OPINIÃO

A nova geografia do ébola

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O pior surto de sempre do vírus ébola parece estar longe de controlado. E já chegou aos EUA e à Europa. O infeciologista Jorge Atouguia fala da nova geografia da doença.

Esta é a maior epidemia de ébola de que há registo e parece longe de estar controlada. Espanha tem um caso. Temos razão para estar preocupados?
_Temos. É possível que surjam casos de ébola por cá. Para resolver os problemas pontuais que possam acontecer precisa­mos de ter planos de contingência.
Não existem já? O INEM fez no aeródromo de Cascais um simulacro com a chegada de um doente com ébola.
_Eles existem, mas existem locais e situa­ções onde é difícil implementá-los. Se entra nas urgências um indivíduo com febre, náu­seas e vómitos não se vai pensar à partida que tenha ébola. Eu tenho algum receio de que a informação não chegue a alguns profissio­nais de hospitais mais periféricos ou que, mesmo chegando, eles não estejam suficientemente alerta para o problema. Se entra al­guém num banco de urgência com algum ti­po de sangramento, a ideia é logo evitar que a situação evolua e acorrer à pessoa sem ter nenhum tipo de cuidado. Este tipo de «ultra­passagem» dos planos de contingência faz dos profissionais de saúde um grupo de risco.
Mesmo não fazendo parte de um grupo de ris­co, os «cidadãos comuns» estão dependentes do funcionamento dos planos de contingência. Pouco ou nada podem fazer para prevenir.
_Desde que não se tenha tido contacto com pessoas vindas de uma área afetada, o risco é negligenciável. Do ponto de vista do nosso quotidiano, não deve haver nenhum tipo de preocupação,as pessoas podem estar perfei­tamente descansadas.
A verdade é que esta epidemia não está con­trolada nem isolada. Como é que se chegou a esta situação de falta de controlo que não aconteceu nos outros surtos na República De­mocrática do Congo, no Gabão, no Ugan­da e no Sudão?
_Houve uma série de fatores que condicio­naram a situação atual. Desde logo, os paí­ses onde surgiu o surto. A Guiné-Conacri, a Libéria, a Serra Leoa e a Nigéria, além dos deficientes serviços de saúde que têm, são sí­tios onde nunca tinha existido nenhum caso. Isto quer dizer que as autoridades de saúde destes países não estavam preparadas para pensar em ébola quando surgiram os pri­meiros casos. Depois houve também a inex­periência das instituições mundiais com um surto que, a partir de certa altura, passou a ter uma escala inimaginável, por oposição aos outros que foram muito limitados e pu­deram ser mais facilmente contidos.
Deviam ter sido tomadas medidas de outro tipo logo no início da epidemia?
_Muitas vezes não é avaliado pelas institui­ções mundiais que um surto de ébola não é apenas uma infeção por um vírus altamente contagioso. É isso, mais tudo aquilo que en­volve do ponto de vista social, antropológi­co, religioso, político. Estas pessoas têm, por exemplo, crenças religiosas que as fazem ter atitudes contrárias às medidas de proteção, como lavar os seus mortos antes das cerimó­nias fúnebres. É preciso bloquear este tipo de atividade, mas fazê-lo vai contra convic­ções profundas das populações. Como a Ser­ra Leoa e a Libéria, dois países onde recentemente houve guerra civil e onde a autorida­de é muito frágil e as medidas de disciplina são difíceis de impor.
Este novo medicamento experimental, o Zmapp, pode ser uma esperança para o tra­tamento ou estamos longe disso?
_Acho que estamos a trabalhar completa­mente no escuro. A literatura não é muito clara em relação ao medicamentoe, estan­do ainda em fase de estudo. Há algum se­cretismo, até porque esta é uma área sensí­vel do ponto de vista da biossegurança. Mas a liberalização de utilização do produto é uma estreia. Nunca a Organização Mun­dial de Saúde [OMS] tinha autorizado um produto numa fase tão precoce de testes.
O que mostra a preocupação com a situação atual.
_Mostra um bocadinho o desespero. No século xx, em África, foram muito utiliza­dos medicamentos experimentais. Aplica­vam-se a pessoas que estavam a morrer e já não tinham nada a perder, eram as cha­madas terapêuticas de compaixão. Com a entrada em vigor de novas normas éti­cas, científicas e de respeito pelos procedimentos dos ensaios clínicos isso acabou nos anos 1970. Neste caso, chegámos de novo ao ponto de dizer: «Não há mais nada para fazer, experimentamos isto.»
O ébola voltou a despertar a atenção para a medicina tropical e do viajante. Quem é que deve ir a uma consulta do viajante?
_Sempre que vamos para um local onde as condições do ambiente são diferentes daque­las que temos no nosso quotidiano e apresen­tam um risco para nós. Não é só fazer a con­sulta quando temos de levar uma vacina obri­gatória como a da febre-amarela…
Isso não significa que tenha de ser um país tropical… É que há um pouco essa ideia.
_Quem vai para os Himalaias também pre­cisa de fazer uma consulta do viajante porque vai lidar com problemas ligados com a altitu­de, o frio, o mau saneamento básico e águas contaminadas. Situações que são um risco para a saúde, presentes no ambiente que o viajante vai encontrar e que não é o de um país tropical. É este o objetivo da consulta do viajante: alerta-o para os riscos que vai ter e explica como pode minimizá-los. Há três áreas que temos de analisar: o próprio via­jante e a sua saúde, os problemas do ambien­te para onde vai deslocar-se e a interação en­tre o viajante e o ambiente, ou seja, as ativi­dades que vai desenvolver.
 A abordagem nos casos em que a pessoa vai emigrar e não apenas de visita é diferente?
_Sim, completamente diferente. Habi­tual­mente somos muito mais agressivos no aconselhamento a um viajante de curta duração, fazemos o possível para a pessoa não entrar em contacto com alguns riscos. Já os viajantes com uma estada longa, de meses ou anos, terão necessariamente de se adaptar às condições que vão encontrar. E há também medidas em relação aos ris­cos no local que temos de modificar. Por exemplo, em relação à prevenção da malá­ria, para as pessoas que viajam por pouco tempo, está indicada a profilaxia. As que vão para ficar durante um ano ou dois nu­ma área endémica, obviamente, que não podemos sujeitá-las a tomar um medica­mento para uma doença que não têm, du­rante tanto tempo… Temos é de lhes expli­car, por um lado, os procedimentos e as estratégias para evitar o contacto com a doença e, por outro, a saberem lidar com a doença logo que ela se manifeste.
 Falou em  tomar um medicamento para uma doença que não se tem. Na verdade, este é um ti­po de consulta muito diferente: tem à sua frente uma pessoa que não está doente, logo, que deve ter muito menos predisposição para ouvir reco­mendações e cumprir os conselhos médicos.
_Absolutamente! Esse é mesmo um dos grandes desafios da consulta do viajante. O viajante não é um doente, não encara  a consulta com o mesmo «peso»  Além disso, ao contrário das outras consultas nas quais somos nós, médicos, que ouvimos o pacien­te, esta é uma consulta na qual eu falo muito mais do que o viajante. Isto quer dizer que a pessoa tem de estar disponível para ouvir fa­lar de doenças que não tem e que muitas ve­zes nem quer saber que existem. Uma área que devia ser desenvolvida na consulta do viajante é a da comunicação para a saúde, de forma a desenvolver estratégias de comuni­cação eficazes para sensibilizar as pessoas.
A globalização das doenças é uma preocupa­ção para a comunidade científica?
_Tem sido.  E tem que ver com as altera­ções climáticas que fazem que os vetores das doenças comecem a estabelecer-se em zonas subtropicais – como aconteceu com o dengue na Madeira – e, depois, com o avião: qualquer pessoa com uma doeça infeciosa se desloca para qualquer parte do mun­do em poucas horas. Em muitos locais, os técnicos não estão preparados para li­dar com novas doenças , e em muitos paí­ses não existem sequer técnicas de diag­nóstico para elas. Dantes havia uma área da medicina tropical chamada medicina geográfica que localizava as doenças por áreas específicas. Isto era extremamente confortável porque não tínhamos de pen­sar nas doenças que existiam na China ou na Tailândia, por exemplo.
 Não tínhamos de pensar nas doenças dos ou­tros… Mas agora as doenças dos outros tam­bém passaram a ser nossas. Umas vezes via­jam elas até nós, outras viajamos nós até elas.
_Sim, e um dos exemplos mais recen­tes nem foi com uma doença tropical, foi com a gripe A, que rapidamente se espa­lhou. Mas em relação às doenças tropi­cais, em Portugal, que está numa zona de charneira Norte-Sul, temos um grande problema: os profissionais de saúde ain­da não «pensam tropical». E, ao pensa­rem só nas nossas doenças, podem dei­xar passar outras que vão ser muito des­confortáveis para o paciente ou, pior, que podem ser fatais, como é o caso da malá­ria. Temos de ser muito claros: um doen­te vem de uma área endémica de malá­ria e que chegue a qualquer hospital deste país com febre. Por favor, até prova em contrário, é malária. Mandá-lo para ca­sa a tomar paracetamol durante 48 horas – para ver no que dá – não é o procedi­mento correto. É preciso fazer o diagnós­tico imediatamente. Pode fazer a diferen­ça entre a vida e a morte.

QUEM É JORGE ATOUGUIA?
Médico especialista em Infeciologia e Medicina Tropical e doutorado em Medicina Tropical pela Universidade Nova de Lisboa, foi diretor da Unidade de Clínica das Doenças Tropicais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e tem experiência de atividades de ensino e cooperação em saúde em África e na América Latina. Tem-se dedicado às áreas das doenças emergentes e da medicina do viajante.

Sofia Teixeira
Fotografia de Leonardo Negrão/Global Imagens