OPINIÃO

Tal Ben-Shahar: «A felicidade depende da forma como olhamos o mundo»

O escritor e conferencista não é fã de livros de auto-ajuda, que prometem a felicidade em dez passos, mas garante que esta não é tão difícil de alcançar como pensamos.

Escritor, conferencista e antigo professor de Psicologia Positiva e Psicologia da Liderança, em Harvard, onde se formou em Filosofia, Psicologia e Comportamento Organizacional, Tal Ben-Shahar ficou mundialmente conhecido como o homem que dava «cursos de felicidade» – os mais procurados da prestigiada universidade norte-americana. Não é fã de livros de auto-ajuda, daqueles que prometem a felicidade eterna em dez passos, mas garante que a felicidade não é tão difícil de alcançar como pensamos.

Tal Ben-Shahar

Quem o ouve, fica com a ideia de que é fácil ser feliz. Porque é que a maioria das pes­soas não o é?
Primeiro, porque as ideias são fá­ceis de perceber mas difíceis de apli­car. A chave é fazer delas hábitos. Se­gundo, porque as expetativas das pessoas sobre o que é a felicidade são geralmente erradas. A dor e o so­frimento fazem parte da vida, exceto da dos psicopatas. Ou dos mortos. As nossas expetativas têm de ser realis­tas, porque se pensamos que vamos estar felizes o tempo todo, inevitavel­mente sentir-nos-emos frustrados.

A forma como olhamos a realidade pode ser uma das chaves para uma vida mais feliz. Há uma predisposição maior do ser humano para ver o lado negativo?
Sim. E há razões para isso. Histori­camente, o pessimismo era uma vantagem evolutiva, porque havia mui­tos perigos e tínhamos de estar sempre a olhar para trás para sobreviver. Mantemos a estrutura mental e a he­rança genética dos nossos primitivos antepassados, que é pessimista e preocupada e ansiosa. Por outro lado, as coisas negativas são a exceção e por isso são essas que chegam às pri­meiras páginas dos jornais – terrorismo, acidentes, guerras, ódios, mortes – enquanto todas as coisas boas que acontecem todos os dias, em todo o mundo, a toda a hora, não são notícia. E isso distorce a realidade.

Porque é que há pessoas que têm tu­do para ser felizes e não são e outras, que têm uma vida terrível, ; mantêm o otimismo?
Porque, garantidas as necessida­des básicas – comida, casa, saúde, educação –, a felicidade depende da forma como olhamos o mundo e do nosso estado de espírito e não do es­tado da nossa conta bancária. Mas dinheiro não contribui para a felicidade, o que contribui é estar com as pessoas que amamos e que nos amam, os amigos e a família, fazer exercício físico regular, expressar gratidão pe­lo que temos e não tomarmos as coi­sas, e as pessoas, por garantidas. O problema é que cada vez mais pes­soas procuram a felicidade no lugar errado.

Os livros que têm a frase «como ser feliz» no título vendem muito.
Sim, mas muitas das mensagens transmitidas por alguns desses livros levam a mais frustração a longo pra­zo porque prometem a felicidade fá­cil, para a vida toda, como os sorri­dentes autores na capa. É necessário uma visão mais realista da felicidade e da vida.

Não é fã de livros de autoajuda?
Sou fã da autoajuda porque acre­dito que as pessoas podem ajudar-se a si próprias, mas não sou fã de li­vros que prometem de mais e ofere­cem de menos. Prometem felicidade eterna quando não podem garanti-la. Ninguém pode.

Disse na sua conferência que nin­guém viria ajudar-nos. A felicidade depende só de nós?
Não. Claro que as circunstâncias ex­ternas e o ambiente e as pessoas que nos rodeiam são determinantes. Mas não temos controlo sobre o que os outros fazem ou dizem, temos é sobre o que dizemos, pensamos ou fazemos, e por isso devemos focar-nos nas nossas ações e no que podemos fa­zer, dadas as circunstâncias. É mais fácil ser feliz num ambiente em que to­dos são solidários e amigos e genero­sos, mas a realidade não é sempre assim. Trata-se de lidar com a realidade da melhor forma que pudermos.

A resiliência é um dos aspetos mais importantes para uma vida feliz. Co­mo se treina?
A resiliência é como um músculo e, paradoxalmente, a melhor forma de lidar com a adversidade é sofrê-la. Para fortalecer os músculos, tem que os exercitar, pondo-os sob ten­são. Para ganhar força psicológica, se quer cultivar a resiliência duradou­ra, tem de pôr as pessoas perante dificuldades. Por isso, quando falo com pais, sublinho a importância de não protegerem demasiado os filhos e de lhes colocarem dificuldades e contrariedades, para que aprendam a lidar com elas. É muito importante que as crianças aprendam a lidar com os fa­lhanços e ganhem tolerância à frus­tração. Isto é fundamental para a resi­liência e a felicidade ao longo da vida.

Neste tempo das novas tecnologias e redes sociais, ser feliz é mais fácil ou mais difícil?
Muito mais difícil. Mil amigos no Fa­cebook não substituem um melhor amigo real e infelizmente as amiza­des estão a desfazer-se à medida que as relações entre as pessoas se es­tabelecem online. Os estudos dizem que os amigos e as relações são um elemento essencial da felicidade. Te­mos de tornar uma prioridade das nossas vidas a criação de relações reais, cara a cara.

O seu trabalho muda vidas?
É um privilégio trabalhar num cam­po como a psicologia positiva, por­que, de facto, a pesquisa nesta área pode mudar vidas. Mudou a minha, para melhor. Vejo as emoções como o grande igualador, porque, boas ou más, as emoções tocam toda a gente, em todo o lado, independentemente da cultura, do estatuto social ou do ní­vel de educação. E ajudar pessoas a tornarem-se um pouco mais felizes, estejam em Portugal ou nos EUA, na África do Sul ou no Japão, é a parte mais importante do meu trabalho.

[Esta entrevista foi publicada originalmente na Notícias Magazine em março de 2015]

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