféu AX, fiz uma ou duas corridas em Formula Four, fiz ralis, ainda fiz algumas coisas giras. E hoje faço os clássicos.

Passou a paixão da competição ao seu filho [Miguel Barbosa, piloto]?
Quando ele tinha 3 anos, cheguei ao quarto dele e estava com o cobertor que usava para adormecer e um volante em cima, para não escorregar, mais um martelo entre duas almofadas a fazer de caixa de velocidades. O volante era de um antigo Formula Four meu. «Estou tramado. Este vai ser corredor.» Meti-o nos karts, Formula Four, tudo isso. Como fiz também muitas corridas em todo-o-terreno, um dia convidei-o para ser meu pendura. Ele não lia nada as notas.  «O pai está completamente doido, se ler uma nota enjoo, vim aqui só fazer-lhe companhia!», disse-me.  Fizemos duas provas, na segunda partiu-se um tirante da direção e demos oito cambalhotas no carro. Para mim acabou, mas ele pediu-me para reparar o carro. E foi aí que começou a carreira dele de sucesso no todo-o-terreno, num Mitsubishi velho.

Uma das suas grandes batalhas tem sido pelo Rali de Portugal…
É uma coisa dramática de organizar porque todos os anos ando de mão estendida a pedir dinheiro ao Governo. Custa à volta de três milhões, o Estado dá-me um milhão e meio. Tudo o resto é patrocinadores. O Laurentino Dias [ex-secretário de Estado] disse que dava e não me deu nada. Enganou-me, mentiu-me e tive um prejuízo brutal. Prometeu-me 500 mil euros em cada ano e levei uma bolada de um milhão. É sempre um drama todos os anos. Não faz sentido, sendo o Rali de Portugal o maior evento desportivo depois do Euro 2004, que todos os anos traz um retorno de cem milhões, 55 milhões em dinheiro real, em três dias, em comidas, dormidas, o Estado não suportar. Devia ter um contrato de programa… Há muitos países que querem entrar para o campeonato do mundo, a Rússia, a China, o Brasil. Vai só haver seis provas do campeonato do mundo na Europa, Portugal é considerado um dos melhores ralis do mundo, e estamos a discutir um milhão e 500 mil. Mas depois vemos a Câmara de Lisboa dar, através da ATL, três milhões e meio para os barcos da Ocean Race encostarem aqui dois dias. São coisas que não consigo perceber.

É presidente do WRC também?
Sou presidente da comissão do WRC. O campeonato do mundo, no ano passado, teve 60 milhões de pessoas a ver, é muita gente.

Também defende o regresso da Fórmula 1?
Isso custaria qualquer coisa como 20 milhões por ano. O próprio Ecclestone quer voltar a Portugal, já mo disse, mas como tem quem lhe dê dinheiro nos países do Médio Oriente, praticamente o dobro, vai para lá. A Fórmula 1 é um negócio. Temos um circuito ótimo para a fazer, só tem de ter outra vez homologação: o Algarve. O Estado ia ter um retorno de 100 a 300 milhões. Não há dinheiro, não se pode ter vícios, como é evidente. Mas muitas vezes esbanja-se quando as verdadeiras coisas que podem dar um retorno muito grande ao país…

Passemos ao mundo dos jornais. Começou pela secretaria do Diário de Lisboa. Da secretaria para a publicidade, como é que foi?
Era o tempo do Vítor Direito, do Norberto Lopes, do Assis Pacheco… Estava na secretaria e pediam-me as fotografias em chumbo para levar. Depois passámos para o offset. Como estava farto de estar na Luz Soriano num buraco, pedi ao meu primo para ir para a parte comercial. Fui para a Rua Castilho e comecei a ser adjunto do diretor comercial. Comecei como angariador, andava com a pastinha de um lado para o outro. Ia muitas vezes tomar um chá com uma madame que tinha uma loja, para ir buscar um anunciozinho de 500 escudos. A seguir fui convidado pelo Vítor Direito para ir para A Luta, o jornal contra o PCP. E depois fundámos o Correio da Manhã, com o Nuno Rocha.

Como é que surgiu essa decisão de fundar um jornal mais popular?
Foi uma ideia genial do Nuno Rocha e do Vítor Direito. O Vítor Direito tinha discussões de morte com o Mário Soares porque o Soares achava que A Luta tinha de ser um jornal político e o Vítor Direito dizia que o jornal ia falir, mais dia menos dia, porque aquilo não era nada. Era um homem de esquerda, mas não gostava que o controlassem. Um dia cansou-se e quis fazer um jornal popular. Não popularucho, como é hoje. Teve uma aceitação muito boa. Lançámos muita gente na profissão. As pessoas tinham O Dia ou O Jornal Novo, de direita, tinham o Avante! ou O Diário, de esquerda, tinham o Portugal Hoje, do Partido Socialista. O Correio da Manhã ninguém sabia do que era. Isso foi um grande sucesso.

Qual era o seu papel?
Fomos nós que quase inventámos os patrocínios em Portugal. As atividades que começaram a ser publicitadas, quando antigamente não eram, desde o golfe ao ciclismo. O Correio da Manhã começou a dar muito desporto que não era o futebol e isso trouxe muita popularidade ao jornal e muitos leitores.

Nessa altura, os jornais davam muito mais dinheiro…
Há uma negação total em Portugal: o bolo publicitário, mais de 50 por cento, vai para a televisão. No estrangeiro é exatamente o contrário. Porque a publicidade em Portugal, na televisão, é extremamente barata. As pessoas com dez mil euros vão para uma televisão. Isto é impensável lá fora. A imprensa e as revistas lá fora é que têm o grande bolo. Os jornais estão a passar por grandes dificuldades, e os grupos de comunicação social por arrasto, porque têm a concorrência das plataformas digitais, como o Expresso Diário e o Observador. Os jornais diários em papel não vão acabar mas vão passar por algumas dificuldades.

Quer dizer que vão ter de se reinventar ou ir para o online?
Vão ter de se reinventar e, sobretudo, não terem custos tão grandes. Não consigo perceber como é que conseguem pagar, porque o preço de capa não paga sequer o papel que consomem.

Então não é dos que acham que os jornais em papel vão morrer?
Não, de todo. Vão continuar por muitos e bons anos. As pessoas que têm o hábito da leitura, a partir de determinada idade, as que usam os transportes públicos, por muito que tenham o seu iPhone e iPad não largam o jornal. No jornal económico gostam de ver o pormenor, no jornal diário gostam de ver a história. Os jornais impressos vão continuar a ter um grande sucesso. Mas mudaram radicalmente. Alguém diria, há 30 anos, que o USA Today teria o sucesso que tem, com o formato que tem, com o número de páginas que tem? E é líder nos Estados Unidos. É preciso reinventar toda uma série de coisas. Claro que há fórmulas que estão bem feitas, ninguém mexe no Expresso, mais caderno, menos caderno… Mas criaram o Expresso Diário. As plataformas digitais começam a ser um negócio e a preparar o futuro para poderem jogar em termos de captação de receitas.

Arrependeu-se de ter vendido o Correio da Manhã?

Não. Não tinha muitas opções na altura, porque o Vítor Direito queria vender, estava cansado. E nunca me passaria pela cabeça ficar sócio do Paulo Fernandes, até porque era um arrivista nos media. Não me identificava nada com ele.

É verdade que se zangaram?
Houve ali umas contas que não foram bem feitas, uma coisa com a Segurança Social que negociámos que fosse paga em publicidade e ele me obrigou a pagar em dinheiro.

Quanto é que ganhou?
Alguns euros [risos].

Fundou o Correio da Manhã, O Independente, revistas. Não pensa mesmo voltar à comunicação social?
Tenho as maiores saudades de O Independente e daquela dupla Miguel Esteves Cardoso/Paulo Portas… Era um jornal extraordinário. O que se vivia naquela redação, as denúncias que nós recebíamos para depois serem investigadas…

Hoje era possível fazer um jornal assim?
Era possível se eles se tivessem mantido. Se o Paulo não tem ido para a política, O Independente seria um sucesso.

A maior deceção nessa área foi não ter tido um canal de televisão?
No concurso para os privados, havia um profissional, a SIC, do Balsemão e bons profissionais, e o outro, que era nosso. Todas as estrelas, estavam no projeto da TV1, o meu projeto, do Proença de Carvalho, Berlusconi, Correio da Manhã e a Associação Nacional de Farmácias… Mas foi dado à Igreja, apesar de não fazer sentido. Conforme veio a provar-se… Faliu ao fim de pouco tempo.

A que acha que ficou a dever-se essa decisão?
O Cavaco foi muito pressionado pela Igreja. Na véspera da decisão do Conselho de Ministros tínhamos a certeza de que o canal seria nosso. Mas, nessa noite, a pressão da Igreja foi brutal. Hoje teríamos dois canais de televisão privados com uma pujança completamente diferente, podiam entender-se, até em termos de preços.

Outra paixão, o Sporting. É de família?
O Sporting é de família. Desde miúdo que ia ver os jogos ao domingo à tarde. Ia sempre com um tio meu, ferrenho sportinguista, que o meu pai não ligava nada ao futebol e era do Belenenses. Aliás, também tive de ser sócio do Belenenses, mas por causa da namorada… Tive de me fazer sócio para poder namorar com a minha primeira mulher. A tia dela era a sócia número 7 do Belenenses. Íamos para o Estádio do Restelo, a tia sentada ao meio, ela do lado esquerda, eu do lado direito, e dava–lhe a mão por trás da tia Albertina, para a tia não ver. Ia aos domingos namorar para o Estádio do Restelo.

E pelo Sporting, tem feito algumas loucuras ou nem por isso?
Tive uma experiência de oito meses na gestão, mas tive o azar de estar no meio de uma direção desastrosa. Aumentámos os patrocínios na altura. Mas realmente a direção era desastrosa, um conjunto de pessoas que não tinha unidade, que o Godinho Lopes juntou para que não concorressem contra ele. Ele próprio não era um líder para estar à frente de um grande clube. O Sporting teve hipóteses boas em termos financeiros para refazer a sua dívida, mas comprou-se muitos jogadores, 19. A parte comercial sofreu uma grande reformulação, mas não chegou ao fim porque passados  oito meses percebi que não estava ali a fazer nada. O Godinho Lopes não percebia rigorosamente nada, nem de empresas nem de futebol. Foi um descalabro. Tinha um compromisso que até ao fim da época não dizia nada mas comecei a ser insultado pelo Dias Ferreira na televisão e tive de explicar porque é que tinha saído do Sporting. Tive pena.

Acha que era possível pôr o Sporting ao nível de Benfica e FC Porto?
Comercialmente ainda se pode fazer muita coisa. Um clube desportivo é uma coisa apaixonante, veja o que é que um sportinguista está a fazer no Benfica, o Domingos Soares de Oliveira. Tem de haver estabilidade. Quando o Luís Filipe Vieira entrou ninguém acreditava nele, mas o Benfica está no rumo certo como clube. O FC Porto beneficiou de contingências e de histórias, que são conhecidas publicamente, para dominar o futebol português. Isso trouxe-lhe um acrescento de receitas. Mas, por outro lado, com tudo o que ganhou internacionalmente, devia ser um Barcelona ou um Real Madrid e não é. É um clube regional. O futebol em Portugal pode dar coisas fantásticas, mas grande parte dos dirigentes desportivos são uma cambada de vaidosos, querem é dizer que são presidentes. O trabalho nos clubes tem de ser feito discretamente, no gabinete, na sapa.

Passemos à política. Acusam-no de ser desbocado, dizer mal de toda a gente.
Desbocado, às vezes, poderei ser. Mas sobretudo sou um homem independente e é isso que irrita muita gente. Como não devo nada a ninguém, não tenho um imposto em atraso, nunca escondi um tostão, podem vasculhar. No tempo do Sócrates ia todos os meses às finanças! Chegaram a pedir-me recibos de farmácias de 2005. O chefe da repartição já se ria, tal era ridícula a perseguição… Já me arrombaram a casa, roubaram uma coleção de relógios, quando eu fiz a queixa na Judiciária contra os ministros socialistas, partiram-me o carro…

Houve causa-efeito nisso?
Hoje sou capaz de pensar que sim.

Como é que está o processo de denúncia sobre as PPP?
Na Judiciária. Estão a investigar nos bancos, nas PPP. Já me partiram o carro duas vezes, mas não é isso que vai demover-me.  As PPP são um escândalo. Para onde é que foi esse dinheiro, quem ganhou, porque é que os ministros Mário Lino e Paulo Campos determinaram tantas PPP, sobretudo quando o encargo estava para o concessionário e de repente passou o para o Estado? O Estado pagava pelas SCUT, e bem, 200 milhões. Porque é que de repente passou a pagar 1200 milhões? Porque é que estão os bancos por trás disso, já que são donos das concessionárias? E onde é que está o dinheiro? Foi isso que nos levou à nossa queixa [feita pelo ACP à PGR]. Não podemos estar a pagar todas essas estradas, porque não há utilizadores suficientes, com a crise.

Isso são guerras políticas?
Não, de todo. Quando pus o processo no DIAP estava o Sócrates no governo, mas a investigação começou 18 meses antes. Assim que se começou a falar que as SCUT iriam ser pagas.

Sofreu muitas pressões?
Tive muitos telefonemas, anónimos. Mas passaram-me ao lado. Quero ir até ao fim da investigação.

Também já teve polémicas com gente do PSD.
Imensas! Dizem que odeio o António Costa, não tenho ódio nenhum, tenho ódio ao trabalho que fez como ministro da Justiça e da Administração Interna. Foi um desastre. Quis acabar com a Prevenção Rodoviária Portuguesa, não acabou e tem um processo de quatro milhões e meio contra o Estado. Acabou com a Brigada de Trânsito da GNR, com a Direção-Geral de Viação, criou a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, perderam–se 70 mil cartas e temos um ano de espera para revalidar a carta. Tenho um azar que ele calhe sempre à minha frente.

Pode vir a ser primeiro-ministro, caso ganhe as primárias do PS…
Desde que seja um bom primeiro-ministro, acho ótimo.

Com Rui Rio também se chateou. E com Rui Moreira.
Se o Rali de Portugal não for no Porto só se deve, única e exclusivamente, ao Dr. Rui Rio. O Rui Moreira depois entrou naquela campanha eleitoral, disse que eu tinha bebido uns copos a seguir ao almoço e que as contas dele não eram as contas à moda do ACP… isso está a correr em tribunal.

Fez parte da lista de Fernando Seara à Câmara de Lisboa?
Para a assembleia municipal. E tem sido uma deceção muito grande. Discute-se essencialmente política e não os problemas da cidade. Só tenho ido às sessões que me interessam.

É um defensor de consensos, de um grande consenso?
Sou. Neste momento, por exemplo, está a discutir-se a privatização da Carris e do Metro. Nunca pode ser entregue à câmara. Não têm capacidade, dinheiro, gestão, nada! Tem de ser dado a profissionais! Porquê esta vontade política de querer controlar? É tacanhez política. As pessoas não têm mundo. Somos um país adiado.

Já se consegue ver o início do fim da crise através das estradas?
Consegue-se. As autoestradas tiveram um decréscimo grande, quase de 4,7 por cento ao ano, e no último relatório da Brisa já se vê um crescimento. Mas tivemos a sorte de Lisboa e Porto se tornarem cidades da moda. Temos de aproveitar. E já se sente um vento de a economia começar a renascer. Mas o trabalho feito por este Governo teria sido feito por qualquer um. Estamos a ser governados pela senhora Merkel que está a receber milhões à nossa conta…

É um homem de direita?
Sou um homem de centro-direita.

Sabe-se pouco de si, a nível pessoal. Quem é o Carlos Barbosa?
É um homem feliz, casou duas vezes com duas mulheres excecionais, tem três filhos excecionais. Uma com 39, um com 35 e um com 11. Tenho cinco netos. Três da minha primeira filha Marta e dois do meu segundo filho, o Miguel.

É um bon vivant?
Sou! Não pretendo levar dinheiro para a tumba, portanto o que tenho, gasto com os meus amigos, com os meus filhos. Quando morrer… espero que seja só aos 95 anos, espero que não haja dinheiro nenhum para contar e que o tenha gastado bem.

Nasceu onde?
Em Lisboa, em São Sebastião da Pedreira, em 1950. Tenho três irmãs mais velhas e um irmão mais novo.  Andei no Liceu Francês, depois fui para o Colégio Militar e depois para o Pedro Nunes. Passava as férias em Vila do Conde. Viajo muito hoje em dia. O Carlos Barbosa adora divertir-se…

As mulheres também foram uma perdição?
Tenho mais amigas do que amigos, porque acho que as mulheres são muito mais leais. Estão sempre a dizer que sou um mulherengo porque gosto mais de estar com as mulheres do que com os homens. É-me indiferente.

Ia perguntar-lhe qual era a sua relação com a religião…
Sou católico mas tenho muita admiração pelo budismo. A minha mãe era ortodoxa, aprendi muito com ela.

 O que é que faziam o seu pai e a sua mãe?
O meu pai era médico radiologista, um dos cinco de Lisboa. E a minha mãe era professora de yoga, viveu sete anos lá fora onde tirou um curso superior. Naquela altura – ela morreu em 1990, novíssima, com 60 anos – era a única professora em Portugal com curso superior. Era muito virada para as coisas orientais e transmitiu isso aos filhos. Hoje trato-me muito com homeopatia.

Liga muito a questões astrais?
Leio muito sobre as mudanças astrais. Tenho um astrólogo conhecido com quem falo, mas porque é meu amigo.

É milionário?
Não, de todo. Ganhei muito dinheiro com a venda do Correio da Manhã, mas gastei em património. Tenho um excelente património que vou deixar aos meus filhos. Mas gozei a vida. Tenho momentos de gostar de estar em casa sozinho para pensar na minha vida, mas não olho para trás, e digo «estou velho, não gozei a vida». E o gozar a vida não é ter dinheiro, atenção! Pode ajudar…

É um utilizador das novas tecnologias, das redes sociais?
Sou um fanático. Se for à minha página do Facebook estou sempre a refilar com tudo e todos. As novas tecnologias, a mim que viajo muito, ajudam-me imenso a trabalhar, a despachar, a decidir, a falar, a ver dossiers.

Já gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?
Adoro conduzir. Em Lisboa, dá-me jeito ser conduzido. Mas mal saia de Lisboa, vá para onde vá, sou eu que conduzo.

Qual é a melhor estrada do mundo onde já conduziu?
Na costa amalfitana, em Itália. É a estrada mais bonita do mundo! É inesquecível, com os «esses» sempre rente ao mar, escarpas, barcos antigos, hotéis… Depois há os castelos do Loire, o Douro…

Com toda a velocidade a que anda, nunca pensou em reformar-se?
De todo! Reforma é uma palavra que não faz parte do meu vocabulário.

Filomena Martins
Fotografia de Orlando Almeida / Global Imagens