OPINIÃO

Emigrantes: o ansiado regresso a Portugal

O sonho de regressar ao país de origem, alimentado por muitos emigrantes em França, está a ser cumprido pelos filhos e netos, que escolhem viver, estudar e trabalhar em Portugal. À procura da metade portuguesa da sua identidade e empurrados pelos atentados de Paris e Nice, muitos lusodescendentes estão a mudar de vida e a rumar a Portugal. Querem ajudar o país a mudar. A poucos dias do final de agosto, quando muitos emigrantes regressam a França, histórias de quem quer ficar por cá.

Texto de Catarina Fernandes Martins | Fotografia de Jorge Simão

Nos dias que se seguiram aos atentados terroristas de novembro de 2015 em Paris, Cecília Cardoso teve a certeza de que viria viver para Portugal. Os avós maternos emigraram a salto para França nos anos 1960. Era graças a eles que aos 22 anos Cecília levava uma vida independente e confortável em Paris, trabalhando como chefe pasteleira numa das muitas pastelarias da cidade.

Mas depois daquele fim de semana fatídico trancada em casa, a poucos quilómetros do teatro Bataclan, Cecília soube que não queria viver num clima de paranoia e insegurança, de olhares desconfiados no metro, de sobressaltos amedrontados a cada aviso que chegava pelos altifalantes.

Em janeiro de 2016, trocou as ruas cheias de montras onde reluzem tarteletes de limão e macarons coloridos pelas de Leiria, onde todos os cafés são parecidos, mas onde Cecília decidiu abrir, com a mãe, uma pastelaria diferente de todas as outras.

Cecília nasceu, cresceu e estudou em França. Conhecia Portugal das férias na Marinha da Guia, perto de Leiria, e das palavras do pai, que sempre a lembrou de que «era portuguesa». Lusodescendente de terceira geração, nunca quis pedir a nacionalidade francesa. Num desses verões apaixonou­‑se por um português que não se adaptou à vida em Paris e que acelerou a realização do seu sonho, o mesmo sonho dos pais e avós: viver em Portugal. Os atentados foram um sinal de que estava a tomar a decisão certa.

Em janeiro de 2016, trocou as ruas cheias de montras onde reluzem tarteletes de limão e macarons coloridos pelas de Leiria, onde todos os cafés são parecidos, mas onde Cecília decidiu abrir, com a mãe, uma pastelaria diferente de todas as outras. Depois de ter vencido um concurso televisivo para escolher «a melhor pastelaria de Portugal», Cecília Cardoso, 23 anos, encerrou o negócio para abrir, sozinha, um espaço em Lisboa. Em Leiria, as encomendas privadas continuam a chegar, prova de que conquistou o seu lugar.

Ainda que para isso tivesse de explicar recorrentemente que não fazia croissant­‑brioche porque «há croissants e há brioches, são coisas diferentes» e tivesse sentido a necessidade de lutar contra «a dificuldade em arriscar novos sabores» que os portugueses têm. «Portugal está a ser uma loucura para as pessoas em França», diz. «Tenho amigos que me dizem: “Vou para aí ganhar menos, mas vou levar os meus filhos. Não quero que cresçam em Paris.” Está tudo a querer voltar às raízes.»

Os avós de Cecília Cardoso emigraram para França, nos anos 1960. Foi lá que ela nasceu e cresceu. No ano passado despediu­‑se de Paris e abriu uma pastelaria em Lisboa.

Com a popularidade de Portugal em alta, depois do boom turístico e das vitórias no Europeu de futebol em 2016 e no Festival da Eurovisão neste ano, muitos lusodescendentes, filhos e netos de emigrantes portugueses em França, estão a voltar os olhos novamente para Portugal. Alguns já o tinham feito durante a década de 1990 e o início dos anos 2000, quando o país vivia em crescimento económico e a Expo’98 e o Euro 2004 projetavam uma imagem cosmopolita de um Portugal moderno e jovem.

Nessa altura, o jornal Público dava conta de que em 1999/2000, «a Coordenação Geral do Ensino na embaixada portuguesa em Paris tinha recebido 2500 pedidos de informações para equivalências ao ensino médio ou superior português», o que à data surpreendeu tudo e todos.

João Sardinha, investigador no Observatório das Emigrações e estudioso deste fenómeno, diz que através da transmissão familiar, do associativismo juvenil, do programa Erasmus, do papel da RTP Internacional e das férias de verão em Portugal, muitos lusodescendentes alimentam o sonho de «redescobrir a portugalidade autêntica, de estar em Portugal entre os portugueses».

Num contexto de livre­‑circulação dentro da União Europeia, este «regresso» a Portugal, que na prática não é regresso porque muitos destes filhos e netos de emigrantes já nasceram em França, não tem de ser definitivo.

Aquilo que traz estes filhos e netos a Portugal tem muitas vezes que ver com «uma busca identitária», que pode ser vivida como um choque ou uma indefinição ou como uma vantagem, acrescenta o investigador José Carlos Marques, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, uma vez que estas pessoas podem ter «caixas de ferramentas mais ricas e com mais instrumentos, sendo por isso capazes de integrar diferentes contextos». Além do mais, diz, estes jovens e jovens­‑adultos emigram para Portugal «depois de traçarem um plano, de perceberem onde podem integrar­‑se profissionalmente, de realizarem estudos de mercado».

Há também o «desejo de contribuir, de dar alguma coisa nova ao país dos pais e dos avós», diz João Sardinha. Mas por vezes esses planos falham e a idealização é quebrada quando a realidade de certos hábitos culturais se impõe. «É fácil para nós dizer que já não há corrupção em França – claro que há. Mas há regras e maneiras de dizer e fazer e aqui achamos menos normal que essas regras não existam.

A burocracia, a corrupção, o chico-espertismo, uma certa ambivalência… esses traços que ainda encontramos em Portugal podem dificultar a integração», diz Hermano Sanches Ruivo, lusodescendente adjunto para os Assuntos Europeus na Câmara de Paris e membro do conselho de administração da Cap Magellan, a maior associação de jovens lusodescendentes em França.

Num contexto de livre­‑circulação dentro da União Europeia, este «regresso» a Portugal, que na prática não é regresso porque muitos destes filhos e netos de emigrantes já nasceram em França, não tem de ser definitivo. «Depois de alguns anos em Portugal e considerando que a mobilidade é sempre uma possibilidade, se as coisas não correm bem, as vertentes da identidade são deixadas de lado», diz João Sardinha, falando de uma geração que está continuamente «entre cá e lá».

Philippe Alexandre também é lusodescendente de terceira geração. Mas, ao contrário da jovem pasteleira, tem as duas nacionalidades e não cresceu a falar português. Na casa de Philippe, que tem 21 anos e nasceu nos arredores de Bordéus, filho de dois portugueses que foram para França ainda pequenos, só se falava francês. Durante anos, a única fonte de cultura portuguesa era a RTP Internacional. O português carregado de expressões afrancesadas que fala hoje ganhou­‑o nas férias de verão em casa dos avós paternos no Norte do país e num curso intensivo de língua e cultura portuguesas durante duas semanas no Porto.

Depois de ingressar na Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos) em Bordéus para estudar Relações Internacionais, Philippe quis regressar novamente a Portugal, desta vez para fazer Erasmus na Universidade de Coimbra. Foi nesse ano que se apaixonou pelo país. No jornal universitário A Cabra e na Rádio Universitária de Coimbra, aprofundou o interesse pelo jornalismo e encontrou num repórter português, Joaquim Reis, da Antena 1, um modelo para o seu sonho de ser jornalista especializado em questões internacionais e cobertura de conflitos.

Apesar de se sentir «francês a 90 por cento», Philippe continua a alimentar a curiosidade enorme que tem por Portugal e que, diz, não tem nada que ver com o facto de Portugal estar na moda. «Espero que este sucesso não seja passageiro, mas não é esta popularidade que me motiva. Isto só acrescenta mais luz a Portugal. A base já lá estava para mim. Ouvir dizer que Portugal está na moda só me faz sorrir.»

«Cada um tem de encontrar o seu lugar», diz Ana Sofia Oliveira, que nasceu em França e hoje tem uma empresa de marketing na área dos vinhos. «A mim calhou­‑me perceber que tinha um lado português inexplorado.»

A partir de setembro, Philippe vai viver novamente em Coimbra, para completar o mestrado e começar a desenvolver um projeto profissional que, espera, lhe permita viver entre os dois países. «Tenho uma atração por este país que me faz regressar sempre que posso. A maioria das minhas memórias inesquecíveis aconteceram em França, mas se eu passar muito tempo em Portugal talvez isso se altere.

Tenho uma atração dupla – quando estou em Portugal tenho saudades de Bordéus, quando estou em França tenho saudades de Coimbra… Vou esforçar­‑me por criar um projeto que me deixe estar cá e lá ao mesmo tempo.»

Ana Sofia de Oliveira mudou­‑se para Portugal no início do ano 2000. Os pais emigraram para os subúrbios de Paris no início dos anos 1970 e foi aí que ela nasceu, sem grande ligação à comunidade portuguesa. «Os meus pais tinham vergonha de falar português na rua e falavam francês connosco.» Quando Ana Sofia foi aceite na universidade de Sorbonne, os pais encheram­‑se de orgulho, sem adivinharem que nesse momento a filha começava um percurso que a traria para Portugal.

Ana Sofia sentia que não iria encontrar o seu lugar em França. Em 2004, também instigada por uma relação, mudou­‑se definitivamente para Portugal.

Durante a licenciatura em Línguas Estrangeiras Aplicadas, uma das melhores amigas, franco-iraniana de segunda geração que mantinha grande ligação à cultura dos pais e se interessava também pelas raízes de Ana Sofia, enchia­‑a de perguntas sobre Portugal. Ela não sabia responder.

«Acho que foi ela que começou a pesquisar e encontrámos uma associação de jovens lusodescendentes, a Cap Magellan. Fomos lá e acabámos por comprar bilhetes para ir ver os Silence 4. A minha iniciação a Portugal começou aí. Encontrei muitas pessoas como eu, filhas de emigrantes que não se reviam nas pessoas que conheciam na aldeia no verão.»

Em busca de um Portugal com o qual se identificasse, Ana tornou­‑se ativa na Cap Magellan e acabou por candidatar­‑se para fazer Erasmus em Lisboa, entre 2000 e 2001. Depois estagiou na RTP Internacional. «Cada um tem de encontrar o seu lugar. A mim calhou­‑me perceber que tinha um lado português inexplorado. Quando comecei a explorá­‑lo senti­‑me melhor», diz a lusodescendente de 38 anos sobre esse processo que a levou a perder a vergonha e a assumir a pele portuguesa.

No final desse ano, regressou a França para continuar os estudos, mas encontrava­‑se mais baralhada em termos identitários. Quando defendeu a tese de mestrado em Geopolítica Europeia, sobre a emigração e o lugar dos lusodescendentes na sociedade, a professora, de origem polaca, disse­‑lhe: «Sabe que a minha porteira também é portuguesa? E não é que os filhos estudam na universidade?» Ana Sofia sentia que não iria encontrar o seu lugar em França. Em 2004, também instigada por uma relação, mudou­‑se definitivamente para Portugal.

A decisão assustou os pais, para quem Portugal era «um país muito mau», que tinham deixado para trás a pé. Mas ela estava certa do que queria. «Deixei de ter a sensação de que tinha de encontrar e defender um lugar, como sentia em Paris. Aqui encontrei a paz interior.» Ao fim de mais de quatro décadas em França, a mãe juntou­‑se à filha e ao neto em Lisboa há dois anos e está a descobrir um país que não sabia que existia. «Estou encantada», diz Maria de Fátima Sousa. «Não troco por mais nenhum país. Deixou de me interessar ir a França.»

Mas Ana Sofia mantém a ligação com o país onde nasceu, aproveitando as vantagens de pertencer a duas culturas e vivendo num vai­vém profissional que ajuda a sua situação económica. O filho está a estudar no Liceu Francês e ela, que tem uma empresa de marketing na área dos vinhos, está envolvida na promoção de produtos portugueses em França, viajando pelo menos uma vez por ano para Paris e com frequência para o Reino Unido, Brasil e Hong Kong.

Diz que nunca pensou deixar Portugal, mas reconhece que é uma privilegiada por estar menos dependente da economia portuguesa do que muitos amigos, num país onde os salários praticados são geralmente «muito baixos». «Eu vivo cá e sou paga em libras. O meu trabalho depende de muitos contratos com o trabalho que desenvolvo no Reino Unido. O principal problema em Portugal continua a ser as elites. Os trabalhadores portugueses produzem mais quando estão lá fora, o que significa que não estão a ser bem geridos em Portugal.»

Mas tal como percebeu há mais de uma década que Portugal estaria um dia na moda, Ana Sofia diz estar profundamente convencida de que o país vai sofrer uma transformação profunda para melhor «nos próximos dez ou quinze anos».

«O bichinho de Portugal começou a mexer em mim e eu sabia que viria viver para cá, mas demorei dez anos a tomar essa decisão», diz a fotógrafa Estelle Valente.

Durante a crise financeira, quando alguns lusodescendentes abandonaram o sonho de viver em Portugal, Estelle Valente instalava­‑se em Lisboa. Os pais deixaram Ovar nos anos 1970 e foram para França com os cinco filhos, todos nascidos em Portugal. Ela foi a única que nasceu nos subúrbios de Paris. Paradoxalmente, foi também a única que expressou o desejo de viver em Portugal.

Estelle começou por trabalhar num call center, mas uma série de coincidências levaram­‑na onde está hoje, a viver da fotografia, trabalhando maioritariamente para o Teatro São Luiz e seguindo a fadista Gisela João.

«Uma vez escreveram sobre mim que havia nascido “carregada de saudades” e é isso mesmo», diz a fotógrafa de 41 anos que em 2010 se instalou em Alfama. Se Até aos 18 anos tinha alguma «vergonha» do lado português, a partir dos 20, quando descobriu a cultura e a música além do «pimba» das festas de aldeia, passou a dizer a todos que era portuguesa. «O bichinho de Portugal começou a mexer e eu sabia que viria viver para Portugal, mas demorei dez anos a tomar essa decisão.» Estudou Economia e defendeu uma tese de mestrado sobre a política económica de Portugal.

Quando uma amiga lhe perguntou se queria alugar a sua casa em Alfama, a economista não hesitou e mudou­‑se para Lisboa ao mesmo tempo que a crise económica se aprofundava. «Não tinha emprego, deixei tudo em França. Naquela altura todos me perguntaram porque me mudava, mas até hoje não tenho resposta. Estava dentro de mim. Era a luz de Lisboa…» Começou por trabalhar num call center, mas uma série de coincidências levaram­‑na onde está hoje, a viver da fotografia, trabalhando maioritariamente para o Teatro São Luiz e seguindo a fadista Gisela João.

Apesar de ter nascido «carregada de saudades», Estelle garante que tem uma mentalidade francesa. «Tudo o que consegui fazer está ligado a essa mentalidade francesa. Os meus pais não tinham dinheiro e eu consegui fazer estudos e dei aulas na faculdade. Sou o produto de uma mentalidade de menor desigualdade e que privilegia a ascensão social e é nisso que me sinto francesa. Nisso e na atitude de lutar na rua pelos meus direitos – em Portugal isso não existe.»

António Madeira percebeu em Portugal que é mais francês do que português, mas isso não o impediu de trocar Paris por Seia há cerca de um mês. Nasceu em Paris e estudou Engenharia, levando até há pouco tempo uma vida que compara ao enredo do filme A Gaiola Dourada. «O filme descreve bem a relação que os meus pais tinham com os franceses, uma relação submissa e de falta de confiança. Tive muitos problemas para me libertar disso.»

«Em Portugal é tudo à doidice, amanhã logo se vê, não há grande rigor, mas ao mesmo tempo há mais coração. Se conseguíssemos algo no meio – entre o cérebro e o coração – seria perfeito», diz António, entre a irritação e a esperança.

O sucesso nos estudos e na vida profissional fizeram que perdesse o «medo de arriscar», o que pode ajudar a explicar porque se instalou no sopé da serra da Estrela, perto de uma aldeia (Santa Marinha) que significava a liberdade total durante os meses de verão, quando a família deixava o pequeno apartamento nos subúrbios de Paris e rumava a Portugal.

Depois de terminar os estudos em França, quis ter uma experiência profissional no país dos pais e trabalhou alguns meses em Campo Maior. «Não sabia se era português ou francês, sentia­‑me no meio. Como se fosse espanhol,» ironiza. «Em Campo Maior disseram­‑me que a minha maneira de pensar era tipicamente francesa. E é verdade. Eu gosto de planear, organizar. Em Portugal é tudo à doidice, amanhã logo se vê, não há grande rigor, mas ao mesmo tempo há mais coração. Se conseguíssemos algo no meio – entre o cérebro e o coração – seria perfeito», diz, entre a irritação e a esperança.

António regressou a Paris para trabalhar na área de organização industrial. Mas continuou a visitar Portugal no verão, acabando por conhecer a mulher. E em França começou a interessar­‑se por vinho. «Percebi que a zona para onde vinha de férias e de que tanto gostava tinha tido grande importância na produção vinícola. O interesse tornou­‑se uma obsessão.» Em 2010 decidiu que queria produzir vinho e ajudar a relançar a região do Dão. «A história são ciclos que se repetem com atores diferentes. Dizem que o Dão já foi a Borgonha de Portugal. E vai voltar a ser.»

António quer «viver disto, mas também quero ajudar a região e o país. Tenho o sonho de criar aqui um espírito coletivo em torno da produção de vinho.»

Nos últimos sete anos, o engenheiro atirou­‑se à terra seguindo métodos comprovados
de cartografia, falou com os habitantes mais velhos das aldeias da região para identificar os melhores locais para a produção, estudou a técnica de produção de vinho ao pormenor, foi ouvir os melhores especialistas, procurou os melhores tanoeiros e começou a explorar as vinhas antigas.

«Quando já não podem cultivar a vinha, os proprietários gostam de saber que ela fica bem entregue.» Nos últimos sete anos não tirou férias para poder manter o trabalho bem pago em Paris e continuar a gerir a produção de vinho. Em 2014 lançou pela primeira vez as suas garrafas. No final deste ano conseguirá, pela primeira vez, ter lucro.

Mas o trabalho árduo desenvolvido nos últimos anos deixou marcas. António não teme o sucesso financeiro do projeto, está satisfeito com a qualidade de vida que tem agora. Mas receia que o choque de mentalidades impeça a sua adaptação. «Tenho o objetivo de viver disto, mas também quero ajudar a região e o país. Tenho o sonho de criar aqui um espírito coletivo em torno da produção de vinho.

Mas não está fácil. Gastei horas a explicar o que estava a tentar fazer e ninguém me entende. Interpretam isso como arrogância, dizem que estou a pôr­‑me em bicos dos pés. Chega um momento e fartas­‑te disso» diz, com cansaço acumulado e frustração. Mas talvez a semente que começou a plantar já esteja a dar frutos. Talvez aos poucos António consiga ajudar a mudar as mentalidades na região. E as histórias que conta mostram que mantém a esperança.

O sogro tem uma vinha com 80 anos e produzia vinho em casa, sem grandes condições de higiene. O vinho não era bom, mas ele não se apercebia disso, diz. A história repetia­‑se entre os outros homens na aldeia. Até que António lhe ofereceu umas pipas de carvalho, o ensinou a lavar os lagares. «Agora quando prova o vinho dos outros, já não consegue… Criou­‑se aqui um movimento. Provamos os vinhos uns dos outros, aconselhamo­‑nos. Há um grupo de dez pessoas que produzem vinho muito bom. O potencial estava lá, mas os métodos estragavam tudo.»

Ao contrário do filho, os pais de António não querem regressar a Portugal, onde viveram em pobreza extrema. Tal como eles, António sabe que em menos de meio século muito mudou. Pode ser que continue a mudar. Pode ser que aos poucos as mentalidades na aldeia mudem e, depois, quem sabe, pode ser que mude a região, que mude algo mais em Portugal. Pode ser que um dia António dê por si e se aperceba de que ajudou o país dos pais a encontrar um novo equilíbrio – entre o cérebro e o coração.

«A história são ciclos que se repetem com atores diferentes», diz António Madeira, que nasceu em Paris mas está a produzir vinho no Dão. «Esta região já foi a Borgonha de Portugal. E vai voltar a ser.»

A «doce vida» portuguesa atrai outros franceses

Em junho de 2014, o jornal francês Le Monde classificava Portugal como um paraíso fiscal para os reformados franceses, falando de um «novo Eldorado para os aposentados europeus». Há duas semanas, o mesmo diário fazia uma reportagem sobre «os franceses atraídos pela doce vida portuguesa», onde dava conta de vários casos de franceses que se tinham mudado para Portugal nos últimos anos. Em abril deste ano, o embaixador francês em Portugal dizia mesmo que Portugal é «o país da moda em França porque merece».

Quantos portugueses há em França?

Segundo a Cap Magellan, maior associação de jovens lusodescendentes em França, há 600 mil portugueses mononacionais e mais 800 mil franceses de origem portuguesa naquele país. O número de 1,4 ou 1,5 milhões de portugueses em França «é aceitável», diz Hermano Sanches Ruivo, um dos responsáveis da organização. A Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas diz que em 2013 havia 606 897 portugueses imigrados em França, sendo o país com a maior comunidade de emigrantes nacionais.

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