OPINIÃO

De que precisamos para ser felizes?

De humor, amor e alegria. É o que diz a filósofa catalã Elsa Punset, que ensina a treinar o cérebro para o otimismo.
Alex Río

Asseguradas as necessidades básicas, basta termos humor, amor e alegria para sermos felizes e otimistas. A filósofa catalã Elsa Punset veio a Lisboa falar do determinismo das emoções e ensinar a treinar o cérebro para o otimismo.

Do que precisamos para ser felizes?
Humor, amor e alegria. E de um toque de transcendência para evitar o aborrecimento.

As pessoas são mais razão ou emoção?
Essa é uma das grandes descobertas deste século: não podemos confrontar razão e emoção. Na base de cada pensamento racional está uma emoção. As emoções ditam como nos sentimos e como nos comportamos. Este é o segredo que garante a liberdade de viver de forma consciente e deliberada. Não é magia. É inteligência emocional.

Diz que as emoções se propagam como vírus. É possível evitar ser contagiado pelos maus sentimentos?
Ser contagiado pelas emoções dos outros, sobretudo as negativas, é um mecanismo inato e fisiológico que nos ajuda a aprender e a sobreviver. Imagine-se, por exemplo, um bando de pássaros a debicar numa praceta quando um gato se aproxima sorrateiramente. O primeiro pássaro que vê o gato desata a voar e todos os outros o seguem sem saber porquê! Pode ser que assim consigam salvar a vida. Mas nem sempre temos de obedecer a estes mecanismos programados no cérebro. Para evitar o contágio das emoções negativas, devemos escolher conscientemente aquelas que nos preenchem a vida e que treinam o cérebro de forma positiva. O livro Uma Mochila para o Universo tem muitas sugestões a este respeito.

Como é que as boas emoções nos tornam melhores pessoas?
Os bebés humanos são capazes de realizar atos altruístas sem nenhuma expetativa de recompensa, mesmo quando é exigido um esforço considerável e diante de uma pessoa desconhecida. Sabe-se que nos humanos o altruísmo e o sentimento de justiça aparecem em idades muito precoces, concretamente em bebés de apenas 15 meses. Apenas um por cento da população retira prazer da crueldade, são aqueles a que chamamos psicopatas. Nascemos compassivos e empáticos e à maioria de nós gera ansiedade ser mesquinhos ou injustos. Suspeito que sofremos muito mais por este motivo de que aquilo que julgamos.

Felicidade. Somos o que construímos ou o que o acaso e a sorte nos reservam?
As duas coisas. A sorte existe, porém podemos agarrá-la e sistematizá-la através dos princípios da boa sorte que recomenda Richard Wiseman, o psicólogo britânico que fundou a Escola da Boa Sorte. O primeiro princípio da boa sorte é reconhecer ou gerar oportunidades. É uma coisa que nos deveríamos propor todas as manhãs depois do pequeno-almoço e ao longo do dia: falar com alguém diferente, ir comprar o pão por outro caminho, ler algo novo, entrar num lugar desconhecido, provar um prato diferente… São gestos simples que podemos aplicar hoje mesmo para gerar boa sorte, isto é, oportunidades de mudança benéficas.

É mais fácil ser feliz ou infeliz?
Há um elemento que nos ajuda a entender porque temos tendência para complicar a vida e a ser infelizes, é o que denominamos por «rumo negativo» da mente, isto é, a tendência que o nosso cérebro, desconfiado e medroso, programado para sobreviver, tem para agir como um filtro estranho que amplifica e emite sinais de alarme perante qualquer eventual perigo e, em contrapartida, filtra aquilo que não interessa ou o que é abertamente positivo. Ao cérebro importa mais a sobrevivência do que a felicidade. Por isso, é tão importante aprender a treinar, deliberadamente, o cérebro no positivo. Até à década de cinquenta do século passado, poucas pessoas faziam exercício físico. Na altura, não se sabia dos benefícios que resultam para a saúde. Hoje, já estamos habituados a treinar o corpo mas ainda não estamos acostumados a treinar o cérebro, por exemplo para sermos mais otimistas. Para adquirir um novo hábito mental ou emocional, é preciso exercitar o cérebro como um músculo.

Como podemos tornar-nos pessoas otimistas?
O otimismo é necessário porque nos convida a descobrir, a arriscar, a imaginar um mundo melhor que nós mesmos somos capazes de construir. Os otimistas são cidadãos ativos. Há exercícios que ajudam a consolidar o ato do otimismo. Sugiro que se faça uma lista com três coisas: uma recordação alegre, o nome de uma pessoa de quem gostemos e um desejo para o futuro, uma coisa que se deseje mesmo… Depois, pensar intensamente nos desejos da lista: fechar os olhos e tomar todo o tempo de que se necessite para sentir essas emoções positivas… Associar uma cor ou símbolo a esses sentimentos positivos que nos fazem sentir bem, fazer vários círculos com essas cores e símbolos e colá-los onde os possa ver bem. Rodear-se destes círculos e quando olhar para eles voltar a sentir as boas emoções que geram as boas recordações, os entes queridos, os sonhos. Pouco a pouco, treina-se o cérebro para que gere de forma habitual o bem-estar e o otimismo das emoções positivas. Podemos fazer este exercício no trabalho, em casa… Levar os nossos círculos coloridos sempre e colocá-los em locais visíveis. Lembrarão a importância da força e do otimismo.

O sonho comanda a vida?
Os sonhos e a magia escondem-se neste universo deslumbrante que mal conseguimos decifrar. Viver de costas voltadas para tudo isso empobrece-nos imenso. Temos de conseguir encaixar os sonhos no nosso dia a dia limitado e prosaico. Só assim poderemos viver em vez de apenas sobreviver.

Com a crise e o desemprego que atingem portugueses e espanhóis, que fazer para evitar sentimentos de raiva e desespero?
Está a chegar ao fim a era industrial, baseada numa sociedade hierarquizada e obediente, em que os cidadãos delegavam o seu poder nos políticos eleitos e esperavam que aqueles decidissem por eles. Esta crise é um convite para recuperar o poder que cedemos e para nos tornarmos no dia a dia cidadãos responsáveis e ativos. Temos os meios e os conhecimentos para o fazer. Não é tempo para a raiva e para o desespero, pois com isso não conseguimos nada. É tempo para o otimismo pragmático.

Nos tempos que vivemos, o que nos pode fazer mais felizes: o amor e uma cabana ou trabalho e pão na mesa?
Que boa pergunta… Porque não nos ensinam algumas respostas que conhecemos desde pequenos? O que pesa mais na nossa balança da felicidade? O dinheiro? A saúde? O afeto? O trabalho? Cuidar dos outros ou ocupar-se de si mesmo? Ter hobbies ? Que tipo de experiências devemos incentivar? Sabemos que o dinheiro influencia muito a felicidade se as pessoas não tiverem as necessidades básicas asseguradas. Mas se tiverem as necessidades básicas satisfeitas, um inuit na Gronelândia ou um masai que vive numa cabana em África são tão felizes como os cidadãos dos Estados Unidos que vivem confortavelmente. A saúde, a educação, o estado civil, têm um peso de apenas dez por cento na nossa balança da felicidade. Já a necessidade de afeto é enorme e pesa muito. Em Uma Mochila para o Universo dou muitas pistas neste sentido.

Dizem que o amor é cego. Concorda?
Dizemos que o amor é cego, mas a verdade é que não nos ensinam quase nada acerca dele. No entanto, nenhum sentimento é mais crucial nas nossas vidas. O amor guia-nos, dá-nos esperança, entristece-nos e, acima de tudo, move-nos. De quanto amor precisamos? Como posso saber quando consigo realmente ligar-me aos outros? Que sentidos e que gestos importam para nos ligarmos aos outros? Porque é que o tato é tão importante para sentir o outro? E as redes sociais, servem para nos ligar? O que impede que nos possamos ligar aos outros? Sabemos responder a tantas perguntas, porque não as aplicamos às nossas vidas?

La Mirada de Elsa é o nome da rubrica que tem no programa Redes, da TVE. O que é que aprendeu com as partilhas dos espetadores?
Em La Mirada de Elsa vamos para a rua conhecer as emoções das pessoas: perguntamos como se sentem, como convivem com as emoções e sugerimos formas concretas para as gerir. As filmagens dos programas são muito exigentes, mas as reações das pessoas, sempre calorosas e gratas, são gratificantes. E é magnífico sentir que podemos ajudar muitas pessoas a inspirar e a transformar as suas vidas.

No livro Uma Mochila para o Universo conta algumas histórias das suas filhas. Como é que elas mudaram a sua vida?
Contagiaram-me com três elementos-chave da felicidade: amor, gratidão e viver no presente com alegria e curiosidade. Além disso, nunca me deixam descansar, o que me esgota mas também me impede de ser preguiçosa.

Os filhos tornam-nos melhores pessoas?
Embora nem sempre consigamos, os filhos desafiam-nos a ser generosos e flexíveis. São duas caraterísticas muito úteis para aumentar as possibilidades de sobrevivência e felicidade pessoal.

Ser filha de Eduard Punset [conhecido advogado, economista, professor universitário, divulgador de ciência e político espanhol] é amor e orgulho ou também é uma fonte de pressão?
O meu pai é generoso e tem um grande sentido de humor. Além disso, tem um enorme sentido de liberdade individual. Talvez por isso tenho a fasquia muito alta, mas nunca me senti julgada nem pressionada.

O que é que tem dentro da sua mochila?
Humor, amor e alegria.

 

QUEM É ELSA PUNSET?
Estudou filosofia, humanidades e jornalismo e há muito que investiga o papel da inteligência emocional na tomada de decisões e nas relações com os outros. Comunicadora nata, La Mirada de Elsa , a rubrica que assina no programa Redes , da TVE, é um sucesso em Espanha e na América Latina. Esteve em Portugal para apresentar o terceiro livro, Uma Mochila para o Universo .

 

 

 

Célia Rosa
Fotografia: Alex Río