Qual a corrida perfeita?

taxista e condutor da Uber

Publicidade

Táxi ou Uber?

Brincámos com o fogo. Juntámos um taxista e um condutor da Uber. Não houve sangue, mas nenhum deles dá o braço a torcer…

Max Ferreira é um taxista lisboeta patrão de si mesmo e veterano da praça. Não é anti-Uber, mas defende a sua dama: «Nós, os taxistas, temos um contacto mais próximo com as pessoas… E somos mais rápidos, temos a faixa BUS. Os Uber não podem, ou arriscam-se à multa!»

Jefferson Barroso veio do Brasil, começou há seis meses como condutor e agora coordena as operações de 30 carros. Os dados para o duelo ficam lançados e a primeira farpa vem do homem da Uber: «Já tive infelizmente más experiências com táxis: a higiene e a qualidade dos carros não era a melhor. Na Uber há uma preocupação nesse departamento.» Max, por seu turno, garante que o seu táxi tem todas as condições de higiene e garante, com ironia, que nunca trabalha de fato de treino nem usa palito ao volante. Sobre as bocas dos antitaxistas em relação às muito faladas corridas inflacionadas, responde assim: «Atenção! Em todas as profissões há pessoas honestas e desonestas. Não posso dizer como é na Uber. Nunca utilizei o serviço. Mas uma coisa é certa, com um clique também pode chamar-se um táxi. Também damos uso à tecnologia, seja pela ANTRAL, seja pela Autocoop, seja através de créditos fixos.»

A conversa progride e Max também garante que nunca foi nem será hostil para um Uber, mas o que lhe faz mesmo impressão, diz, é a questão dos impostos: «Cumprimos em impostos e em cursos de formação para nos profissionalizarmos. O que peço é que da outra parte exista também regulamentação e responsabilização! Nós somos fiscalizados diariamente!»

«Falsa questão», contrapõe Jefferson: «Tudo o que ganhamos é declarado. Os nossos carros têm seguro para os passageiros, como qualquer táxi. Mas é claro que viemos incomodar os taxistas. A Uber está a crescer… Primeiro, os taxistas sofreram a ameaça dos tuk-tuks, agora a Uber.»

«Há espaço para todos. Para nós, para a Uber e até para os tuk-tuks», afirma Max, o taxista. Jefferson acaba por concordar e elogia o espírito lisboeta: «A capital recebeu-nos muito bem, em especial os mais jovens. Sinto que as pessoas estão muito satisfeitas com o nosso trabalho. É uma cidade ótima para a Uber devido à sua vertente de trabalho e de turismo. Agora chegou outra vantagem: a Uber Green, o carro híbrido que atrai os mais ecológicos. O nosso sucesso tem que ver com o tratamento diferenciado que damos ao cliente. Por isso, não fazemos propaganda nos media – conseguiu-se toda esta notoriedade através do boca-a-boca do utilizador da aplicação. Qualquer um de nós passa por uma bateria de testes.»

Quando ouve muitos elogios à condução dos motoristas Uber, o nosso taxista torce o nariz: «Ainda no outro dia vi um Uber a levar um cliente para um beco sem saída… O rapaz estava todo atrapalhado. Olhou para mim assustado, coitado. Só lhe disse: “passe à vontade”. Tenho visto muito condutores da Uber maçaricos. E sei também de uma história que todos contam de um acidente num carro Uber que deixou uma senhora com um problema nas costas. Ora, ao que parece, o carro não tem seguro e a senhora está tramada. A verdade é que isto dos Uber já se sente. Estamos a ser prejudicados.»

O seu oponente, com um sorriso aberto, desvaloriza e prefere falar de outra vantagem da Uber: «O cliente sabe à partida quanto vai ser o valor da corrida. Não há margem para enganos no caminho. Isto para não falar de que é muito mais barato do que os táxis. E volto a realçar a vantagem de sermos mais simpáticos. Enfim, percebo a hostilidade dos táxis. A nossa inovação mexeu com eles! Os taxistas não podem pensar que isto era um monopólio deles. Os uberistas, na minha opinião, são bem diferentes dos habituais consumidores de táxis.»

Dê por onde der, há sempre quem vá preferir a rapidez tecnológica de carregar num botão e ter transporte, enquanto muitos nunca vão abdicar do encanto old school de gritar de forma espontânea na rua por «táxi!».

MAX FERREIRA
Lisboeta de gema, 56 anos, filho de um motorista de praça. Já há 16 anos que é taxista. O seu filho, de 30, também trabalha com ele. A sua grande embirração com os Uber passa pelo facto de não terem de pagar os impostos que ele paga como patrão do seu táxi.

JEFFERSON BARROSO
Brasileiro, 42 anos, está há seis meses a trabalhar para a Uber. Diz que trabalho não lhe falta. Antes da aventura Uber trabalhava em São Paulo, num escritório. Até hoje ainda não teve problemas com taxistas, mas está avisado quanto aos perigos no Aeroporto de Lisboa. Sente que a Uber veio para «inovar».