OPINIÃO

Como lidar com um filho adolescente?

A adolescência é um território movediço. As hormonas dos miúdos explodem, os pais perdem o chão. Renato Paiva, consultor pedagógico e diretor da Clínica da Educação, escreveu um livro que ajuda os progenitores a navegar nestas águas agitadas. Não tem soluções milagrosas, mas dá conselhos que ajudam a sobreviver a uma fase que dá muitas dores de cabeça.

Texto de Sara Dias Oliveira

E, de repente, eles, os adolescentes, já não dizem «mamã» e «papá». Os pais são chatos e cotas. Informam que querem ir à discoteca, juram que o cheiro a tabaco na roupa é culpa do café, perguntam se o namorado ou namorada pode ir de férias com a família. Não arrumam o quarto e querem vestir o que lhes apetece. Falam em piercings e tatuagens, arranjam pretextos para tudo. De repente, dizem alto e bom som que têm 15 anos e as surpresas não param. Já alguma vez ouviu uma coisa destas? Dizes para não me comportar assim, mas fazes exatamente o mesmo. Mãe, pai, este é o meu namorado, ele pode ir de férias connosco? Ah, mãe, essas revistas de mulheres nuas não são minhas. Só me vais buscar às quatro da manhã e não uma hora antes, ouviste? Levou ou não levo preservativo?

O corpo muda, as hormonas não param quietas, a escola é uma seca, os professores são chatos, os pais não sabem o que dizem. A adolescência é um período complexo. Apesar de tudo, é possível sobreviver a estes tempos agitados. Impor regras, estabelecer limites, saber negociar, conversar e não gritar, não perder a paciência, evitar comparações. Encontrar equilíbrios. Nem pais-helicópteros que não saem de cima dos filhos, nem pais altamente permissivos que fazem de conta que nada se passa.

Renato Paiva, autor de «Queridos Pais, Odeio-vos».

Não há soluções mágicas ou receitas infalíveis. Quanto mais controlo, mais resistência. É como tentar barrar manteiga fria num pão macio. Não adianta barrar com mais força porque o pão ficará despedaçado. Renato Paiva, consultor pedagógico em várias escolas, com experiência em formação de professores, diretor da Clínica da Educação e da Academia de Alto Rendimento, está habituado a lidar com adolescentes e pais. Com base em casos reais, Renato escreveu o livro Queridos Pais, Odeio-vos (ed. Esfera dos Livros). Não é um manual com soluções, é um livro que aborda temas como a sexualidade, os amigos, as saídas à noite, vícios. Porque, deem-se as voltas que se der, é preciso compreender os filhos para que a adolescência não seja uma grande dor de cabeça. «Um pai tem de saber o básico, mas não pode ser um inspetor, um fiscal, nem ter uma câmara o dia todo apontada ao filho. Deve dar-lhe liberdade e confiança. E esta confiança é mais fácil de conquistar do que se pensa. A confiança conquista-se demonstrando-a», sublinha Renato Paiva no seu livro.

A adolescência é uma caixinha de surpresas e há frases que custam a digerir. Mãe és uma chata, não me deixas fazer nada. A verdade é que as mães são mesmo chatas. «Uma mãe como deve ser tem de pregar sermões insuportáveis, tem de assumir os seus valores e convicções sem medo, confirmar se os dentes estão lavados, apagar a televisão a meio de um programa, assim como desligar (sem remorsos) as geringonças eletrónicas se alguma das crias se recusa a ir para a cama, por se julgar na obrigação de pôr a conversa em dia com todas as amigas e inimigas», avisa Renato Paiva.

 

«Uma mãe como deve ser tem de pregar sermões insuportáveis, tem de assumir os seus valores e convicções sem medo, confirmar se os dentes estão lavados, apagar a televisão a meio de um programa», diz Renato Paiva.

Se dizemos que sim, voltam a pedir. Se dizemos que não, inventam outra solução. Não há como escapar e, por isso, não adianta andar às voltas para evitar situações. «São as regras que funcionam como carris por onde se anda. São elas que orientaram ontem e orientarão hoje e no futuro». Há uma coisa importante. Os pais devem dizer aos filhos que o universo não gira à volta deles. Ponto final. «Fazer os filhos sentirem-se amados é fundamental, mas não os façam sentir-se os reis e as rainhas lá de casa. São os príncipes e as princesas, não os reis nem as rainhas. Especialistas defendem que, para crescer, é preciso que os filhos chorem e sintam dor, vivam conflitos e que se sintam confrontados».

Eles crescem e dizem, como se tivessem o rei na barriga, tu não mandas em mim. Para tudo. Eles acham-se maduros, adultos, que sabem tudo, que não precisam dar explicações. «Mas precisam. E o ideal é fazer com que isso aconteça naturalmente, sem a necessidade de exigir explicações. Se os adolescentes forem tratados com respeito, normalmente retribuem da mesma forma.» «O nosso afeto, combinado com a nossa firmeza e supervisão constantes, continua a ser indispensável, pois, apesar de ‘grandotes’, eles ainda não são adultos», acrescenta o autor do livro.

«Fazer os filhos sentirem-se amados é fundamental, mas não os façam sentir-se os reis e as rainhas lá de casa.»

Negociar tem mesmo de entrar no vocabulário dos pais, mas sempre na lógica de cedências de parte a parte e nunca com a ideia de vencedores e vencidos. Castigar: sim ou não? «Considero que a disciplina não deve ser sinónimo de castigos ou berros, mas vista como uma perspetiva orientadora e educacional.» Se tem de haver castigo, se é mesmo necessário, então que seja cumprido na íntegra. Não se deve proteger do que corre menos bem. «Os bons pais preparam os filhos para os aplausos; os pais brilhantes preparam os filhos para os fracassos», lembra Renato Paiva.

No processo delicado da adolescência é preciso conversar e não gritar para não perturbar a comunicação. Explicar com calma. Proibir, censurar ou desprezar namoros não é produtivo. É uma altura especial. «É tempo de orientar, aconselhar sem julgar, apoiar, estar por perto e disponível, porque essa é a postura mais eficaz.» Afinal de contas, a adolescência é uma etapa importantíssima no crescimento dos miúdos que serão os homens e mulheres do amanhã.

O autor

Renato Paiva tem o curso de Professores do Ensino Básico, é mestre em Multimédia na Educação, e é diretor da Clínica da Educação e da Academia de Alto Rendimento. É consultor pedagógico em várias escolas, tem experiência em formação de professores, bem como na área da orientação escolar para pais e alunos e no apoio a dificuldades de aprendizagem. Tenho de Passar de Ano e Ensina o Teu Filho a Estudar são dois dos livros que já escreveu. Colabora regularmente com a imprensa, onde escreve para as revistas Pais e Filhos, Coisas de Criança, Mãe Ideal.

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