OPINIÃO

Os melhores pais do mundo? Somos nós

Alimentação saudável, brinquedos educativos, roupas ecologicamente responsáveis, viagens seguras, escolas que respeitam o ritmo dos alunos. Os super-pais informados, preocupados, arrumados, responsáveis e metódicos (riscar o que não interessa) sabem hoje mais sobre os filhos do que alguma vez se soube. O jornalista Paulo Farinha* escreve sobre esta grande revolução nas famílias portuguesas, que está a colocar os homens no seu lugar.

Ensaio de Paulo Farinha | Ilustração de Sérgio Condeço/WHO

Da primeira vez que a minha filha Carolina, então com 3 anos, me ajudou a selecionar brinquedos que ela e a irmã já não usavam, escolheu duas bonecas. A Madalena, um ano mais nova, escolheu uma. A ideia era levar roupa e outros bens a uma instituição que tem uma creche e acolhe mães adolescentes e respetivos filhos. Três bonecas a menos numa gaveta cheia não faria diferença às minhas filhas – mas esses três a mais podiam fazer a diferença em quem não tinha nenhuma.

Depois de terem ido comigo ver com os próprios olhos a nova casa dos brinquedos que generosamente tinham oferecido, a Carolina disse-me que queria escolher mais bonecas. Porquê, perguntei-lhe. «Porque eu tenho muitos e aqueles meninos e meninas precisam mais.»

O episódio ocorreu no verão passado, numa semana em que estive com as filhas em casa. Já tinha sido assim no ano anterior e será assim também neste. Como o jardim-de-infância delas fecha em agosto e não temos com quem as deixar, eu e a minha mulher tiramos alguns dias de férias alternados nesse mês. Uma semana eu, outra semana ela, quinze dias em família. Durante esses abençoados e cansativos dias, sou eu que as mantenho ocupadas, alimentadas, animadas, limpas, separadas em caso de discussão, juntas para sairmos de casa com a mochila pronta e sem mais delongas – operação que pode demorar até duas horas, contando com os alertas de «cocó!» quando já estamos na escada ou uma troca de roupa à última hora.

Penso nisso várias vezes durante o ano, mas naquela semana de agosto a ideia surge com mais frequência: tenho uma sorte danada em pertencer a esta geração de pais. Quase diria que este é o melhor momento da história da humanidade para ser pai se isso não soasse demasiado a verdade de La Palice – os nossos pais também terão tido melhores condições do que os pais deles. E eles, os nossos, não faziam metade do que nós fazemos hoje com os filhos. Azar o deles, sorte a nossa.

A mulher conquistou o seu lugar no mercado de trabalho e o homem passou a ocupar em casa uma posição que é sua mas que muitas vezes descurou.

Os tempos eram diferentes, as necessidades e dificuldades também, mas as mentalidades, essas sim, mudaram bastante. Com o muito que avançámos em tão pouco tempo, esta é, provavelmente, a maior evolução cultural familiar das últimas décadas. Ou devíamos chamar-lhe revolução? Desde que a vaga de emigração dos anos 1950 e 60 abrandou, desde que o 25 de Abril de 1974 provocou alterações legislativas que potenciaram a natural emancipação feminina e desde que as mulheres entraram com força no mercado de trabalho – mais tarde viria o planeamento familiar e o estrondoso aumento na frequência académica –, eles e elas começaram, aos poucos, a reposicionar o seu papel no trabalho, em casa e na família. A mulher conquistou a custo o seu lugar no mercado de trabalho (e tanto está ainda por conquistar) e o homem passou a ocupar em casa uma posição que é sua por direito e obrigação mas que muitas vezes descurou, em grande parte por ausência de exemplo e referência.

Um homem equilibrado, informado e interessado sabe hoje que pelos seis meses de idade o filho deverá começar a comer sopa passada e que é saudável e gratificante ficarmos cuspidos e com uma máscara facial de legumes cozidos depois das primeiras vezes que lhes apresentamos a colher. Sabe que se o almoço na escola é carne, o jantar em casa deve ser peixe. Sabe que a cadeirinha no carro deve ser sempre adaptada ao tamanho e peso da criança. Sabe que os telemóveis e tablets podem dar uma ajuda para manter a canalhada sossegada durante uns minutos mas que não é boa ideia passarem demasiado tempo agarrados àquilo. Sabe que os dentes deles devem ser escovados três vezes por dia e sabe que a obrigação de saber tudo isto é tanto dele como da mãe das crias.

Hoje, um pai equilibrado, informado e interessado aproveita o máximo que pode da licença parental que a lei permite quando lhe nasce um filho – assim a sua entidade patronal não lhe faça a vida negra. Muito se evoluiu, em legislação e mentalidades, desde que, em 2005, 413 homens partilharam a licença parental com as mães dos seus filhos. Destes 0,5% do total de licenças das mulheres desse ano passamos a 28,3% (20 128 indivíduos) em 2013, o último ano de que há registo junto da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE).

A recente alteração da lei, que passa de 15 para 20 o número de dias obrigatórios a gozar pelo pai, vem reforçar a necessidade de aproximar o homem da mulher nesses tempos decisivos em que chega a casa uma criatura nova que precisa de atenção e em que a mãe que precisará de doses equilibradas de mimo, chocolates, horas de sono, muito apoio na amamentação e distância de segurança para gerir o cansaço e o cocktail de hormonas. Tudo isto sem a presença de um enfermeiro disponível 24 horas quando se carregava num botão, como acontecia no hospital.

Haverá muitos pais que acham ridículo isto ser sequer referido. É mais do que assumido que devem e querem ocupar o seu papel na educação dos filhos e nas tarefas em casa. A tendência, espera-se, evoluirá nesse sentido. Até ao dia em que deixar de ser uma tendência. Mas há muitos que continuam a precisar de ser lembrados. E é para esses, também, que a lei estipula dias obrigatórios de licença em simultâneo com a mãe.

Estamos no bom caminho mas há ainda muito a trilhar. Em vários planos. Em casa, por exemplo, muitos homens continuam a fazer depender a intervenção nas tarefas domésticas e de cuidar dos filhos do auxílio que as companheiras lhes peçam. Eles estão sempre disponíveis, mas só se forem chamados. Entre o pai que faz e o pai que ajuda vai a distância de iniciativa que faz a diferença. Não basta ser preciso fazer alguma coisa – e estar ali à vista para ser feito –, é preciso ser convocado, requisitado para o efeito. Ao estarem disponíveis para «ajudar», muitos homens assumem, implicitamente, que é a mulher a responsável pela gestão, planificação e organização dessas tarefas. Eles podem fazer o jantar, mas são elas que decidem as refeições durante a semana. Talvez seja por isso, por ser culturalmente sobre a mãe que recai essa planificação, que não há no mercado bonecas que digam «papá». Isso, cuidar dos filhos e da casa, é tarefa de mãe. E de pequenina se passa essa informação – errada! – às crianças, uma espécie de informação tatuada no DNA, que é preciso apagar.

Nos tribunais também é preciso mudar o modo de pensar mais comum. Em caso de divórcio, a maioria dos juízes portugueses continua a não recomendar a residência alternada das crianças entre pai e mãe e, quando esta ocorre, é sempre alvo de um rigorosíssimo processo de averiguação das capacidades paternais para educar e cuidar de um filho. Tudo em nome do superior interesse da criança, é verdade, mas com um excesso de zelo e um preconceito para com o pai que já foram alvo de reparos em Homens e Igualdade de Género em Portugal, o Livro Branco que a CITE editou no início deste ano. Com a evolução dos tempos, os bons exemplos que chegam de países como a Bélgica, Holanda ou Suécia (onde a residência alternada é regra), e a chegada à magistratura de juízes mais novos, espera-se que a situação caminhe no sentido de sentenças ou acordos de regulação do poder parental mais amigas da paridade e do equilíbrio, com base na ideia de que a criança é mais saudável se tiver contacto regular com os dois progenitores.

E nas empresas, enquanto a desigualdade salarial entre homens e mulheres for tão gritante, continuará a ser sobre eles que recairá a tradicional ideia de sustento da família e serão elas que terão de continuar a sair mais cedo para ir buscar os miúdos à escola ou a faltar quando chegam as otites, bronquiolites ou gastrenterites. Pior que isso: a precariedade laboral obriga, hoje em dia, muitas mães e muitos pais a abdicar da totalidade da licença parental, por receio de represálias. Ou porque pura e simplesmente têm de trabalhar em mais do que um local para garantir algum conforto financeiro. Mas as coisas estão a mudar. Têm de mudar.

Entretanto, ser pai – e ser capaz de identificar estas dificuldades e obstáculos que é preciso derrubar – tornou-se, nos últimos anos, uma coisa muito cool. Quer dizer, isto sempre foi bom, a melhor sensação do mundo, como isto não há igual e um abraço de um filho ao fim de um dia de trampa, seguido de um «pai, gosto de ti daqui até à lua» atira para as urtigas todos os chefes parvos, todos os colegas com mau feitio e todos os relatórios atrasados que temos de fazer. Mas agora há mais: agora há sites sobre isso, livros de pais que partilham as suas experiências e nos fazem rir, crónicas de pais que contam as suas aventuras emocionantes e nos fazem chorar, conversas de homens que podiam ser as nossas próprias conversas, com as nossas dúvidas e angústias. Mais importante do que as mulheres acharem atraente que dois homens falem sobre as melhores T-shirts de algodão para as peles atópicas dos seus bebés é o facto de eles quererem mesmo saber onde podem comprar aquelas T-shirts. Para o tamanho certo dos filhos e já a pensar no verão seguinte.

As necessidades básicas dos nossos filhos estão asseguradas. Saúde, pão, casa, educação. O que resta? Desenvolvimento emocional e fazer deles bons seres humanos. Educá-los para a partilha, para a empatia, para a ecologia, para o amor.

A roupa que vestem, a comida que comem, os trabalhos de casa que têm de fazer, as atividades extracurriculares em que faz sentido inscrevê-los… Tudo isso é assunto de mãe e de pai. E tudo isso vai estando, de uma forma ou de outra, com maior ou menor efeito da crise, assegurado. Chegámos a um ponto, no Portugal do início do século xxi, numa Europa em crise de identidade mas num mundo mais conetado do que nunca, de conseguirmos ter as necessidades básicas dos nossos filhos asseguradas. Saúde, pão, casa, educação. O que resta, então? Se calhar o mais importante: desenvolvimento emocional e fazer deles bons seres humanos. Educá-los para a partilha, para o compromisso, para a generosidade, para a empatia, para a ecologia, para o amor.

Somos os pais mais bem informados que a mãe natureza pariu. E estamos a melhorar. Em grande parte com a ajuda essencial das mães, claro, que o trabalho em equipa faz-se melhor, estejam os progenitores casados ou separados, pouco importa. Podemos, então, concentrar-nos em criar adultos equilibrados. E esperar que eles o façam ainda melhor com os nossos netos. Dentro de um mês as minhas filhas vão escolher bonecas para oferecer. Aposto que este ano serão ainda mais.

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*Paulo Farinha é editor executivo da Notícias Magazine, onde assina todas as semanas as crónicas Vida em Comum. É também autor das crónicas Pai p’ra Toda a Obra, na revista Pais e Filhos, e do livro Ninguém Disse Que isto ia Ser Fácil (ed. clube do Autor). É pai da Madalena, de 3 anos, e da Carolina, de 4.