OPINIÃO

Ofício

Pensando bem, é incrível que os senhores do mundo real, do «vais ver quando tiveres responsabilidades», do «isso não passa de um idealismo», aceitem dinheiro ganho desta forma. Cada cêntimo ganho com a escrita literária é uma vitória sobre os cursos escolhidos apenas para assegurar a saída profissional.

O meu pai era carpinteiro e vendia objetos de madeira que construía, instalava‑os em casas. Esse era um trabalho que toda a gente entendia bem. Alguém precisava de um objeto para cumprir alguma função, falava‑lhe disso, ele tirava as medidas ao espaço com uma fita métrica e fazia uma porta, uma janela, uma mesa. As pessoas pagavam‑lhe. Quando fechavam a porta, quando observavam o inverno através da janela, quando almoçavam à mesa, sabiam o que tinham comprado.

O que vendo eu a quem me procura? Tenho os meus pensamentos, observo‑os, identifico‑os, avalio‑os e escolho alguns que tento reproduzir num modelo de palavras. Essa estrutura é um caminho invisível que, depois de ser colocado ao alcance de outros, consoante a sua vontade e entendimento, os levará a ideias. No fundo, durante mais ou menos parágrafos, pensamos em alguma coisa ao mesmo tempo.

Enquanto sociedade, parece‑me sinal de otimismo que alguém consiga levar uma vida prática – pagar supermercado, parquímetro e impostos – com este trabalho. Pensando bem, é incrível que os senhores do mundo real, do «vais ver quando tiveres responsabilidades», do «isso não passa de um idealismo», aceitem dinheiro ganho desta forma. Cada cêntimo ganho com a escrita literária é uma vitória sobre os cursos escolhidos apenas para assegurar a saída profissional.

Cada dia passado a escrever e cada conta paga são uma desforra pelos estudantes de Direito sem vocação, pelos bancários à espera da reforma para serem pintores impressionistas. Ler é estar atento, é estar presente. Viver também é estar atento e presente. Viver não é sempre ler, é muitas outras coisas, mas ler é sempre viver. Esse é o produto concreto e invisível que as palavras transportam.

Sou escritor, vendo objetos que construo com palavras. Às vezes, ofereco‑os, mas preciso de viver, tenho contas e responsabilidades. Há gente que ainda guarda em casa obras feitas pelo meu pai, que morreu há vinte anos. Também eu tento que as minhas obras durem, mas sei que a intempérie não perdoa. Ainda assim, o meu brio é o trabalho honesto. Foi o meu pai que me ensinou essa dignidade.